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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

14
Ago22

O gato Zen e a matemática

Joaquim Morais

 

 

 

  Há nove anos que está connosco; chama-se Zen, e faz total justiça à palavra que o diz.

Veio dum gatil próximo, trazendo já com ele a graça, que, tudo parece indicar, foi desde sempre luva talhada à sua medida.

 

  Chegou muito novo à casa que passou a ser sua, e cresceu com a Rita, três anos à sua frente nas contas do tempo, que o fez aturado desejo, e foi, também por isso, razão determinante para a sua vinda.

  Brincou no devido tempo os seus ditames, e exibiu a sua ágil e irrequieta natureza fazendo as delícias de todos.

 

  O quintal da casa tinha espaço avonde, e suficientes motivos para fazer o que é suposto e esperado aos da sua espécie: caçou pássaros que desafiavam a sua paciência sem nunca a esgotar, insectos vários que se cruzavam nos seus trajectos, e obrigou os clássicos roedores que se atreviam no espaço onde ele reinava, ao temor e ao respeito adequados.

  Teve sempre tempo e largueza suficientes para desenvolver e apurar os seus instintos, e, não sendo um gato de alcofa, nunca a dispensou para as suas, por vezes, demoradas sestas.

  Em todos os quintais vizinhos, e nalguns terrenos que o abandono descuidou, o hábito da sua presença também se fez notar, bem como percebida e apreciada, a sua natureza pacífica e afectuosa.

 

  Prezava o silêncio à sua volta, e era também de absoluto sossego a sua postura. Em casa, nunca ninguém o viu assomado, e os tímidos miados que emitia, aconteciam quando a intempérie o surpreendia em noturnas caçadas, e regressava a casa sinalizando com eles a sua presença.

 

  Adorava sardinhas. Quando aconteciam, sabia-o pela habitual logística a que obrigavam, e, discrecto, silencioso, e ainda muito antes do seu cheiro intenso se espalhar a partir do fogareiro, já ele feito comensal, se sentava à mesa em banco corrido e pose de louça, aguardando pacientemente e sem miados, que lhe servissem a democrática iguaria.

 

  A escola chegou entretanto para a Rita. Os trabalhos de casa e o estudo de algumas matérias, obrigavam aos livros e aos cadernos sobre a mesa, o que levou ao imediato despertar da curiosidade do Zen para o novo cenário.

  Daí até ao pulo para a cadeira mais próxima deles, foi um instante.

  Posto pelas circunstâncias na rota dos livros, passamos a vê-lo de vez em quando, no insólito exercício da sua intrigante observação. Mas nem tudo suscitava o interesse do Zen. Alheado do colorido de desenhos e fotografias, tal como do arrumo preciso das letras nas palavras e das palavras no texto, outra improvável ciência havia de convocar de imediato o seu reparo: a matemática. A agradável impressão causada pela imagem dos símbolos que a traduziam, levaram-no sem hesitações, a aderir à razão dos números, pelos números; tendência que o passar dos anos e as diferenças nos níveis de aprendizagem da Rita, manteve sem abrandamentos.

  Zen sentava-se num lugar feito seu pelo hábito, e percorria atento as páginas que a Rita ia folheando, percebendo-se nitidamente o movimento da sua cabeça, na condução do olhar pelas ilustrações numéricas que a sua condição eminentemente felina, parecia apreciar, e estranhamente adoptou.

 

  Sem o desconforto de ter que se debruçar sobre a eventual complexidade da matéria matemática, Zen parece ter descoberto nos infindáveis quadros da sua profusa simbologia, uma tranquilidade bem à medida do seu nome.

 

 

  O Zen continua connosco, e festejamos juntos e em silêncio, o prazer do reencontro a cada dia.

 

30
Jul22

os pescadores e os deuses

Joaquim Morais

 

  Do alto das serras do redor, desceram ribeiras com sonhos mareantes. Talharam na terra novos rumos; fizeram-se ria; e abriram as portas do mar aos que na imensidão tinham o destino e a razão.

 

  No lugar, o azul intenso que do sul acenava marulhando na praia as vozes da lonjura, preenchia as vontades e dizia-se caminho. Quase nada, para além dessa sedutora via.

 

   Entre a terra e o azul profundo, a mansidão da ria; uma largueza de águas vivas respiradas pelo vigor da lua; o lugar da iniciação, onde o aprender rimava com o ser; o repousado ensaio para a peça por vezes dolorosa, que os homens decidiam levar à cena em mar aberto.

 

  Porventura fascinados pelo canto e pela cor, ou porque a terra pouco ou nada tinha para lhes dar, foram muitos os que se fizeram pescadores. Viveram o desconforto da faina em precários berços de tábuas, ao sabor dos elementos, e navegando as emoções que as circunstâncias urdiam.

