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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

30
Jul22

os pescadores e os deuses

Joaquim Morais

 

  Do alto das serras do redor, desceram ribeiras com sonhos mareantes. Talharam na terra novos rumos; fizeram-se ria; e abriram as portas do mar aos que na imensidão tinham o destino e a razão.

 

  No lugar, o azul intenso que do sul acenava marulhando na praia as vozes da lonjura, preenchia as vontades e dizia-se caminho. Quase nada, para além dessa sedutora via.

 

   Entre a terra e o azul profundo, a mansidão da ria; uma largueza de águas vivas respiradas pelo vigor da lua; o lugar da iniciação, onde o aprender rimava com o ser; o repousado ensaio para a peça por vezes dolorosa, que os homens decidiam levar à cena em mar aberto.

 

  Porventura fascinados pelo canto e pela cor, ou porque a terra pouco ou nada tinha para lhes dar, foram muitos os que se fizeram pescadores. Viveram o desconforto da faina em precários berços de tábuas, ao sabor dos elementos, e navegando as emoções que as circunstâncias urdiam.

 

  Aos barcos, que o tempo decidia, impelia-os a força de vigorosos braços. Forjados no calor da faina, e temperados por bátegas de sal governadas pelo vento, tinham nas mãos o desenho das incontáveis remadas, escrevendo rotas que as estrelas ditavam. Quando reinavam sopros bonançosos, festejavam-se as tréguas, emprenhavam-se velas, e nasciam na proa dos botes, risadas de alabastro que os olhares celebravam.

 

  Porque era dura a faina, e por vezes violenta a escrita do mar, os homens chegavam-se aos deuses: diziam-no nas vistosas amuras das pequenas embarcações, inscrevendo nelas os eleitos da sua devoção. Consagrados pelo culto e sustentados pela crença, era suposto estarem a seu lado, quando tivessem que afrontar o aperto ou a má sorte.

 

  No tempo, e quando ao largo medravam ameaçadoras sombras e crescia a incerteza, algumas mulheres rezavam na praia, alternando os olhares entre o céu e o mar revolto

 

 

  Pelos meus avós, ambos pescadores, e por todos os que trocaram a relativa e provável firmeza terrena, pelo exíguo espaço dum barco a vogar a inquietação e o imprevisto, fica, mais uma vez, a notícia dum tempo e dum lugar onde os milagres dos homens eram obra dos deuses.

 

11
Jul22

AS SALGADEIRAS

Joaquim Morais

salgadeira.jpg

 

 

 

 

 

 

                                                                       

 

 

 

 

 

 

  A aldeia, como quase todas as do seu tempo, convidava ao mosquedo. Era o resultado de comportamentos descuidados, e da ausência de regras de higiene pública: a uma lixeira colectiva, a céu aberto, sem qualquer tratamento e não muito distante do casario, juntavam-se em muitos quintais pequenas compostagens, também ao ar livre, sem critérios de higiene na selecção e na preparação dos resíduos, que continham frequentemente restos de fácil putrefacção. Num cenário de evidente ausência de cuidados sanitários, era inevitável que as moscas reinassem, tornando-se difícil acabar com o seu consistente protagonismo.

 

 

  Pestilentas e atrevidas, eram um desafio permanente para os que recusavam ser alvo das suas intermináveis investidas, e porto para as escalas do seu voejar.

  Nalgumas casas, as portas que davam acesso aos quintais, alguns deles a funcionar como excelentes locais de incubação, estavam protegidas com fitas coloridas, que drapejavam ao gesto e ao vento, mas evitavam em certa medida, o acesso destes e doutros insectos voadores. O mesmo processo era utilizado nalguns estabelecimentos comerciais. Nas casas de habitação, era costume as pessoas enxotá-las várias vezes ao dia, agitando panos ou toalhas, que as encaminhavam de divisão em divisão, até à rua.

  Não existindo diligência publica estruturada para atalhar a sua disseminação, ficava ao critério daqueles a quem importava o desconforto, a improvisação de medidas que o minorasse.

 

 

  Vinham de todos os lados, atraídas pelo odor açucarado das uvas. Esvoaçavam o desejo de sugar, seguindo o rasto meloso deixado no caminho das adegas, e pairavam nos lagares, teimando nos homens, os braços e os rostos peganhentos do labor da pisada. Sem bracejar que as demovesse instalavam-se no pasto de doçura em que o lugar se convertera, e por lá haviam de ficar até à consumação do néctar que as enormes pipas hospedavam.

