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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

01
Jan22

A moda na igreja do padre David

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

  David Marreiros Neto, nasceu em Monchique em 1902. Homem de saberes variados, tinha na terra as suas raízes mais profundas.

  Iniciou-se no ministério como padre auxiliar em Loulé, ocupando nos anos trinta, por nomeação da diocese, a paróquia de Santa Bárbara de Nexe.

  Aí, e segundo alguns paroquianos, cedo começou a revelar o seu carácter interventivo, principalmente junto dos jovens, ficando na memória de muitos paroquianos, variados exemplos do seu controverso temperamento.

  Depois de uma década ao serviço da igreja nessa localidade do barrocal algarvio, o polémico pároco foi colocado em Alvor, onde viria a desenvolver o seu longo e por vezes agitado ministério, até ao ano de 1975, data em que faleceu por doença negligenciada.

 

  Os anos que passou em Alvor permitiram-lhe conhecer e ser conhecido. Se por um lado, esse mútuo entendimento preparou os seus paroquianos para os cuidados a ter na abordagem de assuntos, que envolvessem mudanças na ordem estabelecida, serviu, por outro, para tê-los prevenidos em relação à sua frontal e nem sempre simpática maneira de os interpelar.

  Inovar não era seguramente a sua vocação, nem para isso o convocava réstia de entusiasmo.

 Sendo homem assumidamente avesso a modernices, não hesitava nas críticas e consequentes advertências, a quem pusesse em causa os preceitos vigentes, que a igreja e ele próprio, entendiam como os mais adequados. Cristalizado na tradição litúrgica mais conservadora, pouca ou nenhuma abertura mostrava para refrescá-la, ao contrário do que se ia fazendo noutras paróquias.

  No entanto, e em desacordo com o que a doutrina sugere em relação ao decoro no uso da palavra, permitia muitas vezes que a grosseria tomasse o seu lugar.

 

  A década de sessenta trouxe coisas novas para o lado feminino. A moda mexia com o mundo, e as mulheres iam mostrando no rosto e no vestir os sinais da mudança. Se algumas ainda hesitavam a plenitude da moda, outras havia que exibiam sem vacilações a sua exuberante inteireza.

  Particularmente atento a tudo isso, agraciava-as com mordazes alfinetadas, sempre que a ausência de sobriedade no semblante, ou no traje, as transformasse em peças carnavalescas, como costumava dizer.

 

  A novidade era fértil, e a esses novos desafios que as tendências da moda iam colocando, ia o padre David respondendo, umas vezes com divertida frontalidade, e noutras com intransigente rispidez.

  Era ágil na palavra, muitas vezes metafórica, carregada de ironia, que, para além da acidez, cumpria o seu propósito com a graça própria do seu dizer.

  Deixou-nos um conjunto de divertidas intervenções que se tornaram populares pela contundente chacota.

 

 

 

 

                                                                                          *************************

 

 

 

 

   Chamaram-na de missa do galo. Claro se torna, ter havido influência de macho galináceo na razões da designação.

  São muitas as versões que o relatam, e, por extensas, e mais ou menos fantasiosas, importará pouco nesta altura o pormenor dos seus conteúdos.

  Porventura mais relevante, será a constatação que apenas nos países onde se fala português ou espanhol se celebra com o nome de missa do galo, aquela que no resto do mundo católico é chamada de missa da meia noite.

 

  E foi pouco antes da meia noite, que teve início a celebração da missa do galo num ano da década de sessenta, que não posso precisar.

  A terra ainda tinha nas alturas muitos dos seus olhos, e a igreja fazia-a mais próxima dos que a crença iluminava; e eram muitos, os que, nessa noite, celebravam o menino, e a esperança.

 

  Após o jantar de natal, a mesa mantinha-nos juntos, e por lá ficávamos até à altura da missa do galo. As cantorias e a conversa, intercaladas pelo permanente apelo da doçaria e das bebidas que a mesa mostrava, consumiam depressa o tempo, até à hora de voltar a cumprir a tradição.

  Era um hábito consolidado, e raras as pessoas que não participavam na festa do nascimento que a igreja propunha.

 

  A liturgia da noite de natal era de especial significado para a igreja, e para os que nela se reviam. O nascimento de Jesus foi um marco relevante para o mundo cristão, e o padre David punha sempre na homilia sobre as leituras e sobre o evangelho, toda a sua alma de apóstolo da igreja.