 

  Aos barcos, que o tempo decidia, impelia-os a força de vigorosos braços. Forjados no calor da faina, e temperados por bátegas de sal governadas pelo vento, tinham nas mãos o desenho das incontáveis remadas, escrevendo rotas que as estrelas ditavam. Quando reinavam sopros bonançosos, festejavam-se as tréguas, emprenhavam-se velas, e nasciam na proa dos botes, risadas de alabastro que os olhares celebravam.

 

  Porque era dura a faina, e por vezes violenta a escrita do mar, os homens chegavam-se aos deuses: diziam-no nas vistosas amuras das pequenas embarcações, inscrevendo nelas os eleitos da sua devoção. Consagrados pelo culto e sustentados pela crença, era suposto estarem a seu lado, quando tivessem que afrontar o aperto ou a má sorte.

 

  No tempo, e quando ao largo medravam ameaçadoras sombras e crescia a incerteza, algumas mulheres rezavam na praia, alternando os olhares entre o céu e o mar revolto

 

 

  Pelos meus avós, ambos pescadores, e por todos os que trocaram a relativa e provável firmeza terrena, pelo exíguo espaço dum barco a vogar a inquietação e o imprevisto, fica, mais uma vez, a notícia dum tempo e dum lugar onde os milagres dos homens eram obra dos deuses.

 

01
Jan22

A moda na igreja do padre David

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

  David Marreiros Neto, nasceu em Monchique em 1902. Homem de saberes variados, tinha na terra as suas raízes mais profundas.

  Iniciou-se no ministério como padre auxiliar em Loulé, ocupando nos anos trinta, por nomeação da diocese, a paróquia de Santa Bárbara de Nexe.

  Aí, e segundo alguns paroquianos, cedo começou a revelar o seu carácter interventivo, principalmente junto dos jovens, ficando na memória de muitos paroquianos, variados exemplos do seu controverso temperamento.

  Depois de uma década ao serviço da igreja nessa localidade do barrocal algarvio, o polémico pároco foi colocado em Alvor, onde viria a desenvolver o seu longo e por vezes agitado ministério, até ao ano de 1975, data em que faleceu por doença negligenciada.

 

  Os anos que passou em Alvor permitiram-lhe conhecer e ser conhecido. Se por um lado, esse mútuo entendimento preparou os seus paroquianos para os cuidados a ter na abordagem de assuntos, que envolvessem mudanças na ordem estabelecida, serviu, por outro, para tê-los prevenidos em relação à sua frontal e nem sempre simpática maneira de os interpelar.

  Inovar não era seguramente a sua vocação, nem para isso o convocava réstia de entusiasmo.

 Sendo homem assumidamente avesso a modernices, não hesitava nas críticas e consequentes advertências, a quem pusesse em causa os preceitos vigentes, que a igreja e ele próprio, entendiam como os mais adequados. Cristalizado na tradição litúrgica mais conservadora, pouca ou nenhuma abertura mostrava para refrescá-la, ao contrário do que se ia fazendo noutras paróquias.

  No entanto, e em desacordo com o que a doutrina sugere em relação ao decoro no uso da palavra, permitia muitas vezes que a grosseria tomasse o seu lugar.

 

  A década de sessenta trouxe coisas novas para o lado feminino. A moda mexia com o mundo, e as mulheres iam mostrando no rosto e no vestir os sinais da mudança. Se algumas ainda hesitavam a plenitude da moda, outras havia que exibiam sem vacilações a sua exuberante inteireza.

  Particularmente atento a tudo isso, agraciava-as com mordazes alfinetadas, sempre que a ausência de sobriedade no semblante, ou no traje, as transformasse em peças carnavalescas, como costumava dizer.

 

  A novidade era fértil, e a esses novos desafios que as tendências da moda iam colocando, ia o padre David respondendo, umas vezes com divertida frontalidade, e noutras com intransigente rispidez.

  Era ágil na palavra, muitas vezes metafórica, carregada de ironia, que, para além da acidez, cumpria o seu propósito com a graça própria do seu dizer.

  Deixou-nos um conjunto de divertidas intervenções que se tornaram populares pela contundente chacota.

 

 

 

 

                                                                                          *************************

 

 

 

 

   Chamaram-na de missa do galo. Claro se torna, ter havido influência de macho galináceo na razões da designação.

  São muitas as versões que o relatam, e, por extensas, e mais ou menos fantasiosas, importará pouco nesta altura o pormenor dos seus conteúdos.

  Porventura mais relevante, será a constatação que apenas nos países onde se fala português ou espanhol se celebra com o nome de missa do galo, aquela que no resto do mundo católico é chamada de missa da meia noite.

 

  E foi pouco antes da meia noite, que teve início a celebração da missa do galo num ano da década de sessenta, que não posso precisar.