 

  As adegas eram, pelo seu adocicado e aromático ambiente, locais de excelência para a permanência destes insectos, e capazes de atraí-los de grandes distâncias. Por tudo isto, e pela aparente inevitabilidade da sua presença, houve quem nelas engendrasse maneira de a manter em níveis aceitáveis.

  A natureza da actividade por um lado, e a qualidade dos vinhos produzidos por outro, convidavam não só as moscas, mas também os inúmeros discípulos de Baco, que, no tempo devido, estavam sempre presentes para festivas e preciosas libações. Não sendo inconciliável a presença dos insectos com o desfrutar dos néctares, o exagero do seu assédio acabava por importunar.

 

  Os edifícios onde as tabernas estavam instaladas, eram de média dimensão, e alguns tinham na divisão do atendimento aos clientes, estupendos tectos com estruturas baseadas em robustas armações de asnaria, que a tradição acolhia e recomendava.

  Enquanto criança, quase todos os dias e a pedido do meu pai, deslocava-me às adegas que abundavam em Alvor nessa altura, algumas bem perto do lugar onde morava. Os mandados destinavam-se a trazer à mesa das refeições, o vinho que ele tanto apreciava. Nessas andanças de mandado e quando o atendimento demorava, o olhar vagueava no redor fixando as evidências que nem sempre iam ao encontro do entender dos anos. Bem à vista, suspensos do vigamento inferior das asnas, alguns conjuntos de ramos de um arbusto desconhecido para mim, pendiam criteriosamente amarrados e distanciados uns dos outros. Não entendi o propósito, nem a curiosidade se moveu para deslindá-lo.

   O esclarecimento chegou já em adulto, quando, em amena conversa se lembravam tempos de adegas buliçosas, animadas pelo prazer do vinho que o S. Martinho renovava em primaveras de circunstância, feitas da sua vibrante, aromática e cristalina condição.

 

   Eram salgadeiras o que as traves continham suspensas da sua imobilidade. Um arbusto comum nos sapais que circundavam a ria, e que alguém decidiu usar em desfavor do mosquedo.

   A noite interrompia nas adegas a azáfama das moscas. Era tempo de se recolherem e abrigarem, até que o dia rompesse e retomada fosse a sua maçadora existência. Eleitas dormitório, as salgadeiras eram cobertas por revoadas de moscas mal caía a noite, transformando a sua natureza vegetal em alado e disforme pendente.

  Encerrada a loja, seguia-se o tratamento ao mosqueiro que repousava do labor do dia: munido duma saca de serapilheira de boca larga, o taberneiro subia cuidadosamente e em silêncio por uma escada até junto à salgadeira inundada de moscas, e, com um movimento rápido e preciso, introduzia a salgadeira na saca, segurando e fechando o ramo pela base; acto contínuo, desatava o nó que prendia o ramo à trave e descia com ele bem preso e a saca bem cingida à sua volta. Feita a captura, restava eliminá-las. Nada mais simples, apesar da sua feição um tanto ou quanto bizarra: com a saca a envolver o ramo e a prendê-lo com firmeza, fustigava com ele o chão do quintal ou da rua, até que não houvesse rumor ou sinal de mosca viva.  

  A seguir era devolver a nudez ao ramo, varrer o mosquedo, e voltar a pendurar nas vigas das bonitas asnas, essa traiçoeira alcova.

 

  E assim se cumpria com êxito, uma estratégia de controlo sanitário pouco ortodoxa, mas de razoável eficácia.

 

 

26
Jun22

A AROEIRA

Joaquim Morais

 

                                                                

              

                                              

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                                                                             A AROEIRA

   Era o arbusto preferido das felosas, que saltitavam a aparente inquietação no aromático entrelaçado dos seus ramos: buscavam drupas, as bagas que o amadurecimento tingia de negro, e que eram ao fim e ao cabo, a razão primeira para a cíclica aventura migratória que a sobrevivência determinava.

  Os coelhos escolhiam-nas, para junto aos troncos fortes que as enraizavam, escavarem labirínticas tocas, enquanto as perdizes urdiam o futuro abrigadas pela sua cerrada e frondosa copa.

