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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

22
Out22

Amigos na doença

Joaquim Morais

 

 

  O meu pai, a quem o sorriso a palavra e o gesto amigo nascidos da presença do outro nunca faltaram, está doente. É a sua sombra, que numa cama de hospital o teima, tentando encontrar nesse lugar de circunstância, terreno onde lançar a semente da sua entranhada condição de ser marcadamente social.

  É comovente a inquietação do olhar em busca de outro que o acolha. Não está sozinho na sala de medicina interna que ocupa. Os quatro internados onde se inclui, são idosos, sendo que o mais próximo ainda fica longe do seu desgastado ouvido. Mesmo assim, e quando os olhares se ligam, atreve-se ao diálogo; As palavras desafiam a distância sem complementos de gesto nem sorrisos; apenas palavras: as que o digam e as que tragam o outro para dele saber. O afastamento e a doença condicionam o discurso e fazem-no telegráfico. Por entre as inúmeras hesitações do ouvido, o meu pai consegue dele a informação elementar: o nome, a idade, a terra onde nasceu, a ocupação profissional e a doença que o prende à cama.

  Juntá-lo-á à infindável lista de amigos que os noventa e cinco anos de vida lhe foram oferecendo, e que a memória conserva com orgulho.

14
Ago22

O gato Zen e a matemática

Joaquim Morais

 

 

 

  Há nove anos que está connosco; chama-se Zen, e faz total justiça à palavra que o diz.

Veio dum gatil próximo, trazendo já com ele a graça, que, tudo parece indicar, foi desde sempre luva talhada à sua medida.

 

  Chegou muito novo à casa que passou a ser sua, e cresceu com a Rita, três anos à sua frente nas contas do tempo, que o fez aturado desejo, e foi, também por isso, razão determinante para a sua vinda.

  Brincou no devido tempo os seus ditames, e exibiu a sua ágil e irrequieta natureza fazendo as delícias de todos.

 

  O quintal da casa tinha espaço avonde, e suficientes motivos para fazer o que é suposto e esperado aos da sua espécie: caçou pássaros que desafiavam a sua paciência sem nunca a esgotar, insectos vários que se cruzavam nos seus trajectos, e obrigou os clássicos roedores que se atreviam no espaço onde ele reinava, ao temor e ao respeito adequados.

  Teve sempre tempo e largueza suficientes para desenvolver e apurar os seus instintos, e, não sendo um gato de alcofa, nunca a dispensou para as suas, por vezes, demoradas sestas.

  Em todos os quintais vizinhos, e nalguns terrenos que o abandono descuidou, o hábito da sua presença também se fez notar, bem como percebida e apreciada, a sua natureza pacífica e afectuosa.

 

  Prezava o silêncio à sua volta, e era também de absoluto sossego a sua postura. Em casa, nunca ninguém o viu assomado, e os tímidos miados que emitia, aconteciam quando a intempérie o surpreendia em noturnas caçadas, e regressava a casa sinalizando com eles a sua presença.

 

  Adorava sardinhas. Quando aconteciam, sabia-o pela habitual logística a que obrigavam, e, discrecto, silencioso, e ainda muito antes do seu cheiro intenso se espalhar a partir do fogareiro, já ele feito comensal, se sentava à mesa em banco corrido e pose de louça, aguardando pacientemente e sem miados, que lhe servissem a democrática iguaria.

 

  A escola chegou entretanto para a Rita. Os trabalhos de casa e o estudo de algumas matérias, obrigavam aos livros e aos cadernos sobre a mesa, o que levou ao imediato despertar da curiosidade do Zen para o novo cenário.

  Daí até ao pulo para a cadeira mais próxima deles, foi um instante.

  Posto pelas circunstâncias na rota dos livros, passamos a vê-lo de vez em quando, no insólito exercício da sua intrigante observação. Mas nem tudo suscitava o interesse do Zen. Alheado do colorido de desenhos e fotografias, tal como do arrumo preciso das letras nas palavras e das palavras no texto, outra improvável ciência havia de convocar de imediato o seu reparo: a matemática. A agradável impressão causada pela imagem dos símbolos que a traduziam, levaram-no sem hesitações, a aderir à razão dos números, pelos números; tendência que o passar dos anos e as diferenças nos níveis de aprendizagem da Rita, manteve sem abrandamentos.

  Zen sentava-se num lugar feito seu pelo hábito, e percorria atento as páginas que a Rita ia folheando, percebendo-se nitidamente o movimento da sua cabeça, na condução do olhar pelas ilustrações numéricas que a sua condição eminentemente felina, parecia apreciar, e estranhamente adoptou.

 

  Sem o desconforto de ter que se debruçar sobre a eventual complexidade da matéria matemática, Zen parece ter descoberto nos infindáveis quadros da sua profusa simbologia, uma tranquilidade bem à medida do seu nome.

 

 

  O Zen continua connosco, e festejamos juntos e em silêncio, o prazer do reencontro a cada dia.

 

01
Nov21

Saudade

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

   Hoje é dia de todos os santos: dia que a tradição recomenda ter presente na memória, os que a terra acolhe nas suas entranhas.

