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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

20
Set22

Danças de fugidia luz

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

Danças de fugidia luz

 

 

A obscura mensagem dos sentidos,

O inquieto labor das emoções

Que voluteiam a sua imprecisão

Em danças de fugidia luz.

No turbilhão do círculo, sílabas fugazes

Ensaiam fortuitos acordes.

A música ilumina a palavra

Que nasce serena e clara,

E a bonança regressa nas asas do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Navegações

 

 

 

Sem flor nem luz

Navega-me o leme do vento

Nos mastros nus.

A estreiteza do rio apressa a vida

E a foz desenha-se sem brilho nem glória.

Esmaga-me o algodão do relógio

E o desejo naufraga

Na tormenta do tempo.

 

 

 

 

 

 

 

Sobressalto

 

 

 

 

Procuro o sobressalto das palavras.

A surpresa da sua transparência sombria.

Que sejam pontes, barcos,

Pétalas perenes nos canteiros do vento.

Que a sua música permita

A dança dos Espíritos.

E o seu perfume

Rescenda o ar do seu dizer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flor de Outono

 

 

Os ramos acenam serenas despedidas

E em cada árvore se acende

O esplendor da decadência.

Há uma ânsia de terra

Na palidez das folhas.

Um desejo cinzento.

Um voto,uma certeza.

Os rumores são ecos de silêncio

Que pulsam nos rituais do tempo.

A nudez é uma flor de Outono

Com raiz de vento, perfumada de terra

E matizada pelo olhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cristalina escuridão

 

 

 

Do chão erguem-se páginas de verde

Tingidas pela poesia dos cachos.

Versos de pétalas ausentes,

Ditadas pelo fogo, pela chuva e pela terra,

Que o canto das leveduras irá converter

Na cristalina escuridão dum poema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tecendo a vida

 

 

 

No tear do tempo que me assiste,

Entrelaço os fios da fantasia.

Lanço a trama, teço o dia-a-dia.

Dou-lhe relevo, dou-lhe forma, dou-lhe cor.

Dou-lhe o ar da tristeza ou da alegria.

Dou-lhe a feição

Do desengano ou do Amor.

E da tela, assim entretecida,

Vai nascendo o poema que é a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conquistas

 

 

 

 

 

O vento respira o lugar,

Insinua-se, habita-o,

Toma os perfumes secretos

E sopra no redor suas conquistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conjugações

 

 

A lua convida-me às palavras.

Que o ditame as revele

Conjugando o canto

Com a graça da visão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Desafios

 

 

 

Não resisto aos desafios

Da primavera.

Os versos abundam;

Que o olhar os perceba

E o canto os desperte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caminhos do sul

 

 

 

Soaram aos sentidos

As notas da fugidia chama.

Cânticos de cor na voz do cisne

E a lenta agonia dos contrastes.

No céu exemplar

A geometria das aves

Nos caminhos do sul.

 

 

 

 

 

 

Vazio

 

 

 

No palco dos desejos

Apenas claridade branca

Um vazio de luz

Que aguarda a noite do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

Traduções

 

 

 

Que as palavras traduzam

A veemência do desejo.

Que tenham a subtileza do ar

E a leveza do voo

 

 

 

 

 

 Um olhar

 

 

                                 Acendi na cal o olhar

                                 Que uma súbita gaivota preencheu.

O muro, estreito,

Margina a foz da existência.

Talvez o mar esteja por perto.

 

 

 

 

 

 

Fogachos na tormenta

 

 

 

 

Avulsas, dispersas,

Filhas de mórbida inquietação.

Não serão mais

Que fogachos na tormenta.

Barcos reféns de pesadas âncoras

A caturrar versos nas amarras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os sonhos do pousio

 

 

 

 

Fragmentos de poente

Que esvoaçam nas aragens

Em pálidas despedidas.

Pássaros decadentes que aspiram

Aos ninhos da terra

Onde a alquimia do tempo

Torna possível os sonhos do pousio.

 

 

 

 

 

 

As mãos da terra

 

 

 

 

O silêncio e a noite

Incendiaram os gritos do ar.

Vinham do sul

A tocar a harpa da chuva

E a exaltar a inquietação do abismo.

As mãos da terra

Modelaram o barro do clamor.

 

 

 

 

 

 

 

Nas amuras do vento

 

 

 

 

 

Ressuscitam os dorsos nas

Amuras do vento

Com a proa a desfolhar nas cavas

A flor do sal.