   Parte activa do eco-sistema a que pertencia, e inserida na paisagem terrena com correspondente relevância paisagística, a aroeira havia de revelar inesperado préstimo em aquático meio, levada pela mão do homem que nele tinha o seu modo de vida.

  E que melhor lugar do que a ria de Alvor, para protagonizar uma nova e inesperada valia, e garantir um desempenho duplamente benéfico, apesar da aparente discordância elementar.

 

  A ria é um desafio permanente a quem a ousar. A sua linguagem nem sempre explícita, seduz apenas os que a virtude arregimentou para a aprendizagem, tornando-os confidentes duma natureza que tem muitas vezes no improvável, a porta de entrada da sua revelação. Privilegiados e dedicados ao seu entendimento, talvez tenham sido estes, que nas marés e no tempo certos, pela experimentação, ou pela constatação de que um fortuito ramo de árvore trazido pela corrente e depositado em acessível remanso era abrigo habitual de chocos, terão inaugurado um novo meio de captura destes saborosos cefalópodes.

  Restava encontrar nos campos em redor, a árvore ou arbusto que melhor poderia servir para o efeito. De ar frondoso, copa cerrada, resistente e aparentemente capaz para integrar e compor o novo habitat, a aroeira parecia ajustar-se perfeitamente ao que dela se pretendia.

 

  Para mantê-las submersas, e resistir aos ventos de água soprados pelas marés, dotaram-nas de raízes de pedra. Passariam a vogar a dinâmica das águas oceânicas, na medida dos cabos que as prendiam.

   Eram colocadas em lugar acessível pela baixa mar, mas de maneira a ficarem completamente submersas, mesmo em marés de vazantes extremas.

  Com a ria escoada, nas manhãs calmas e de águas transparentes, o pescador fazia o circuito das aroeiras pelos baixios que as continham, deslocando-se em silêncio e fazendo atenta e cuidadosa abordagem ao seu redor, e à parte que os ramos cobriam. Após contacto visual com os chocos, que, umas vezes enterrados na areia, noutras imobilizados mas prontos para escapar à mais pequena ameaça, redobravam-se os cuidados para não os afugentar. A sua captura era feita com fisgas artesanais fabricadas pelo ferreiro “Justo”, homem competente na arte da forja, e que trabalhava o ferro com mestria.

   Ainda muito jovem, também passei pela sua oficina, e tive o privilégio de o conhecer. Alguns dos bicheiros e fisgas, que na adolescência usei na pesca dos polvos nas praias rochosas de Alvor, foram feitas por esse bom homem e grande mestre. Com ele trabalhou também o sr Alfredo, conhecido por Alfredo “Nórinha”, figura popular, e profissional competente na mesma arte.

 

   À natureza cabe estabelecer relações entre os elos da cadeia, para que a harmonia do sistema prevaleça. Ao homem cabe tirar dela vantagens em benefício próprio, com a sensatez necessária à salvaguarda do seu equlíbrio.

 

   É claro que não veio mal ao mundo pela aroeira, e que, muito pelo contrário, até ajudou: os novos habitats criados passaram a funcionar como banco de ovas, e a ria, porta aberta para o mar, garantiu e acentuou a renovação da espécie no seu seio, contribuindo também com ajuda de relevo para o repovoamento oceânico; acresceu a tudo isto, uma pequena achega ao ganha pão do pescador.

 

 

 

   No meio piscatório a aroeira era conhecida por dároeira. Nem sempre as palavras do lugar coincidiam com as do manual. Talvez particularidades próprias do meio social, e ou cultural, porventura do aparelho vocal, tenham levado à junção da consoante d à vogal inicial, para mais comodidade no dizer.

  Por esta ou aquela razão, acontecia na comunidade serem retocadas palavras, principalmente entre os pescadores.

       

 

                                                                              

 

 

 



 

 

 

                                                                              

 

 

 

06
Nov21

Alvor à distância da memória (2)

Joaquim Morais

 

 

 

   Ofereciam-se a terra e o mar, e a vida era

feita da rude simplicidade do trabalho.

 

 

 

 

 

   Se da grandeza do mar chegava a dádiva maior, era da terra que ao mar e ao sol assomava, que se erguia o doce tesouro que o saber dos homens e o canto das leveduras, havia de converter no vinho que a natureza exemplar desse berço iniciara.