  Aliás, era reconhecida em toda a diocese, a sua fama de grande orador.

  Na parte final da missa, era costume o beija pé ao menino. As pessoas enfileiravam-se ordenadamente, e aproximavam-se uma a uma da capela mor, onde o padre David, segurando a imagem do menino com a mão esquerda, ia dando a beijar o seu pezinho. Após cada beijo, limpava o pé do menino com um pano que a mão direita segurava. Era a higiene possível, e, em tempo de miraculosas ocorrências, a fé havia de valer-nos a todos.

  A fila era enorme, porque raros os que prescindiam de exercer o privilégio.

  Uma a uma, as pessoas aproximavam-se para o beijo, sob o olhar atento do pároco.

  Até que, surgiu a mulher, que abriu no rosto a rosa vermelho vivo dos seus lábios, e depressa incendiou os olhos do padre David. O choque foi imediato e a resposta pronta:

- Vá embora mulher! Desapareça! Desapareça! Não me suje o boneco! Não me suje o boneco! E num repente, retirou do alcance da garrida boca o pé de Jesus.

  Se esteve ou não eminente, afronta séria ao carácter sagrado do ritual, apenas o padre David poderia esclarecer.

  Claro deve ter ficado, se dúvidas houvesse, que, daí em diante, exuberantes adereços não tinham cabimento na igreja do padre David.

  O termo “boneco”, usado pelo pároco aquando do incidente, não era de grande estranheza.

  Recordo que, quando os que tinham a responsabilidade da organização de procissões, decidiam as imagens eleitas para nelas desfilarem, e o seu número parecia exagerado, o padre David atalhava dizendo: “ já chega de madeira na rua”.

 

  O divino, não parecia para ele, estar associado à diversidade imagética, mesmo que, pontualmente comovente, da arte sacra. Eram apenas figuras, (bonecos) feitas de materiais comuns, (madeira) que artistas, no exercício do seu ofício produziam. Homens ou mulheres, que até podiam viver à margem da igreja.

  Arte terrena, rasteira, que ele recusava sacralizar.

 

11
Dez21

O velho pescador

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A casa situava-se ao rés da água. Tão ao rés que em alturas de marés vivas os poiais, propositadamente altos, quase submergiam ao assédio das águas. Era uma casa térrea, branca, aninhada na falésia que contemplava a ria. A cal inundava-a de luz e os poentes revelavam-lhe os segredos da cor.

   Por ela passavam as inumeráveis águas das incessantes marés no seu eterno vai vem.

   Na encosta da arriba que a escrevia, cresciam arbustos e flores silvestres que ajudavam a consolidar alguma frouxidão. No cimo reinavam as amendoeiras que as flores nevavam, e onde, nas esquinas do dia, os melros disputavam o futuro em cristalinos concertos.

   Nela vivia um velho pescador: habitava a solidão dos anos, e trazia na mão esquerda um velho crucifixo; chegava-o ao peito enquanto dormia, acreditando que tomava o lugar do coração; sentia-o pulsar entre os dedos, e repousava esquecido no sono, como se ainda perfumasse os jardins do tempo.

   Homem com olhos de mar e de céu, que transbordavam horizontes, e, entre os muros da terra, habitavam a ausência.

   Era uma figura esplêndida apesar da baixa estatura. No rosto de feições bem definidas e carinhosamente austero, a rudeza da vida esculpira sólidas marcas, curtidas e consolidadas pelo sol, pelo vento, e por esse mar de versáteis encantos a quem dedicara a sua vida.

   Da cabeça coberta por um velho boné a resguardar uma precoce calvície, pendiam a circundá-la alvas e finas madeixas que emolduravam a tez rosada, onde a fogueira do sol ardia continuamente. As suas mãos eram fortes e ásperas e nelas se desenhava claramente o traço de incalculáveis remadas. Os braços eram poderosos, e o tronco, robusto, quase sempre cingido por uma grossa camisola. O andar simiesco, que o mar obrigara, denunciava uma vida passada sobre as águas, e traduzia o hábito de compensar os contínuos desníveis que a ondulação produzia.

   O olhar era sereno e profundo, a perscrutar talvez os horizontes da memória, os das vivências ardentes, que não cabem na dimensão previsível, circular e enfadonha do espaço terreno.