  A terra ainda tinha nas alturas muitos dos seus olhos, e a igreja fazia-a mais próxima dos que a crença iluminava; e eram muitos, os que, nessa noite, celebravam o menino, e a esperança.

 

  Após o jantar de natal, a mesa mantinha-nos juntos, e por lá ficávamos até à altura da missa do galo. As cantorias e a conversa, intercaladas pelo permanente apelo da doçaria e das bebidas que a mesa mostrava, consumiam depressa o tempo, até à hora de voltar a cumprir a tradição.

  Era um hábito consolidado, e raras as pessoas que não participavam na festa do nascimento que a igreja propunha.

 

  A liturgia da noite de natal era de especial significado para a igreja, e para os que nela se reviam. O nascimento de Jesus foi um marco relevante para o mundo cristão, e o padre David punha sempre na homilia sobre as leituras e sobre o evangelho, toda a sua alma de apóstolo da igreja.

  Aliás, era reconhecida em toda a diocese, a sua fama de grande orador.

  Na parte final da missa, era costume o beija pé ao menino. As pessoas enfileiravam-se ordenadamente, e aproximavam-se uma a uma da capela mor, onde o padre David, segurando a imagem do menino com a mão esquerda, ia dando a beijar o seu pezinho. Após cada beijo, limpava o pé do menino com um pano que a mão direita segurava. Era a higiene possível, e, em tempo de miraculosas ocorrências, a fé havia de valer-nos a todos.

  A fila era enorme, porque raros os que prescindiam de exercer o privilégio.

  Uma a uma, as pessoas aproximavam-se para o beijo, sob o olhar atento do pároco.

  Até que, surgiu a mulher, que abriu no rosto a rosa vermelho vivo dos seus lábios, e depressa incendiou os olhos do padre David. O choque foi imediato e a resposta pronta:

- Vá embora mulher! Desapareça! Desapareça! Não me suje o boneco! Não me suje o boneco! E num repente, retirou do alcance da garrida boca o pé de Jesus.

  Se esteve ou não eminente, afronta séria ao carácter sagrado do ritual, apenas o padre David poderia esclarecer.

  Claro deve ter ficado, se dúvidas houvesse, que, daí em diante, exuberantes adereços não tinham cabimento na igreja do padre David.

  O termo “boneco”, usado pelo pároco aquando do incidente, não era de grande estranheza.

  Recordo que, quando os que tinham a responsabilidade da organização de procissões, decidiam as imagens eleitas para nelas desfilarem, e o seu número parecia exagerado, o padre David atalhava dizendo: “ já chega de madeira na rua”.

 

  O divino, não parecia para ele, estar associado à diversidade imagética, mesmo que, pontualmente comovente, da arte sacra. Eram apenas figuras, (bonecos) feitas de materiais comuns, (madeira) que artistas, no exercício do seu ofício produziam. Homens ou mulheres, que até podiam viver à margem da igreja.

  Arte terrena, rasteira, que ele recusava sacralizar.

 

06
Nov21

Alvor à distância da memória (2)

Joaquim Morais

 

 

 

   Ofereciam-se a terra e o mar, e a vida era

feita da rude simplicidade do trabalho.

 

 

 

 

 

   Se da grandeza do mar chegava a dádiva maior, era da terra que ao mar e ao sol assomava, que se erguia o doce tesouro que o saber dos homens e o canto das leveduras, havia de converter no vinho que a natureza exemplar desse berço iniciara.

   Eram inúmeras as adegas, e estavam muito para lá do que o tamanho da terra fazia supor. Lembro-me delas, e das dornas enormes a transbordar aromáticas e suculentas uvas. Vinham em carroças, do lado do mar que a falésia espreitava, e eram acompanhadas e festejadas na aldeia pelas crianças, que as rodeavam na esperança das doces esgalhas.

   Despejadas de seguida em lagares de cimento, eram pisadas por grupos de homens solidários, irmanados na tarefa inicial do milagre do vinho.

   Seguir-se-iam outras etapas, até que o tempo chegasse à desejada harmonia certificada pelos sentidos.

   Havia de aportar à mesa, fazer as delícias de comensais, e levar para lá do lugar suas virtudes.

   Vinham de muitos lados na altura certa. Inauguravam-no de copos ao alto soletrando a sombria transparência, e celebrando o poema da sua condição.

 

   Na aldeia eram quase todos seguidores da igreja católica. Têm particular devoção por Jesus crucificado, e por sua mãe, aqui feita senhora da boa viagem. Dedicam-lhes solenes homenagens, que trazem devotos de muitas terras em redor, e têm um invulgar cunho emocional.