O leme e a quilha teimam a rosa

Enquanto as mãos caçam

A luz branca

Que acende o veleiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10
Jan22

Os caminhos da água

Joaquim Morais

 

 

Brotam no silêncio austero

dos íngremes recantos da terra,

e em cada gota trazem a imensidão e o azul.

Soletram as pedras que dizem do seu norte,

e navegam rasteiras estrelas,

até que o mar os tome, e nos canteiros do sol

acendam os humores do vento.

Voltarão na suspensa leveza das alturas,

esperando que a harpa da chuva

execute a música do tempo.

14
Dez21

Talvez poesia

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

no princípio era o silêncio

e as palavras diziam

seu gesto e seu rumor

 

 

 

palavras novas

 

dos poetas chega a notícia

das palavras novas.

Palavras que ousam o lado invisível

da respiração do mundo,

e nos trazem o en(canto)

da sua perfumada estranheza.

 

 

 

O verso que nos cabe

 

quando às vezes decidimos a quietude,

e tudo repousa no olhar,

ouvimos a música.

Talvez traga com ela

o verso que nos cabe.

 

 

 

Vagaroso reparo

 

Sufoca-nos o brilho redundante,

enquanto na leira dos detalhes,

se perde a colheita do vagaroso reparo.

A safra dirá dos brandos sobressaltos

das coisas furtivas,

e das sóbrias palavras que suscitam.

 

 

 

A árvore e o vento

 

Já que a raiz não lhe consente,

pede ao vento

que respire seus perfumes na lonjura.

Que leve a sua primavera

até onde o ar permita,

e em cada sopro diga

de sua formosura.

 

 

 

Roseiras

 

Mostram ao mundo

a cor e o perfume,

e quando o gesto se atreve,

o desencanto da inesperada dor.

Será que a graça

cobra mágoas pelo amor.

 

 

 

Rotas infindáveis

 

O poema irá para onde o levar

a deriva das suas infindáveis rotas.

Conduzem-no os vislumbres do trajecto

e a aleatória rosa do seu leme.

 

 

05
Set21

O outro tempo da pesca da sardinha

Joaquim Morais

 

 

 

 

   De cristal o mar e cintilantes as formas que o animam. Despontam na flor da água, ondulando a timidez. Navegam os beijos do vento, até que o tempo diga se o porvir mantém gentil o sopro, ou se é feito de gene capaz de embravecer.

   Sem pétalas de sal à vista, parecem mais talhadas por delicado cinzel, de presumível pertença a amistosa viração.

Muito ao largo, cercada do azul que o sol acende, e sem que à vista conceda a terra mostra alguma, há uma traineira que ao mar lançou a sua rede.

   O mar é fundo e não apoquentam as incertezas da pedra; por isso, a retenida corre vagarosa nos tambores do guincho; há-de trazer à borda por bombordo, as argolas que fecham a rede, barrando a fuga pela aberta, e encerrando do lance a parte primeira.

   Desponta o sol e descobrem-se as cabeças em respeitosa saudação.

   Faz-se tempo de alar a rede; a prendem as mãos e se ensaia a melopeia que a adoça.

Imensa, negra de azeviche, repassada de breu e voejada de estridentes gaivotas,estende-se como um leque ao lado da embarcação.

  O canto e os braços em esforçada sintonia, e a rede, medrando a bordo, pesada e vagarosa, preenchendo a ausência semeada no mar da esperança.

   Na popa desenham-se as voltas do corcho, que cresce com a rede em criteriosa arrumação.

  A cantilena confronta a canseira; desafia-a na monocórdica harmonia que alguém entoa; depois, a uma só voz, a solidária resposta da companha às pretensões do desalento.

  Prossegue a faina melodiosa e dura.

  Exige-a o mar, tomado nas entranhas. Por ora, apenas esforçado labor, que reina a bonança e o tempo sorri.

  Vão os olhos percorrendo a rede que se apouca. Buscam nos sinais vislumbres de pão.

  No convés que corre por bombordo da popa às argolas, cresceu o corcho e a rede, e no barco a graça da inteireza.

  Na chata julga-se o lance; mede-se o sucesso ou o fracasso; as razões se de revés se trata, que a sorte explicações dispensa.

  Afloram cardumes que percorrem a rede que o canto aligeirou e os braços porfiaram.

  Do cerco já muito abreviado, irrompe um turbilhão de prata vibrante, que ilumina o olhar.