   Eram inúmeras as adegas, e estavam muito para lá do que o tamanho da terra fazia supor. Lembro-me delas, e das dornas enormes a transbordar aromáticas e suculentas uvas. Vinham em carroças, do lado do mar que a falésia espreitava, e eram acompanhadas e festejadas na aldeia pelas crianças, que as rodeavam na esperança das doces esgalhas.

   Despejadas de seguida em lagares de cimento, eram pisadas por grupos de homens solidários, irmanados na tarefa inicial do milagre do vinho.

   Seguir-se-iam outras etapas, até que o tempo chegasse à desejada harmonia certificada pelos sentidos.

   Havia de aportar à mesa, fazer as delícias de comensais, e levar para lá do lugar suas virtudes.

   Vinham de muitos lados na altura certa. Inauguravam-no de copos ao alto soletrando a sombria transparência, e celebrando o poema da sua condição.

 

   Na aldeia eram quase todos seguidores da igreja católica. Têm particular devoção por Jesus crucificado, e por sua mãe, aqui feita senhora da boa viagem. Dedicam-lhes solenes homenagens, que trazem devotos de muitas terras em redor, e têm um invulgar cunho emocional.

   A festa da senhora da boa viagem envolvia particularmente os pescadores, que à senhora pediam protecção e graças,

  A festa do senhor Jesus era uma impressionante manifestação de devoção e fé. A origem lendária, e as miraculosas ocorrências atribuídas à comovente imagem de cristo crucificado, transformaram este exemplar de arte sacra numa referência, para todos os que, nos apertos extremos, viviam a expectativa duma intervenção divina.

   Em ambas as festas, desfilavam em procissão inúmeros andores com vistosos arranjos florais, e encimados pelas imagens que a tradição recomendava. Nas ruas, decoradas para recebê-las, a multidão caminhava ladeando os andores, e cantando louvores e orações. Das janelas pendiam bonitas colchas, e assomavam pessoas que assumiam respeitosa atitude à passagem das imagens.

   Para a homilia, costumavam convidar pregadores de outras paróquias. Vinham recomendados pela reputação,e garantiam sempre intermináveis e inflamados sermões.

   As práticas não deixavam quase ninguém indiferente, e não era raro que as lágrimas ilustrassem os rostos mais sensíveis.

 

   Pelo natal, a festa era a da simplicidade. A modéstia do lugar e o carácter despojado da quadra ajustavam-se, e situavam-nos a todos mais próximos da humildade, que a celebração genuína recomendava.

   Era a festa da família, feita de regressos e sorrisos e do calor dos abraços; dos sabores que a época costumava e os sentidos festejavam; das cantigas ao menino; dos bucólicos presépios; da missa do galo; da agitação experimentada pelas crianças pela expectativa duma guloseima natalícia, e de muitas outras pequenas coisas, que a todos nos faziam felizes.

   Na mesa de natal, reinavam as bebidas da região: o vinho da aldeia, de primazia disputada pelas diversas adegas que o produziam; um licor também da aldeia oferecido pelas delicadas uvas de Francisco Mendes, vulgo “Alvanilho”, que à beira da praia as areias e o sol douravam, e o medronho de Monchique a convidar os que a rijeza habitava.

   Nas comidas, destaque para a panela de milhos, cuja preparação começava alguns dias antes: na primeira cozedura eram aferventados com cinza durante algum tempo, para amaciarem e saírem as peles; a seguir eram-lhes retirados um a um os chamados "olhinhos", para, depois de bem lavados, serem acrescentados da carne de porco e dos enchidos, e voltarem a ser cozinhados durante horas em fogo lento. Era, e ainda continua a ser, a minha comida preferida do natal.

   Nos doces o delicioso sabor dos pastéis de batata doce e de gila e os fritos da massa simples polvilhada de açúcar e canela, que, acompanhados pelo meloso licor ou pelo ardente medronho, rematavam e prolongavam a refeição e a conversa.

 

   Após a missa do galo, grupos de pessoas cantavam de porta em porta louvores ao menino nascido, trazendo ao silêncio da noite, uma sonoridade que a memória de criança gravou por particular agrado, e o adulto conserva, dela guardando a sua mágica essência.