   A festa da senhora da boa viagem envolvia particularmente os pescadores, que à senhora pediam protecção e graças,

  A festa do senhor Jesus era uma impressionante manifestação de devoção e fé. A origem lendária, e as miraculosas ocorrências atribuídas à comovente imagem de cristo crucificado, transformaram este exemplar de arte sacra numa referência, para todos os que, nos apertos extremos, viviam a expectativa duma intervenção divina.

   Em ambas as festas, desfilavam em procissão inúmeros andores com vistosos arranjos florais, e encimados pelas imagens que a tradição recomendava. Nas ruas, decoradas para recebê-las, a multidão caminhava ladeando os andores, e cantando louvores e orações. Das janelas pendiam bonitas colchas, e assomavam pessoas que assumiam respeitosa atitude à passagem das imagens.

   Para a homilia, costumavam convidar pregadores de outras paróquias. Vinham recomendados pela reputação,e garantiam sempre intermináveis e inflamados sermões.

   As práticas não deixavam quase ninguém indiferente, e não era raro que as lágrimas ilustrassem os rostos mais sensíveis.

 

   Pelo natal, a festa era a da simplicidade. A modéstia do lugar e o carácter despojado da quadra ajustavam-se, e situavam-nos a todos mais próximos da humildade, que a celebração genuína recomendava.

   Era a festa da família, feita de regressos e sorrisos e do calor dos abraços; dos sabores que a época costumava e os sentidos festejavam; das cantigas ao menino; dos bucólicos presépios; da missa do galo; da agitação experimentada pelas crianças pela expectativa duma guloseima natalícia, e de muitas outras pequenas coisas, que a todos nos faziam felizes.

   Na mesa de natal, reinavam as bebidas da região: o vinho da aldeia, de primazia disputada pelas diversas adegas que o produziam; um licor também da aldeia oferecido pelas delicadas uvas de Francisco Mendes, vulgo “Alvanilho”, que à beira da praia as areias e o sol douravam, e o medronho de Monchique a convidar os que a rijeza habitava.

   Nas comidas, destaque para a panela de milhos, cuja preparação começava alguns dias antes: na primeira cozedura eram aferventados com cinza durante algum tempo, para amaciarem e saírem as peles; a seguir eram-lhes retirados um a um os chamados "olhinhos", para, depois de bem lavados, serem acrescentados da carne de porco e dos enchidos, e voltarem a ser cozinhados durante horas em fogo lento. Era, e ainda continua a ser, a minha comida preferida do natal.

   Nos doces o delicioso sabor dos pastéis de batata doce e de gila e os fritos da massa simples polvilhada de açúcar e canela, que, acompanhados pelo meloso licor ou pelo ardente medronho, rematavam e prolongavam a refeição e a conversa.

 

   Após a missa do galo, grupos de pessoas cantavam de porta em porta louvores ao menino nascido, trazendo ao silêncio da noite, uma sonoridade que a memória de criança gravou por particular agrado, e o adulto conserva, dela guardando a sua mágica essência.

 

   Nessa altura o sopro do natal pairava em todas as coisas, porque na aldeia o silêncio permitia o rumor, a noite permitia as estrelas, e o homem ainda era dado à sua contemplação.

 

 

 

01
Nov21

Saudade

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

   Hoje é dia de todos os santos: dia que a tradição recomenda ter presente na memória, os que a terra acolhe nas suas entranhas.

   Sendo certo que estas lembranças nem sempre se conjugam com o turbilhão existencial de muitos, não é menos certo, que, apesar disso, os cemitérios têm nos dias que o antecedem e sucedem, desusado movimento.

   Não me afligem correrias nem me tolhem exigentes obrigações. Tenho, como porventura muitos outros terão, alguns episódios de pensamento preenchidos pela melancolia dos que já partiram, e outros, onde os inesquecíveis registos do que me concederam me suscitam ternurentos sorrisos.

   Como acontece habitualmente, voltei a fazer a “visita” aos que apesar de ausentes, continuam a ocupar-me, nas viagens que com eles decido fazer pelos caminhos que percorremos juntos.

   Comoveu-me a evidência do fim. A realidade pareceu-me mais dura do que noutras vezes.

   Fiz o percurso das suas definitivas moradas, olhei-os nos retratos que o tempo empalideceu, e li na pedra fria as palavras que os dizem.

   As imagens trouxeram-nos de volta, e às inúmeras e partilhadas ocorrências que os anos teceram.

   É claro que também sou fruto dum tempo feito da sua proximidade.

  Talvez a saudade exija ser citada.

 

15
Set21

As ameijoas e o olhar na ria de Alvor

Joaquim Morais

 

 

 

   O mapa de indícios e não de evidências é um método para prolongar o olhar. Os imbecis olham rápido para uma coisa e dizem: aqui não há nada que possa ser pensado. O sensato olha longamente. ( Gonçalo M. Tavares – breves notas sobre literatura bloom).