   Sendo certo que estas lembranças nem sempre se conjugam com o turbilhão existencial de muitos, não é menos certo, que, apesar disso, os cemitérios têm nos dias que o antecedem e sucedem, desusado movimento.

   Não me afligem correrias nem me tolhem exigentes obrigações. Tenho, como porventura muitos outros terão, alguns episódios de pensamento preenchidos pela melancolia dos que já partiram, e outros, onde os inesquecíveis registos do que me concederam me suscitam ternurentos sorrisos.

   Como acontece habitualmente, voltei a fazer a “visita” aos que apesar de ausentes, continuam a ocupar-me, nas viagens que com eles decido fazer pelos caminhos que percorremos juntos.

   Comoveu-me a evidência do fim. A realidade pareceu-me mais dura do que noutras vezes.

   Fiz o percurso das suas definitivas moradas, olhei-os nos retratos que o tempo empalideceu, e li na pedra fria as palavras que os dizem.

   As imagens trouxeram-nos de volta, e às inúmeras e partilhadas ocorrências que os anos teceram.

   É claro que também sou fruto dum tempo feito da sua proximidade.

  Talvez a saudade exija ser citada.

 

29
Mai21

Já é amanhã?

Joaquim Morais

 

 

 

 

   O Simão vive nos brinquedos, e no que a imaginação com eles decidir fazer.

Tudo o que, para além disso, no seu dia a dia tenha que ser feito, é sempre inoportuno, enfadonho e permanentemente adiado.

   Primeiro que tudo brincar, a seguir brincar, e por fim brincar: este é o seu lema.

   Retarda as obrigações até ao limite, e o seu cumprimento bate sucessivos recordes de velocidade.

  A estratégia passa por adiar, só que, muitas vezes nos limites, e noutras já para lá deles, faz daí decorrer divertidos episódios.

  O tempo das refeições fica sempre muito aquém do que o manual recomenda, de maneira a sobejar para os lúdicos projectos, onde nunca é demais. De entre os comensais é o último a chegar e o primeiro a sair.

  As sestas, que o cansaço das crianças às vezes convida, nunca cabem no seu dia a dia.

  Quando nalgumas vezes o olhar pesa, as cortinas tendem a fechar-se e a rendição parece inevitável, depressa renasce na vertigem duma pista automóvel, na criação dum cenário que envolva polícias e ladrões, bombeiros, resgates e salvamentos, ou na remontagem dum lego multiforme.

  Os parceiros das brincadeiras, onde eu me incluo, raramente resistem ao tempo do Simão, ficando quase sempre pelo caminho, no interminável trajecto traçado para elas.

  Quando a escola aconteceu, todo o programa diário habitual se alterou, mas nas novas rotinas criadas, o protagonismo continuou a pertencer ao fantástico mundo dos brinquedos.

  A frequência da escola sujeitava-o ao tempo da permanência. Fora dela, a gestão era sua, desde que assegurados os trabalhos de casa que ela obrigava.

  À semelhança das refeições, da satisfação de fisiológicas exigências, e de outras fortuitas ocorrências consumidoras do precioso tempo, os trabalhos de casa, seriam feitos num contexto permanente de economia temporal.

  Acontecia por vezes, que a pressa nem sempre coincidia com o passo de certos trabalhos.

  A necessidade de estudo e pensamento mais demorados, exigiam mais tempo, que, quando não providenciado, geravam resultados de rigor duvidoso e apresentação menos conseguida.

  As constantes advertências raramente traziam as esperadas melhorias.

  Com as tarefas da escola e tudo o mais, o dia do Simão desaguava na noite como se estivesse a começar.

  A seguir ao jantar, assumido como sempre em modo ligeiro, ainda havia tempo para um último acto da divertida jornada, até à decisão materna de lhe lembrar a existência do descanso noturno.

  Quando se entendiam a evidência e a necesssidade do repouso, acabava rendido à obrigação de dormir.

  Sem saída possível, apenas lhe restava que a noite tal como os outros desperdícios temporais que habitavam o dia, fosse lesta, e que o prazer do sono que nunca sentia, o bafejasse, e a tornasse menos entediante.

  Empunhando dois pequenos peluches de etiquetas delidas pelo roçar dos dedos, entrava na cama com a atenção virada para a leitura que alguém ditava e que no tempo do seu ouvido, depressa se apagava.

  Nada melhor que os livros para levá-lo aos braços de morfeu

  Na cama, o desejo de regresso ao palco por vezes acordava-o. Baralhado e sonolento, com a noite a decorrer e o dia ainda longe, fazia sempre a mesma pergunta:

  -Já é amanhã? Já é amanhã?

  A luz do dia raramente o apanhava entre lençóis. Madrugava, como se o sujeitasse uma obrigação laboral, ou um compromisso que exigisse as horas do alvorecer.

  Tinha pela frente, o ledo encargo de criar uma realidade à sua medida, e com ela preencher o mundo de que era feito.

  Ao tempo, diria de si, com toda a diversão que nele coubesse.

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