 

   Nessa altura o sopro do natal pairava em todas as coisas, porque na aldeia o silêncio permitia o rumor, a noite permitia as estrelas, e o homem ainda era dado à sua contemplação.

 

 

 

30
Out21

Alvor à distância da memória (1)

Joaquim Morais

 

    Ofereciam-se a terra e o mar, e a vida era feita

  da rude simplicidade do trabalho.

 

 

 

 

   Num lugar assediado pelo mar, presumível seria que a maioria dos homens traçasse nele os seus caminhos.

   Alguns havia, poucos, que no redor a terra tomara; uns por herança, e outros, eleitos, a quem ela sorrira e convidara, para que nela fossem: eram pequenos agricultores que cultivavam hortas de que a aldeia se valia, e colhiam do sequeiro a doçura dos frutos que o sol dourava.

  As mulheres dos que o compromisso à terra ligara, trabalhavam nela conjugando o esforço com a sua condição, prevalecendo nas tarefas, que, portas adentro o costume ditava.

  As outras, a quem o mar coubera por conjugal união, ajudavam a cuidar das artes de pesca, tratavam dos filhos, tinham a seu cargo domésticos afazeres, e algumas, ainda palmilhavam esforçados caminhos, para, em fumeiros e fábricas de conservas, acrescentarem ganhos que suavizassem a vida.

 

  Do que em terra e no mar a dureza do trabalho mostrava, o destaque ia para os que no mar se mostravam mais capazes.

Havia sempre quem dele tirasse maior proveito por melhor sabê-lo.

  A terra, previsível demais para realçar desempenhos, não se prestava a graduar os seus obreiros.

  As diferenças, provinham da excelência ou da vulgaridade das espécies que nela cresciam.

 

  Os dias na aldeia eram feitos de rotinas, e a novidade pouco ou nada se atrevia.

  O mar e a terra eram o suporte de vida, e o bem-estar decorria do adequado aproveitamento dos frutos do trabalho, tendo por certo, que o caprichoso decorrer do tempo nunca permitia certezas na sua obtenção.

  A consciência do risco de privação, levou a que não existissem hábitos nem práticas de desperdício.

 Quando no inverno se demoravam temporais, a ria espantava inquietações e temores, valendo a todos os que nela buscavam a mesa da sobrevivência.

  Para lá da generosidade, tudo o que crescia era de sabor reconhecido, com destaque para as ameijoas, com toda a justiça elogiadas, e desde sempre consideradas simbólica iguaria.

 

  Adequado à dimensão da aldeia havia também um pequeno comércio. Era importante para todos, e ajustava-se aos cenários que o tempo tecia. A incerteza dos ganhos obrigava por vezes ao prazo, ao coração, e ao fardo do rol, que, nalguns casos, podia levar a prolongada, e por vezes até, incobrável dívida.

 

 

  Em casa, não havia o conforto da água fácil do nosso tempo. Existia no seu lugar, a escassez imposta pelo diminuto volume do cântaro de barro, que a voz do aguadeiro lembrava sempre que passava.

  Tal como a água, a iluminação ainda estava longe do que temos hoje. A opção generalizada era a dos velhos candeeiros a petróleo, com torcidas que exigiam apuro no corte, para evitar tisnaduras que as imperfeições do talhe produziam na chaminé.  

  Eram um pôr do sol descolorido, e deixavam no ar o desagradável cheiro da sua combustão.

 

  Em certas alturas, e determinado por ocorrências e assuntos que o interesse comum recomendasse levar ao conhecimento público, um homem bradava de rua em rua, convidando à atenção e à escuta.

  A mensagem era feita de diversidade, e o vozeirão empenhava-se em fazer chegar o recado do mandador.

  Alertadas pelo pregão, as mulheres vinham à porta vestindo graciosos bibes, e enxugando as mãos a pingar tarefas de cozinha, em encardidos aventais.

  Esclareciam as falhas do ouvido, e avaliavam na proposta algum interesse ou benefício.

 Os anúncios, sugeriam na maior parte dos casos, produtos que vinham da terra ou do mar, habitualmente do agrado de todos, e que se ajustavam ao desejo e à carteira das famílias.

  Por vezes apregoava-se também a perda dum objecto de alguma valia, com a promessa de alvíssaras aos que o achado contemplasse.