 

   São muitas as maneiras de apanhar as saborosas ameijoas. De entre todas, distingo a que do mariscador exige particular jeito e vocação; veia que apesar de não ser rara, é na sua apurada expressão privilégio de poucos

   Refiro-me à apanha pela percepção do olho do bivalve, e do desafio que as inúmeras maneiras como não se revela, constitui para quem disso faz ofício.

   O acompanhamento e conhecimento dos que nesta tarefa se empenham, e se distinguem, levaram-me a este pequeno texto.

 

   Neste lugar, por imperiosas razões, houve muitos que a terra sujeitou e ao olhar obrigou. Nem todos a viram de igual modo.

   Aos que a mostra animou, por indícios que espevitaram a vontade de a rever e perceber, há-de ao olhar juntar-se a mão, para com ela tentar aprender os sinais que a curiosidade elegeu.

   Aos outros a quem o chão obriga, e dele se apartam por ligeireza no olhar e descuidado entendimento, deixa ao juízo diminuta medida para a arte..

 

   A terra de que falo, é a que o mar corteja e navega para lá da linha de costa, encorajado por astral cumplicidade, que o governa no contínuo vai vem das suas águas.

   A ela chegará parcela da sua inesgotável energia. À ria e ao mar emprestarão as água geradas em serrano berço a criadora força da sua natureza.

   Hão-de as marés caprichar na ria rara formosura, e nela esculpir o espanto dos olhares.

 

   Quando a terra que a preia mar tomou, pela vazante ao mar devolve as suas águas, nasce nela larga e fértil nudez. Aí moram, entre outros, as ameijoas que à mesa trazem prazer único, e ao lugar conferem distinção.

   Aguardam apenas que alguém traduza o seu disfarce, e lhes conduza a gastronómicos destinos.

 

   Na ria, caminha cabisbaixo alguém que do olhar retira abreviada notação. Baralha-o a escassez das evidências; a mão e a sachola preguiçam; são vítimas da ligeireza do olhar; na vasilha, apenas o pouco que a inépcia permitiu.

   O tempo, recheado de elementos que as ocultam, exige mais do que ele pode dar.

 

   Não muito longe, conduzido por invulgar agudeza, há outro olhar que à mão impõe frenética cadência.

   Não o conduzem categóricos sinais. Não lhos concede o tempo por impróprio à fácil amostragem.

  Transforma, por isso, a prova exígua e disfarçada em incentivo, e com a teimosia do olhar descobre nos indícios e na sua ténue expressão, apenas outro modo de serem percebidas.

   Os quadros são inúmeros. Cabe aos que a virtude nomeou, neles descobrir a expressão da ilusória ausência, e preencher de inigualável sabor a mesa dos que o privilégio agrupará.

 

   Farão seus os segredos da terra, os que a olham longamente.

 

28
Ago21

O voo de Raimundo

Joaquim Morais

 

 

 

  Raimundo sempre se sentiu em harmoniosa ligação com o céu. A permanente empatia, a sua fixação pelas alturas e o propósito inabalável de navegá-las, acompanhava-o desde criança, e com o encantamento próprio das mágicas epopeias.

  Porventura ocultas teorias, das que nos situam em remotas e variadas existências fora da humana condição, pudessem vir a considerá-lo de entre os que do alto precederam.

  De braços abertos e peito ao vento, cabelos soltos, alinhados pela brisa que o correr acentuava, em vão batia as pretensas asas. Fazia-o, apesar de tudo, com a convicção que a persistência e o tempo haviam de levá-lo a elevados portos.

  Raimundo crescera sem esmorecimentos na vontade de voar.

  Se outros homens em tempos decidiram o mar, e nele pintaram o quadro das suas vidas, porque razão não haveria ele de cortejar subidos lugares, para neles habitar o desejo que a vida porfiava.

  Queria fazer do céu a sua janela do mundo. Queria, suspenso das alturas, perceber a terra, para lá da nivelada extensão do olhar, e dela partir sempre que a largueza do suspenso azul lhe convocasse.

  Elevar-se no espaço por entre nuvens, ou deslizar na etérea transparência teria de ser o seu destino.

  O pensamento, há muito afastado de rasteiros desígnios, ocupava-se agora de encontrar um meio, que tornasse possível a complicada tarefa de levar o olhar à dimensão que as alturas ofereciam.

  Também por isso, Raimundo achou que apenas ponderado engenho, poderia tornar possível feito tamanho.

 

  Em criança, a sua vida não tinha sido fácil. De origens humildes, as dificuldades acompanharam-no sem abrandamentos, e o calvário da sobrevivência foi sempre o caminho.