28
Ago21

O voo de Raimundo

Joaquim Morais

 

 

 

  Raimundo sempre se sentiu em harmoniosa ligação com o céu. A permanente empatia, a sua fixação pelas alturas e o propósito inabalável de navegá-las, acompanhava-o desde criança, e com o encantamento próprio das mágicas epopeias.

  Porventura ocultas teorias, das que nos situam em remotas e variadas existências fora da humana condição, pudessem vir a considerá-lo de entre os que do alto precederam.

  De braços abertos e peito ao vento, cabelos soltos, alinhados pela brisa que o correr acentuava, em vão batia as pretensas asas. Fazia-o, apesar de tudo, com a convicção que a persistência e o tempo haviam de levá-lo a elevados portos.

  Raimundo crescera sem esmorecimentos na vontade de voar.

  Se outros homens em tempos decidiram o mar, e nele pintaram o quadro das suas vidas, porque razão não haveria ele de cortejar subidos lugares, para neles habitar o desejo que a vida porfiava.

  Queria fazer do céu a sua janela do mundo. Queria, suspenso das alturas, perceber a terra, para lá da nivelada extensão do olhar, e dela partir sempre que a largueza do suspenso azul lhe convocasse.

  Elevar-se no espaço por entre nuvens, ou deslizar na etérea transparência teria de ser o seu destino.

  O pensamento, há muito afastado de rasteiros desígnios, ocupava-se agora de encontrar um meio, que tornasse possível a complicada tarefa de levar o olhar à dimensão que as alturas ofereciam.

  Também por isso, Raimundo achou que apenas ponderado engenho, poderia tornar possível feito tamanho.

 

  Em criança, a sua vida não tinha sido fácil. De origens humildes, as dificuldades acompanharam-no sem abrandamentos, e o calvário da sobrevivência foi sempre o caminho.

  A tudo isso juntou-se o exagero do pai no consumo de álcool.

  Valeu-lhe, que o vício nunca gerou a costumada violência, e, muito pelo contrário, quando acontecia apenas lhe provocava infindáveis e pacíficas horas de sono.

  Benigno desconcerto, que viria a ser de fundamental importância para o que se seguiria.

 

  O encontro, fortuito, deu-se na barbearia do meu pai: Lugar de passagem e de conversa, e da diversidade da notícia, que a habitual e considerável humana presença ia produzindo.

  Raimundo aguardava que o barbeiro António Morais, lhe tirasse de cima os anos com que as suas palavras rematavam em cada cliente, a conclusão da obra.

  O corte da barba, e, ou, cabelo, provocavam contentamento recíproco, e o novo ar era sempre, e de viva voz, sublinhado pelo mestre.

  Passei, como noutras vezes, para no suplemento infantil do jornal diário treinar a leitura que a primeira classe iniciara.

  Não me lembro de já o ter visto antes.

  Olhou-me, perguntou se gostava de ouvir histórias e convidou-me a ouvir a sua.

 

  Fascinou-me sempre ouvi-las. Primeiro, contadas, de viva voz, por quem se dispusesse a fazê-lo. Aí, contou e pontuou o meu avô materno, figura nem sempre simpática, mas que o enredo transformava em empenhado e afectuoso narrador.

  Depois, e quando me brindou o saber dos sinais que tecem as palavras, decifrando os quadros, onde, inscritos, soletravam a sua comovente magia.

 

  Disse-me Raimundo o que já sabemos da sua determinação em voar. Direi agora o que as suas palavras desvendaram do que ainda não conhecemos.

 

  Raimundo vivia no campo e tinha o saber da terra. Cresceu rodeado dos seus incontáveis segredos, e fez da sua aprendizagem uma causa, para ajudar a adiar o esquecimento aos que, em permanência, se alheiam da sua relevância.

  Desvendados que foram os segredos da terra e das criaturas do seu reino,era no céu que se abria e se oferecia, que queria muito escrever uma página diferente.

 

  Pelo lugar onde vivia, passavam ao fim do dia enormes bandos de gralhas que cobriam o céu, e se dirigiam para os rochedos do litoral, onde pernoitavam nos inúmeros fojos que entre penhascos abundavam.

  Lembro-me delas em criança, e de, com outras crianças, associar a sua passagem à ideia de matrimoniais festejos, como se de humanas criaturas se tratasse.

  Acesa pela presença das gralhas nas falésias, aportou à memória  a frequente embriaguez do pai, e o remate feito de anestesiantes e prolongadas sonecas.