 

  Vinham de fora e no tempo certo, os que a proviam de algumas coisas que o hábito adquiriu para acrescentar à vida na aldeia. Deslocavam-se em carroças, anunciavam ruidosamente a sua vinda, e tornaram-se presença familiar e alegremente aguardada.

  Traziam com eles a diferença de outros lugares.

 

 

15
Ago21

O ferro velho, a aldeia e o vinho

Joaquim Morais

 

 

   A chegada do ferro velho, espevitava e agrupava a moçada da aldeia. Conduzidos por juvenil entusiasmo, viam no discreto aflorar do seu sorriso, sobejos motivos de ingénuo contentamento. Juntavam-se à sua volta, e faziam a festa e o cortejo até que o regresso o obrigasse.

   Enquanto criança, habituei-me à sua presença e festejei-a como todas as outras.

   Vinha de fora, dizia-se. Da lonjura que a vista não cobria nas andanças do hábito.

   Por costumeiras, as vindas passaram a ditar ao lugar novas regras: excluir do lixo o conteúdo do pregão, e com isso ainda obter algum proveito.

   O correr do tempo entre visitas, iria lembrá-lo sempre que os eventuais quadros fossem ao encontro das molduras do seu fazer.

   Os ajustes eram feitos por adultos e por jovens, que, entre presenças, iam juntando tudo o que lhes permitisse realizar alguns tostões.

   Quando a sua vinda acontecia, toda a aldeia despertava e punha nele a atenção e o interesse.

 

   Trapos, metal, cobre e garrafas!!! Trapos, metal, cobre e garrafas!!!

   De voz rouca e sem alma, magricela, pálido e olhar distorcido por lentes garrafais, levava a cada rua o favor da recolha do que em cada casa se esgotara no préstimo, e no canto mais escuro aguardava o seu regresso.

   A armação negra e pesada dos óculos, assentava num nariz fino e encurvado, e discordava do rosto, magro e incapaz de mantê-la sem o recurso ao manual ajuste.

   De saco vazio sob o braço, entoava o fanhoso pregão rodeado da pequenada que se agitava num envergonhado rebuliço.

   Aos poucos ia chegando gente, segurando objectos que o tempo desgastara e a serventia enjeitara. Coisas inúteis, que o nosso homem inaugurava e conduzia a uma original cadeia de reconversão que ninguém conhecia.

   Formavam-se filas de interesse e de curiosidade. Desfile de velharias que os olhares esmiuçavam. Algumas suscitavam vagas memórias, que as reviam na função que o tempo esgotara.

   Muitos, de mãos vazias, acompanhavam o cortejo, hesitando palavras e gestos, rindo às escondidas e disfarçando a timidez que a presença de alguém sem laços de proximidade, sempre convocava.

   As lentes, que embaciavam o olhar, levavam-lhe a relativa nitidez das coisas e a decisão do seu valor.

  Da cozinha vinham quase todas as peças que comprava, e às suas mãos chegavam com a certeza da sua completa degradação: louça de alumínio que esgotara a mestria do latoeiro; metais diversos que se haviam corroído nas tarefas da sua utilização; cabeças de fogões a petróleo rompidas pelo aquecimento e uso constante; tecidos que a função desgastara e o saco dos trapos recolhera; garrafas que os temporais de inverno faziam chegar à costa, e a preia mar exibia por entre boias, redes e cordame, que a força do mar enovelara.

   As garrafas, que os novos tempos vulgarizaram, tinham nas vendas avulso de líquidos de consumo diário e corrente dessa altura, a importância que o nosso homem naturalmente percebia. Ao interior chegariam levadas pela bonança calculista do seu saber.

   Importará também dizer, que o nosso amigo ferro velho fazia coincidir as suas deslocações a Alvor, com a abertura do vinho novo nas adegas.

   Por tudo o que se sabe do passado vinícola desta terra, e da excelência dos néctares produzidos, ficará sempre a dúvida sobre as autênticas razões das suas visitas.

 

07
Ago21

Salva vidas "ALVOR"

Joaquim Morais

 

   Segundo a descrição constante dos documentos que o acompanham, o salva vidas “Alvor” terá sido construído entre 1932 e 1933, no instituto de socorros a náufragos de Pedrouços.