   Tivera com o mar uma longa e frutuosa relação; hoje, ausente do seu lavrar, a solidão era maior; o mar continuava igual; não envelhecera como ele; permanecia talvez como no dia em que nascera: uma vida que era o próprio tempo na sua expressão mais profunda, salpicada de incontáveis efémeras gerações de humanidade. Os homens passavam e o mar ficava, indiferente ao desfile dos dias, exibindo a sucessão de recursos que o tornava venerado e temido, e usando o fascínio irresistível da sua serena ou desabrida majestade.

   Começara a soletrá-lo ainda muito novo: a decifrar os seus sinais mais elementares; a interpretar a sua linguagem de sal e de vento; a entender a sua mansidão e a sua revolta.

   O mar, esse lago imenso abrigado na concha da terra; essa várzea ondulante que desafiava horizontes que o olhar em vão teimava; essa escola de virtudes, geradora de nobres e sólidos princípios, e que fizera dele discípulo para a eternidade.

 

28
Nov21

Alfredo e o mar

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A revolução iria trazer coisas novas, dizia-se. No lugar, pouco dado a novos motivos de conversa, depressa as falas se ocuparam da notícia, e sobre ela  teceram as mais variadas considerações.

  Os jornais, a rádio e a televisão, desdobravam-se no esforço de informar, e a profusão, também feita de palavras nem sempre coincidentes com as de quem escutava, levava com frequência a alguma confusão.

  Os militares percorriam o país, tentando esclarecer toda a gente acerca da nova realidade política, e dos benefícios que ela poderia trazer à vida das pessoas.

  A informação passava de boca em boca, e, retocada pelo entendimento de cada um, depressa se transformava num conjunto arrevesado de palavras de impreciso sentido.

  A impaciência especulava, e o desejo era ser informado e esclarecido de viva voz, pelos que, em representação do movimento das forças armadas, para isso estavam mandatados.

 

  Entre os pescadores, onde a precariedade na protecção social após a vida activa era quase generalizada, vivia-se a esperança de mudança; também por isso, a expectativa da mensagem clara, olhos nos olhos, era evidente, e ansiosamente aguardada.

 

  Não obstante as limitações que o avanço dos anos naturalmente traziam a quem ao mar dedicara as suas vidas, alguns havia, que, mesmo com idade de puderem vir a colher os benefícios de eventuais pensões, desejavam em simultâneo, prolongar a vida activa.

  Para outros, o divórcio era pacífico e desejado, encerrando sem constrangimentos, um importante capítulo das suas vidas.

 O tempo e a duradoura ligação ao mar, foram deixando ao longo dos anos marcas de amores e desamores, que haviam de importar, na decisão final de cada um.

 

  Alfredo era um dos atormentados pela inquietação, e a quem uma eventual separação compulsiva desagradava.

  Ao mar a vida, e a entrega, feita de estranha afeição, sem idade, conduzida pelo olhar e pelo gesto, talhados para apenas nele serem por inteiro.

 

  Chegou por fim a aguardada comitiva, que trazia palavras novas, e se desejavam esclarecedoras; ouvia-se a música dos novos tempos; e os rostos sorriam a esperança de dias melhores.

 

  E nem os anos esmoreceram Alfredo, que, na plateia apinhada de gente, fez chegar o seu desassossego, aos que vieram para ouvir e dizer.

  Um jovem oficial do exército, escutou Alfredo com tranquila atenção; ouviu das suas incertezas, das suas expectativas, do seu desejo de prolongar o mar para lá do tempo, e respondeu-lhe:

 

  - Sr. Alfredo, pelo que me acabou de dizer, atrevo-me a concluir que a sua ligação ao mar é profunda, tal como o desejo de continuar essa dedicada relação. A sua pretensão não fere a legalidade, e não faria sentido impor-lhe esse amargo divórcio; Recomendo-lhe até, que enquanto a primavera lhe sorrir, faça-se ao mar e escreva nele as páginas que essa duradoura afeição lhe for ditando.

  Apesar do perigo e do abismo, talvez a Alfredo sorrisse o céu que o mar espelhava.

 

01
Nov21

Saudade

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

   Hoje é dia de todos os santos: dia que a tradição recomenda ter presente na memória, os que a terra acolhe nas suas entranhas.

   Sendo certo que estas lembranças nem sempre se conjugam com o turbilhão existencial de muitos, não é menos certo, que, apesar disso, os cemitérios têm nos dias que o antecedem e sucedem, desusado movimento.

   Não me afligem correrias nem me tolhem exigentes obrigações. Tenho, como porventura muitos outros terão, alguns episódios de pensamento preenchidos pela melancolia dos que já partiram, e outros, onde os inesquecíveis registos do que me concederam me suscitam ternurentos sorrisos.