  A tudo isso juntou-se o exagero do pai no consumo de álcool.

  Valeu-lhe, que o vício nunca gerou a costumada violência, e, muito pelo contrário, quando acontecia apenas lhe provocava infindáveis e pacíficas horas de sono.

  Benigno desconcerto, que viria a ser de fundamental importância para o que se seguiria.

 

  O encontro, fortuito, deu-se na barbearia do meu pai: Lugar de passagem e de conversa, e da diversidade da notícia, que a habitual e considerável humana presença ia produzindo.

  Raimundo aguardava que o barbeiro António Morais, lhe tirasse de cima os anos com que as suas palavras rematavam em cada cliente, a conclusão da obra.

  O corte da barba, e, ou, cabelo, provocavam contentamento recíproco, e o novo ar era sempre, e de viva voz, sublinhado pelo mestre.

  Passei, como noutras vezes, para no suplemento infantil do jornal diário treinar a leitura que a primeira classe iniciara.

  Não me lembro de já o ter visto antes.

  Olhou-me, perguntou se gostava de ouvir histórias e convidou-me a ouvir a sua.

 

  Fascinou-me sempre ouvi-las. Primeiro, contadas, de viva voz, por quem se dispusesse a fazê-lo. Aí, contou e pontuou o meu avô materno, figura nem sempre simpática, mas que o enredo transformava em empenhado e afectuoso narrador.

  Depois, e quando me brindou o saber dos sinais que tecem as palavras, decifrando os quadros, onde, inscritos, soletravam a sua comovente magia.

 

  Disse-me Raimundo o que já sabemos da sua determinação em voar. Direi agora o que as suas palavras desvendaram do que ainda não conhecemos.

 

  Raimundo vivia no campo e tinha o saber da terra. Cresceu rodeado dos seus incontáveis segredos, e fez da sua aprendizagem uma causa, para ajudar a adiar o esquecimento aos que, em permanência, se alheiam da sua relevância.

  Desvendados que foram os segredos da terra e das criaturas do seu reino,era no céu que se abria e se oferecia, que queria muito escrever uma página diferente.

 

  Pelo lugar onde vivia, passavam ao fim do dia enormes bandos de gralhas que cobriam o céu, e se dirigiam para os rochedos do litoral, onde pernoitavam nos inúmeros fojos que entre penhascos abundavam.

  Lembro-me delas em criança, e de, com outras crianças, associar a sua passagem à ideia de matrimoniais festejos, como se de humanas criaturas se tratasse.

  Acesa pela presença das gralhas nas falésias, aportou à memória  a frequente embriaguez do pai, e o remate feito de anestesiantes e prolongadas sonecas.

  O pensamento fervilha sempre que presente está a intenção de mudar qualquer coisa no rumo das nossas vidas. Laborava o de Raimundo como nenhum outro, que há muito procurava alternativas à rasteira forma de passar os dias.

  Homem de prático saber, decidiu de pronto ensaiar o que lhe foram ditando as especulativas reflexões sobre os efeitos anestesiantes do álcool.

  Aguardou pelo fim do dia, e, munido de pinga que bastasse, pôs-se a caminho das falésias onde pernoitavam as gralhas do plano.

  Havia um poço, enorme, que a preia mar banhava nas areias do fundo, e os temporais de inverno galgavam, paredes acima, espirrando bátegas de esvoaçante babugem até à superfície.

  Raimundo assinalara-o pejado das aves eleitas, que se abrigavam em pequenos vãos, irregulares, talhados pelos elementos nas paredes interiores. Em volta do poço, havia inúmeros afloramentos rochosos, desnivelados e preenchidos de pequenos sulcos e fendas, que no inverno retinham as águas da chuva, e funcionavam como bebedouros para os animais que a terra acolhia.

  Pequenas nesgas de terra intervalavam a rocha compacta e permitiam carrascos e aroeiras que as felosas saltitavam.

  A escuridão já tomara conta do lugar, e Raimundo já preenchera fendas e sulcos com a esperançosa vinhaça.

  Regressou a casa, e a noite, longa e vagarosa como poucas, trouxe-lhe inevitavelmente, o desassossego da insónia.

  Levantou-se muito antes que do sol assomasse afogueado preâmbulo. Cirandou até ao razoável calcular do tempo de espera, e fez-se ao caminho, com o sol desperto, e a interpretar exemplarmente o seu papel no palco do verão.

  Equipado com as cordas que o estratagema recomendara, depressa chegou ao local.

  A surpresa do quadro deixou-lhe sem palavras: dezenas de gralhas espalhadas pelo chão, mais ou menos adormecidas, jaziam prostradas em comovente e forçado abandono.