  O pensamento fervilha sempre que presente está a intenção de mudar qualquer coisa no rumo das nossas vidas. Laborava o de Raimundo como nenhum outro, que há muito procurava alternativas à rasteira forma de passar os dias.

  Homem de prático saber, decidiu de pronto ensaiar o que lhe foram ditando as especulativas reflexões sobre os efeitos anestesiantes do álcool.

  Aguardou pelo fim do dia, e, munido de pinga que bastasse, pôs-se a caminho das falésias onde pernoitavam as gralhas do plano.

  Havia um poço, enorme, que a preia mar banhava nas areias do fundo, e os temporais de inverno galgavam, paredes acima, espirrando bátegas de esvoaçante babugem até à superfície.

  Raimundo assinalara-o pejado das aves eleitas, que se abrigavam em pequenos vãos, irregulares, talhados pelos elementos nas paredes interiores. Em volta do poço, havia inúmeros afloramentos rochosos, desnivelados e preenchidos de pequenos sulcos e fendas, que no inverno retinham as águas da chuva, e funcionavam como bebedouros para os animais que a terra acolhia.

  Pequenas nesgas de terra intervalavam a rocha compacta e permitiam carrascos e aroeiras que as felosas saltitavam.

  A escuridão já tomara conta do lugar, e Raimundo já preenchera fendas e sulcos com a esperançosa vinhaça.

  Regressou a casa, e a noite, longa e vagarosa como poucas, trouxe-lhe inevitavelmente, o desassossego da insónia.

  Levantou-se muito antes que do sol assomasse afogueado preâmbulo. Cirandou até ao razoável calcular do tempo de espera, e fez-se ao caminho, com o sol desperto, e a interpretar exemplarmente o seu papel no palco do verão.

  Equipado com as cordas que o estratagema recomendara, depressa chegou ao local.

  A surpresa do quadro deixou-lhe sem palavras: dezenas de gralhas espalhadas pelo chão, mais ou menos adormecidas, jaziam prostradas em comovente e forçado abandono.

  Passada que foi a impressão primeira, Raimundo começou de pronto a urdir a arrumação das cordas que o iriam unir às adormecidas aves. Com o cuidado e a atenção que a situação exigia, concluiu o trabalho, e aguardou tolhido pela emoção, que tudo acontecesse.

 

  Raimundo quis contar-me do voo. As palavras que sabia, eram as que a terra lhe ensinara para traduzir o que à terra dizia respeito.

  Por isso, Raimundo escolheu o silêncio, e o silêncio ditou-lhe um poema feito de palavras por dizer.

 

 

10
Jul21

Um olhar sobre o olhar

Joaquim Morais

                                

 

                              

                                 Olhares diversos,

que vagueiam pelo mundo,

olhares bondosos, olhares perversos,

olhares que tocam ao de leve,

olhares que veem mais profundo.

 

                                 Olhares irrequietos,

que se movem agitados,

olhares atentos, circunspectos,

olhares serenos, olhares meigos,

olhares pacientes, resignados.

 

Olhares matreiros,

que observam com malícia,

olhares discretos, sorrateiros,

olhares intensos,

olhares que veem com argúcia.

 

Olhares vivos,

que faíscam de brilhantes,

olhares soberbos, altivos,

olhares sinceros e risonhos,

olhares finos, penetrantes.

 

Olhares frios,

que se quedam enigmáticos,

olhares que causam arrepios,

olhares místicos,

olhares tristes e apáticos.

 

Olhares que choram,

que derramam pelo rosto,

olhares que imploram,

olhares de medo,

olhares de raiva e de desgosto.

 

Olhares que fitam,

que traduzem a repulsa e o enfado,

olhares que irritam,

olhares que miram e remiram,

olhares que trazem mau olhado.

 

Olhares baços,

olhares que olham apagados,

olhares que tropeçam nos seus passos,

olhares que não se cumprem,

e buscam a vida sombreados,

 

Olhares que exprimem,

que retratam alegrias e misérias,

olhares que afrontam e que temem,

que se baixam humilhados nas derrotas,

e se erguem arrogantes nas vitórias

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Fev21

O outro lado das palavras

Joaquim Morais

                                      Enquanto me convocar o espanto

                                      viverei na iminência dum verso

 

 

 

 

 

 

 

       Apenas o linho das palavras

          permitirá a cal do poema.

 

 

 

 

 

            Propósitos

 

 

Que as palavras traduzam

a veemência do desejo.

Que tenham a subtileza do ar

e a leveza do voo.