   Como acontece habitualmente, voltei a fazer a “visita” aos que apesar de ausentes, continuam a ocupar-me, nas viagens que com eles decido fazer pelos caminhos que percorremos juntos.

   Comoveu-me a evidência do fim. A realidade pareceu-me mais dura do que noutras vezes.

   Fiz o percurso das suas definitivas moradas, olhei-os nos retratos que o tempo empalideceu, e li na pedra fria as palavras que os dizem.

   As imagens trouxeram-nos de volta, e às inúmeras e partilhadas ocorrências que os anos teceram.

   É claro que também sou fruto dum tempo feito da sua proximidade.

  Talvez a saudade exija ser citada.

 

28
Ago21

O voo de Raimundo

Joaquim Morais

 

 

 

  Raimundo sempre se sentiu em harmoniosa ligação com o céu. A permanente empatia, a sua fixação pelas alturas e o propósito inabalável de navegá-las, acompanhava-o desde criança, e com o encantamento próprio das mágicas epopeias.

  Porventura ocultas teorias, das que nos situam em remotas e variadas existências fora da humana condição, pudessem vir a considerá-lo de entre os que do alto precederam.

  De braços abertos e peito ao vento, cabelos soltos, alinhados pela brisa que o correr acentuava, em vão batia as pretensas asas. Fazia-o, apesar de tudo, com a convicção que a persistência e o tempo haviam de levá-lo a elevados portos.

  Raimundo crescera sem esmorecimentos na vontade de voar.

  Se outros homens em tempos decidiram o mar, e nele pintaram o quadro das suas vidas, porque razão não haveria ele de cortejar subidos lugares, para neles habitar o desejo que a vida porfiava.

  Queria fazer do céu a sua janela do mundo. Queria, suspenso das alturas, perceber a terra, para lá da nivelada extensão do olhar, e dela partir sempre que a largueza do suspenso azul lhe convocasse.

  Elevar-se no espaço por entre nuvens, ou deslizar na etérea transparência teria de ser o seu destino.

  O pensamento, há muito afastado de rasteiros desígnios, ocupava-se agora de encontrar um meio, que tornasse possível a complicada tarefa de levar o olhar à dimensão que as alturas ofereciam.

  Também por isso, Raimundo achou que apenas ponderado engenho, poderia tornar possível feito tamanho.

 

  Em criança, a sua vida não tinha sido fácil. De origens humildes, as dificuldades acompanharam-no sem abrandamentos, e o calvário da sobrevivência foi sempre o caminho.

  A tudo isso juntou-se o exagero do pai no consumo de álcool.

  Valeu-lhe, que o vício nunca gerou a costumada violência, e, muito pelo contrário, quando acontecia apenas lhe provocava infindáveis e pacíficas horas de sono.

  Benigno desconcerto, que viria a ser de fundamental importância para o que se seguiria.

 

  O encontro, fortuito, deu-se na barbearia do meu pai: Lugar de passagem e de conversa, e da diversidade da notícia, que a habitual e considerável humana presença ia produzindo.

  Raimundo aguardava que o barbeiro António Morais, lhe tirasse de cima os anos com que as suas palavras rematavam em cada cliente, a conclusão da obra.

  O corte da barba, e, ou, cabelo, provocavam contentamento recíproco, e o novo ar era sempre, e de viva voz, sublinhado pelo mestre.

  Passei, como noutras vezes, para no suplemento infantil do jornal diário treinar a leitura que a primeira classe iniciara.

  Não me lembro de já o ter visto antes.

  Olhou-me, perguntou se gostava de ouvir histórias e convidou-me a ouvir a sua.

 

  Fascinou-me sempre ouvi-las. Primeiro, contadas, de viva voz, por quem se dispusesse a fazê-lo. Aí, contou e pontuou o meu avô materno, figura nem sempre simpática, mas que o enredo transformava em empenhado e afectuoso narrador.

  Depois, e quando me brindou o saber dos sinais que tecem as palavras, decifrando os quadros, onde, inscritos, soletravam a sua comovente magia.

 

  Disse-me Raimundo o que já sabemos da sua determinação em voar. Direi agora o que as suas palavras desvendaram do que ainda não conhecemos.

 

  Raimundo vivia no campo e tinha o saber da terra. Cresceu rodeado dos seus incontáveis segredos, e fez da sua aprendizagem uma causa, para ajudar a adiar o esquecimento aos que, em permanência, se alheiam da sua relevância.