   Caracterizado como embarcação do tipo dinamarquês, é por isso natural, que a influência nórdica se tenha feito sentir nas suas linhas, e, ou, modo de construção.

   Barco a remos, concebido para uma tripulação de doze homens, constituída por dez remadores, sota-patrão e patrão.

   De beleza sóbria e traço discreto, mesmo assim não deixa de impressionar pela originalidade, e pelos pormenores revelados no detalhe da atenção.

   Aos que, de maneira directa ou indirecta souberam da epopeia que constituiu o seu desempenho, e da sua importância no contexto afectivo, social e cultural do lugar, este barco dirá com toda a emoção que a sua história encerra.

   A cada um dos que com ele viveram horas de desassossego e incerteza, dirão talvez em cada reencontro, as lágrimas da memória feliz.

   Entrou ao serviço da comunidade piscatória de Alvor em 1933, e foi abatido em 1983.

   Durante cinquenta anos, foi vigilante e responsável pela segurança de centenas de homens, a quem o mar muitas vezes surpreendia com alterações de humor que punham em risco as suas vidas, e a navegação segura das frágeis embarcações.

   Estrategicamente colocado na instável e perigosa barra de acesso à ria em lugar que assegurasse o auxilio às embarcações que iam chegando, fazia também com a sua presença, renascer o ânimo a todos os que no local viviam o aperto do mar revolto.

   Em terra, e em cada jornada que a intempérie lhe obrigava, a imagem da sua largada e da sua exemplar mareação, preenchia-nos alegremente o olhar, e era sinal de renovada esperança.

   O salva vidas traz na sua esteira um conjunto de homens que lhe deram vida.

Podem-se contar por largas dezenas, os remadores que durante cinco décadas foram chamados para as acções de salvaguarda da vida sempre que necessário.

   Com todos se fez a história do barco, e cada um viveu com ele episódios da sua própria história.

Eram pescadores, convocados pela aflição e pela tormenta, que o responsável reunia com a prontidão que a situação exigia.

  O seu dilatado número torna quase impossível identificá-los, e da sua participação fazer a devida referência nominativa.

   Desses, já muito poucos ainda estão entre nós.

   No entanto, apesar de também já não estarem entre nós, ainda vive nalguns, a memória dos patrões do salva vidas, cujo trabalho, responsabilidade e valia, foram contributo importante para o sucesso das missões.

   Do meu pai e dos seus noventa e três anos recheados das mais diversas lembranças, vieram os nomes desses homens que comandaram as inúmeras missões de vigilância e salvamento levadas a cabo pela histórica embarcação, aos quais presto aqui a minha homenagem, pela divulgação da sua identidade:

– Francisco Baptista

– Manuel Vicente

– José Jorge Vidal

– Manuel Lóló

   A todas as tripulações que levaram a esperança aos que a tiveram suspensa e ausente, pela angústia das delicadas situações vividas, esta terra deve o humilde tributo da gratidão.

  Aos mais jovens, que por vezes parecem viver numa espécie de deriva identitária, é importante que vá chegando a notícia dos que os antecederam, e do que eram feitas as suas experiências de vida.

   Se Alvor ainda mantém, apesar de algumas transformações, muito do seu património paisagístico e das suas edificações de referência que nos tocam a vista e o orgulho, saber do passado e das gentes que o preencheram com a riqueza das inúmeras actividades que desenvolveram, será um contributo interessante para nos ajudar a ser cidadãos, naturais deste lugar privilegiado.

 

 

 

 

 

                                       Atenta e solidária

 

 

 

 

Sem preâmbulos, nem avisos,

a várzea oceânica abriu-se

num temporal desfeito.

Em terra, os maus pensamentos

depressa afiam os aguilhões

da ansiedade e do desespero.

Prestes se aparelha no cais

o guardião da existência,

e doze homens enfrentam

o turbilhão do abismo

restaurando a esperança.

Na cordilheira movediça

em que as alfaias de Eolo

converteram a barra,

remam ao compasso da angústia.

Uma a uma, as embarcações

demandam a infernal passagem.

Rebentação e vento,

acompanham gritos e preces

numa sinfonia de desespero.

Atenta e solidária,

a sentinela flutuante balouça,

ao ritmo das convulsões elementares.

Na praia, alguém de negro vestido,

assiste alternando o olhar

entre os céus e o mar revolto.

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