  Passada que foi a impressão primeira, Raimundo começou de pronto a urdir a arrumação das cordas que o iriam unir às adormecidas aves. Com o cuidado e a atenção que a situação exigia, concluiu o trabalho, e aguardou tolhido pela emoção, que tudo acontecesse.

 

  Raimundo quis contar-me do voo. As palavras que sabia, eram as que a terra lhe ensinara para traduzir o que à terra dizia respeito.

  Por isso, Raimundo escolheu o silêncio, e o silêncio ditou-lhe um poema feito de palavras por dizer.

 

 

15
Ago21

O ferro velho, a aldeia e o vinho

Joaquim Morais

 

 

   A chegada do ferro velho, espevitava e agrupava a moçada da aldeia. Conduzidos por juvenil entusiasmo, viam no discreto aflorar do seu sorriso, sobejos motivos de ingénuo contentamento. Juntavam-se à sua volta, e faziam a festa e o cortejo até que o regresso o obrigasse.

   Enquanto criança, habituei-me à sua presença e festejei-a como todas as outras.

   Vinha de fora, dizia-se. Da lonjura que a vista não cobria nas andanças do hábito.

   Por costumeiras, as vindas passaram a ditar ao lugar novas regras: excluir do lixo o conteúdo do pregão, e com isso ainda obter algum proveito.

   O correr do tempo entre visitas, iria lembrá-lo sempre que os eventuais quadros fossem ao encontro das molduras do seu fazer.

   Os ajustes eram feitos por adultos e por jovens, que, entre presenças, iam juntando tudo o que lhes permitisse realizar alguns tostões.

   Quando a sua vinda acontecia, toda a aldeia despertava e punha nele a atenção e o interesse.

 

   Trapos, metal, cobre e garrafas!!! Trapos, metal, cobre e garrafas!!!

   De voz rouca e sem alma, magricela, pálido e olhar distorcido por lentes garrafais, levava a cada rua o favor da recolha do que em cada casa se esgotara no préstimo, e no canto mais escuro aguardava o seu regresso.

   A armação negra e pesada dos óculos, assentava num nariz fino e encurvado, e discordava do rosto, magro e incapaz de mantê-la sem o recurso ao manual ajuste.

   De saco vazio sob o braço, entoava o fanhoso pregão rodeado da pequenada que se agitava num envergonhado rebuliço.

   Aos poucos ia chegando gente, segurando objectos que o tempo desgastara e a serventia enjeitara. Coisas inúteis, que o nosso homem inaugurava e conduzia a uma original cadeia de reconversão que ninguém conhecia.

   Formavam-se filas de interesse e de curiosidade. Desfile de velharias que os olhares esmiuçavam. Algumas suscitavam vagas memórias, que as reviam na função que o tempo esgotara.

   Muitos, de mãos vazias, acompanhavam o cortejo, hesitando palavras e gestos, rindo às escondidas e disfarçando a timidez que a presença de alguém sem laços de proximidade, sempre convocava.

   As lentes, que embaciavam o olhar, levavam-lhe a relativa nitidez das coisas e a decisão do seu valor.

  Da cozinha vinham quase todas as peças que comprava, e às suas mãos chegavam com a certeza da sua completa degradação: louça de alumínio que esgotara a mestria do latoeiro; metais diversos que se haviam corroído nas tarefas da sua utilização; cabeças de fogões a petróleo rompidas pelo aquecimento e uso constante; tecidos que a função desgastara e o saco dos trapos recolhera; garrafas que os temporais de inverno faziam chegar à costa, e a preia mar exibia por entre boias, redes e cordame, que a força do mar enovelara.

   As garrafas, que os novos tempos vulgarizaram, tinham nas vendas avulso de líquidos de consumo diário e corrente dessa altura, a importância que o nosso homem naturalmente percebia. Ao interior chegariam levadas pela bonança calculista do seu saber.

   Importará também dizer, que o nosso amigo ferro velho fazia coincidir as suas deslocações a Alvor, com a abertura do vinho novo nas adegas.

   Por tudo o que se sabe do passado vinícola desta terra, e da excelência dos néctares produzidos, ficará sempre a dúvida sobre as autênticas razões das suas visitas.

 

10
Jul21

Um olhar sobre o olhar

Joaquim Morais

                                

 

                              

                                 Olhares diversos,

que vagueiam pelo mundo,

olhares bondosos, olhares perversos,

olhares que tocam ao de leve,

olhares que veem mais profundo.

 

                                 Olhares irrequietos,

que se movem agitados,

olhares atentos, circunspectos,

olhares serenos, olhares meigos,

olhares pacientes, resignados.

 

Olhares matreiros,

que observam com malícia,

olhares discretos, sorrateiros,

olhares intensos,

olhares que veem com argúcia.

 

Olhares vivos,

que faíscam de brilhantes,

olhares soberbos, altivos,

olhares sinceros e risonhos,

olhares finos, penetrantes.