  Desvendados que foram os segredos da terra e das criaturas do seu reino,era no céu que se abria e se oferecia, que queria muito escrever uma página diferente.

 

  Pelo lugar onde vivia, passavam ao fim do dia enormes bandos de gralhas que cobriam o céu, e se dirigiam para os rochedos do litoral, onde pernoitavam nos inúmeros fojos que entre penhascos abundavam.

  Lembro-me delas em criança, e de, com outras crianças, associar a sua passagem à ideia de matrimoniais festejos, como se de humanas criaturas se tratasse.

  Acesa pela presença das gralhas nas falésias, aportou à memória  a frequente embriaguez do pai, e o remate feito de anestesiantes e prolongadas sonecas.

  O pensamento fervilha sempre que presente está a intenção de mudar qualquer coisa no rumo das nossas vidas. Laborava o de Raimundo como nenhum outro, que há muito procurava alternativas à rasteira forma de passar os dias.

  Homem de prático saber, decidiu de pronto ensaiar o que lhe foram ditando as especulativas reflexões sobre os efeitos anestesiantes do álcool.

  Aguardou pelo fim do dia, e, munido de pinga que bastasse, pôs-se a caminho das falésias onde pernoitavam as gralhas do plano.

  Havia um poço, enorme, que a preia mar banhava nas areias do fundo, e os temporais de inverno galgavam, paredes acima, espirrando bátegas de esvoaçante babugem até à superfície.

  Raimundo assinalara-o pejado das aves eleitas, que se abrigavam em pequenos vãos, irregulares, talhados pelos elementos nas paredes interiores. Em volta do poço, havia inúmeros afloramentos rochosos, desnivelados e preenchidos de pequenos sulcos e fendas, que no inverno retinham as águas da chuva, e funcionavam como bebedouros para os animais que a terra acolhia.

  Pequenas nesgas de terra intervalavam a rocha compacta e permitiam carrascos e aroeiras que as felosas saltitavam.

  A escuridão já tomara conta do lugar, e Raimundo já preenchera fendas e sulcos com a esperançosa vinhaça.

  Regressou a casa, e a noite, longa e vagarosa como poucas, trouxe-lhe inevitavelmente, o desassossego da insónia.

  Levantou-se muito antes que do sol assomasse afogueado preâmbulo. Cirandou até ao razoável calcular do tempo de espera, e fez-se ao caminho, com o sol desperto, e a interpretar exemplarmente o seu papel no palco do verão.

  Equipado com as cordas que o estratagema recomendara, depressa chegou ao local.

  A surpresa do quadro deixou-lhe sem palavras: dezenas de gralhas espalhadas pelo chão, mais ou menos adormecidas, jaziam prostradas em comovente e forçado abandono.

  Passada que foi a impressão primeira, Raimundo começou de pronto a urdir a arrumação das cordas que o iriam unir às adormecidas aves. Com o cuidado e a atenção que a situação exigia, concluiu o trabalho, e aguardou tolhido pela emoção, que tudo acontecesse.

 

  Raimundo quis contar-me do voo. As palavras que sabia, eram as que a terra lhe ensinara para traduzir o que à terra dizia respeito.

  Por isso, Raimundo escolheu o silêncio, e o silêncio ditou-lhe um poema feito de palavras por dizer.

 

 

22
Ago21

Fortunato, o pescador

Joaquim Morais

 

 

 

 

   No lugar onde somos, o azul vai muito para além do que o céu nos mostra, a terra é pobre e acanhada, e o rumo era quase sempre feito desse outro azul, mais rasteiro, que o tempo escreve, os olhos preenchem e a vida obriga.

   Quando Fortunato, muito novo ainda o decidiu, talvez ele já o quisesse, por perto.

  Gerada em precoce cumplicidade, a relação que cedo estabeleceu com o mar, foi sempre feita de genuína afeição, e de desafios que os anos foram tornando cada vez mais aliciantes pela crescente exigência.

  Do mar, o acolhimento dado aos que o relevo assinala, e que nele se afirmam com a devoção própria das liturgias da sobrevivência.

  O que dele recebeu, também foi a medida do seu respeito e humildade, e o reconhecimento do seu nada, perante a desmedida vastidão, e a infindável energia da sua natureza.

