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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

22
Out22

Amigos na doença

Joaquim Morais

 

 

  O meu pai, a quem o sorriso a palavra e o gesto amigo nascidos da presença do outro nunca faltaram, está doente. É a sua sombra, que numa cama de hospital o teima, tentando encontrar nesse lugar de circunstância, terreno onde lançar a semente da sua entranhada condição de ser marcadamente social.

  É comovente a inquietação do olhar em busca de outro que o acolha. Não está sozinho na sala de medicina interna que ocupa. Os quatro internados onde se inclui, são idosos, sendo que o mais próximo ainda fica longe do seu desgastado ouvido. Mesmo assim, e quando os olhares se ligam, atreve-se ao diálogo; As palavras desafiam a distância sem complementos de gesto nem sorrisos; apenas palavras: as que o digam e as que tragam o outro para dele saber. O afastamento e a doença condicionam o discurso e fazem-no telegráfico. Por entre as inúmeras hesitações do ouvido, o meu pai consegue dele a informação elementar: o nome, a idade, a terra onde nasceu, a ocupação profissional e a doença que o prende à cama.

  Juntá-lo-á à infindável lista de amigos que os noventa e cinco anos de vida lhe foram oferecendo, e que a memória conserva com orgulho.

30
Jul22

os pescadores e os deuses

Joaquim Morais

 

  Do alto das serras do redor, desceram ribeiras com sonhos mareantes. Talharam na terra novos rumos; fizeram-se ria; e abriram as portas do mar aos que na imensidão tinham o destino e a razão.

 

  No lugar, o azul intenso que do sul acenava marulhando na praia as vozes da lonjura, preenchia as vontades e dizia-se caminho. Quase nada, para além dessa sedutora via.

 

   Entre a terra e o azul profundo, a mansidão da ria; uma largueza de águas vivas respiradas pelo vigor da lua; o lugar da iniciação, onde o aprender rimava com o ser; o repousado ensaio para a peça por vezes dolorosa, que os homens decidiam levar à cena em mar aberto.

 

  Porventura fascinados pelo canto e pela cor, ou porque a terra pouco ou nada tinha para lhes dar, foram muitos os que se fizeram pescadores. Viveram o desconforto da faina em precários berços de tábuas, ao sabor dos elementos, e navegando as emoções que as circunstâncias urdiam.

 

  Aos barcos, que o tempo decidia, impelia-os a força de vigorosos braços. Forjados no calor da faina, e temperados por bátegas de sal governadas pelo vento, tinham nas mãos o desenho das incontáveis remadas, escrevendo rotas que as estrelas ditavam. Quando reinavam sopros bonançosos, festejavam-se as tréguas, emprenhavam-se velas, e nasciam na proa dos botes, risadas de alabastro que os olhares celebravam.

 

  Porque era dura a faina, e por vezes violenta a escrita do mar, os homens chegavam-se aos deuses: diziam-no nas vistosas amuras das pequenas embarcações, inscrevendo nelas os eleitos da sua devoção. Consagrados pelo culto e sustentados pela crença, era suposto estarem a seu lado, quando tivessem que afrontar o aperto ou a má sorte.

 

  No tempo, e quando ao largo medravam ameaçadoras sombras e crescia a incerteza, algumas mulheres rezavam na praia, alternando os olhares entre o céu e o mar revolto

 

 

  Pelos meus avós, ambos pescadores, e por todos os que trocaram a relativa e provável firmeza terrena, pelo exíguo espaço dum barco a vogar a inquietação e o imprevisto, fica, mais uma vez, a notícia dum tempo e dum lugar onde os milagres dos homens eram obra dos deuses.

 

24
Out21

Primeiro os idosos

Joaquim Morais

 

 

   Quando saíamos para revigorantes caminhadas nos passadiços da ria de Alvor, o caminho de regresso a casa levava-nos muitas vezes à mercearia da Sandra.

   A sua vista lembrava quase sempre uma necessidade de última hora, e a leitura das estantes ditar-nos-ia tudo o resto, que, por vezes, não era assim tão pouco.

   Para quem a memória das faltas se apagara, o volume de compras final era deveras surpreendente.

   Voltou a acontecer desta vez. Aliás, acontecia muitas vezes.

   O espaço era acanhado, o que obrigava por vezes a esperar lá fora.

   Na altura, a pressa não me afligia. Aguardei no exterior, e surgiu entretanto a oportunidade de conversa com inesperado interlocutor, pelo que, o tempo, feito de palavras, suavizou a demora, e fez da espera agradável prefácio.

   Após falas de poucos dedos, e quando me pareceu acertado, entrei, mas a estreiteza do espaço tornava difícil o giro entre prateleiras.

   Condicionado pelo abreviado recinto e rodeado de gente, virei a atenção para as coisas pretendidas, e para outras que as estantes iam acenando.

   Compras terminadas, e, tal como noutras vezes, a surpresa da quantidade que a ideia inicial não pensara.

   Provido do indispensável e do acessório, cheguei-me à fila da caixa e aguardei.

   À minha frente, de sacos na mão e deslocada da ordem, uma jovem conversava animada com alguém, descuidando o lugar. Já perto da caixa e não querendo adiantar-me, alertei-a dizendo que era a sua vez.

   Olhou-me, com ar feliz e sorridente, e disse-me:

 - Não, faz favor, primeiro os idosos!

  Agradeci, claro, e sorri também. Muitos mais riram à minha volta. Alguém, pela primeira vez me chamara idoso, o que, não sendo totalmente verdade, também não era inteiramente mentira. Ainda não carregava o peso da palavra, mas já percebera a mudança.

   Raios partam o tempo, o que nos faz.

   Lá fora, disse a um amigo de tempo igual e rimos, rimos da nova, “velha” condição.

   As marcas do tempo, as claras e subtis evidências do dia-a-dia e a transparência sombria do envelhecer, comprovadas pelo olhar risonho de alguém a quem os anos ainda não pesam.

 

 

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