 

 

 

 

 

As flores da sua lavra

 

 

As palavras habitam

o mistério do poema.

Convictas da sua condição,

dirão com a clareza

da sua obscuridade,

e em cada jardim

despontarão as flores

da sua lavra.

 

 

 

 

                                       Sintaxe de abelhas

 

 

Fachos de orvalho que incendeiam as sílabas,

e descerram cortinas de aurora

na bruma do verbo.

Palavras solares, que esmagam doutrinas

e florescem em jardins de água,

solidárias e inquietas,

cheirando a espanto e a jasmim,

cúmplices de frases que governam o vento,

e em cada parágrafo sopram o riso das manhãs.

Discurso de pedra lavrado pelo cinzel das águas,

onde uma sintaxe de abelhas insinua a primavera.

 

 

 

A poesia do sal

 

 

Quero o céu e o mar

e o sol a escrever a poesia do sal.

Quero a alma do ar a açoitar-me,

e as éguas de espuma,

e a volúpia da chuva,

e a terra a inundar-me.

Quero colher do verde

a luz que o acende.

Quero as palavras e o verso

e o mar que as navegue

 

 

 

 

 

A música e o silêncio

 

 

Uma palavra que brilhe para além

das suas prosaicas fronteiras;

que ateie a fogueira dos espíritos

e aquiete o sopro que a obriga.

Que a sua música desperte

a graça de quem ouve,

e o seu silêncio a musa de quem lê.

Uma palavra nua e pobre;

liberta do jugo da retórica;

que seja semente e flor e fruto,

e apenas se cumpra.

 

 

 

 

Maternos sobressaltos

 

 

Sempre que no redor se acende

o olhar e o desejo,

a terra agita-se em maternos sobressaltos,

até que a insónia lhe dite as palavras

que ousem subverter o mundo.

 

 

 

 

                                       O dizer do vento

 

 

Quando as palavras são pássaros,

e voam nos versos que as resgatam

para o dizer do vento,

talvez o canto as liberte

da prisão dos espelhos.

 

 

 

 

O novo canteiro

 

 

Agora que o tempo

nos impede a flor nos lábios,

faremos da voz e do olhar

um novo canteiro.

 

 

 

 

 

Livros

 

 

Os livros nascem nos olhos

de quem lê.

Às vezes, descem

por veias comoventes,

até ao lugar onde pulsam

a estranheza vibrante

do seu hálito,

e aí fermentam

o desejo de mar.

23
Set20

A poesia dos netos

Joaquim Morais

 

 

 

  

Ser avô é saber ler o poema

que existe em cada neto.

 

 

 

Envolve-me o silêncio e a ternura

dum sorriso de criança

que brilha na insónia.

O orvalho cintila

na doçura da imagem.

 

 

 

Há duas janelas que me assomam a vida.

Vigias fulgurantes de horizontes improváveis,

incendiaram o olhar e o dizer,

e espantaram os fantasmas da ausência.

 

 

 

 

 

Consertaram o rumo,

e as velas que há muito grivavam,

já ensaiam ténues e improváveis bolinas.

O perfume da rosa rescende o ar

e a luz que acenderam iludiu o outono

 

 

 

 

 

   Não é fácil escrever sobre os netos. O incêndio que ateiam é de tal ordem, que a inefabilidade é quase total. Posso dizer vulgaridades. Coisas que se dizem quase sempre quando se fala deles. No entanto, acho que as palavras apesar do seu virtuosismo, apenas traduzem uma pequena parte do deslumbramento.

   Enleva-me a séria ingenuidade das atitudes, das perguntas, das considerações. Surpreende-me a originalidade permanente.

   As palavras que semeei, despontaram embriões que a fala foi revelando e modelando a cada dia, com o brilho e a novidade próprias do seu temperamento. Nuas e puras surgiam melódicas e teatrais no mágico discurso.

   As palavras estiveram sempre presentes. Desde muito novo,que o seu desfrute me deu particular prazer, sendo que o seu plantio no canteiro dos netos me deu acrescida alegria. Ajudei-os a dizer nessa altura e hoje, por isso, tenho com eles a possibilidade dos diálogos e a satisfação recíproca do seu acontecer.

   As palavras, os netos e as emoções, andaram sempre de mãos dadas. Hoje como ontem e seguramente como amanhã, será assim.

   Estar junto deles e vê-los. Estar ausente e pensá-los.

   É única a chama que se acende quando nos toca o sopro dos netos.

 

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