 

  Mestre do anzol na sua expressão mais simples: a leitura perfeita da mostra elementar; uma linha que a mão segurava e traduzia como ninguém as mensagens dos fundos; alguns anzóis que a experiência armava, e a isca das circunstâncias preenchia.

  Tudo isto, associado a um particular jeito e modo de fazer, deram a Fortunato a reputação que todos reconheciam.

  Na vida dum pescador o êxito ficava muitas vezes ligado à sorte, mas a argúcia deste homem banalizava o papel do acidental na arte que abraçou.

  Apesar de todas as incertezas do ofício, raramente o seu bom desempenho, foi aleatório.

 

  Pescava lulas à noite, com os faróis a petróleo na borda a arrancá-las do fundo e do redor, e com tóneiras forradas de brancura, que ele agitava com gestos calculados para fisgá-las.

  Conservava-as dentro de água em cesto próprio, preso na chumaceira e encostado às obras vivas que o verdugo estremava.

  Por vezes, as guelhas atraídas pela luz e pelo recheio do cesto, destruíam-no e devoravam as lulas.

  Quando a pescaria decorria sem incidentes, o nascer do dia fá-lo-ia pescador de corvinas, de pargos e de dentões.

  Usava para isso as lulas como isco, anzolando-as de maneira a mantê-las vivas, e atrair pelo movimento, as espécies que o desejo elegera.

 

  Alguns relatos de vivências piscatórias na primeira pessoa, trouxeram-me à memória a última grande obra de ficção com que Hemingway nos presenteou: o velho e o mar.

  Tal como o velho Santiago, Fortunato teve nas corvinas, (sem o desconforto dos tubarões), os seus espadartes gigantes, e os desafios que o levaram a envolver-se em duras disputas, que a natureza hostil e desajustada do meio, tornavam mais cansativas, por demoradamente sofridas.

  Algumas vezes arrastado por peixes enormes durante muito tempo e por grandes distâncias, Fortunato viveu as suas capturas com o esforço que as situações exigiam, e a sabedoria que a experiência ia produzindo.

 

  Nos últimos anos, a arte do anzol tornou-se insuficiente pela acentuada baixa das espécies, o que o levou a ensaiar nas redes, uma nova forma de assegurar a subsistência.

  O seu tempo de mar, deu lugar como em muitos outros pescadores, ao tempo da ria em Alvor. À agitação do oceano seguiu-se a tranquilidade lagunar e a sua descontraída fruição.

  Sempre com o mar por perto, teve em permanência e de viva voz, notícias suas.

05
Jul21

O silêncio de Deolinda

Joaquim Morais

 

 

 

   Quando assomou ao mundo, a privação do aconchego uterino desencadeou ruidosa choradeira.

Foi o primeiro teste ao comportamento dos sentidos no contacto com o mundo, e a sonora expressão do impacto experimentado.

   A ausência de mobilidade, fazia centrar neles o desempenho da atenção inaugural.

Rodeada de gente e de desafios, correspondia aos incentivos com os recursos da sua básica condição.

   Ao entendimento familiar iam chegando os sinais da sua evolução: Deolinda acendia o olhar a cada sorriso; expressava o prazer e a rejeição quando comia; tocava o gesto com a seda das mãos; dizia dos odores em cada trejeito, mas não sabia dos sons que a rodeavam.

   Deolinda, nascera cercada de velado silêncio.

  Cresceu com ele e com a aceitação da sua inevitabilidade. A surdez impedira-lhe a fala, mas não impedira toda a normalidade restante.

  Já mulher, soube da possibilidade de deixar de ser refém do silêncio. Alguns exames e consultas da especialidade revelaram que a surdez poderia ser revertida.

   Hesitou a decisão e conviveu com a dúvida durante algum tempo. Após reflexão e conselhos resolveu aceitar.

Instalaram-lhe os instrumentos adequados e receitaram-lhe os medicamentos que lhe ajudariam a suportar a mudança.

  Todo o seu corpo, funcionara em função duma quietude absoluta, perfeitamente arrumada na sua natureza. Tudo passaria a ser diferente.

  A percepção dos ruídos, foi por isso feita de sofrimento. A voz dos que habitualmente a rodeavam às vezes provocava-lhe ténues sorrisos, mas foi sempre dolorosa a novidade.

   O desconforto era permanente, e a tentativa de correcção mostrava-se cada vez mais difícil de suportar.

   Desistiu.

   Decidiu dar outra vez o braço ao silêncio, e com ele assumir eterno compromisso.

 

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