 

Olhares frios,

que se quedam enigmáticos,

olhares que causam arrepios,

olhares místicos,

olhares tristes e apáticos.

 

Olhares que choram,

que derramam pelo rosto,

olhares que imploram,

olhares de medo,

olhares de raiva e de desgosto.

 

Olhares que fitam,

que traduzem a repulsa e o enfado,

olhares que irritam,

olhares que miram e remiram,

olhares que trazem mau olhado.

 

Olhares baços,

olhares que olham apagados,

olhares que tropeçam nos seus passos,

olhares que não se cumprem,

e buscam a vida sombreados,

 

Olhares que exprimem,

que retratam alegrias e misérias,

olhares que afrontam e que temem,

que se baixam humilhados nas derrotas,

e se erguem arrogantes nas vitórias

 

 

 

 

 

 

 

 

21
Jun21

A ironia do alfaiate Milton

Joaquim Morais

 

 

 

 

   Mestre alfaiate de comprovado mérito, improvável… não tanto assim, caçador e pescador, intrometeu também a terra em sementeiras de ocasião, espicaçado pela natureza rural do lugar onde durante muitos anos viveu.

   Milton, a quem o metafórico dito sempre sorriu, soube como ninguém cultivar a amizade, que as aleatórias tertúlias todos os dias nutriam e consolidavam.

   A sua oficina foi palco dos mais deliciosos episódios, e por lá passaram todos os que não dispensavam o humor nas suas vidas.

   A mestria do seu desempenho profissional, tornou-o bem conhecido de toda a comunidade regional, e levou a sua arte de vestir com requinte, para lá das fronteiras.

   Há muito deslumbrados pelos encantos do lugar, alguns turistas estrangeiros passaram também, pela reputação do mestre alfaiate, a fazer da sua loja local de passagem obrigatória: as férias, passaram a incluir aos que que a condição profissional o fato exigia, as visitas que medidas e provas estabeleciam.

   A palavra do generalizado agrado, serviu para muitos outros, que também passaram a frequentá-la.

   Nos dias em que o calendário escrevia o habitual descanso semanal, Milton alfaiate dava muitas vezes lugar, ao caçador e ao pescador.

  Fui com ele e muitos outros que a pesca amadora irmanou durante anos, solidário na entreajuda, umas vezes pela repartição do esforço aquando da ida dos barcos do areal para o mar, noutras pelo apoio em alturas de varação na praia, quando a suestada nos surpreendia.

   Esse tempo preencheu-nos de inesquecíveis pequenas coisas, que, não sendo de assinalável registo, têm na simplicidade a sua maior virtude.

   As origens, o conhecimento e a proximidade dos pescadores e da sua realidade, fizeram-nos ser como eles, e, muitas vezes, como eles dizer.

   Os diálogos de quem se envolve nesta lida, mesmo sem o peso da obrigação, são duma enorme riqueza metafórica, e têm no mar, nos pescadores e na diversidade de episódios que a faina produz, a sua inesgotável fonte.

   Todos nós éramos militantes dessa causa, sendo que, era do Milton que vinham quase sempre, os maiores tesouros que a linguagem produzia.

   Com um sorriso permanente que a fina ironia do olhar sublinhava, ilustrava como ninguém, as incidências que o tempo de mar e de pesca iam desenhando.

   Os dichotes que intercalava, faziam assomar risadas, e a sua lembrança divertia-nos durante dias.

   Fui também durante muitos anos seu companheiro de caça. O bichinho tomou-nos e fez-nos reféns, como só entendem os que por ela se deixam envolver.

   Ao contrário da pesca, a expectativa duma caçada gerava sempre alguma inquietação, e a sua práctica era um estado de permanente tensão e alerta.

    A indispensável visão da presa e a decorrente rapidez da resposta, obrigavam a totalidade dos sentidos.

    O início de cada jornada, escrevia nalguns curiosos prefácios, que envolviam tiques e hábitos esquisitos.

   O Milton presenteava-nos quase sempre com persistente tosseira, a que apenas alguns vómitos sem conteúdo punham termo.

    O cansaço, acabava por devolver a todos a normalidade.

   As chalaças na caça ficavam para o seu depois, e mantinham o mesmo tom divertido, e adequado às peripécias do seu desenrolar.

   O distanciamento exigido por razões de segurança, não permitia, ao contrário da pesca, o parecer imediato.

   À volta da mesa, e na viagem de regresso desfiava-se o rosário dos comentários, que a realidade e a fantasia iam ditando.

   Custou-me vê-lo partir tão cedo.

   Numa parede da alfaiataria, tinha algumas fotografias de amigos de primeira linha que já lá estavam.

   Se o além permitir, deve ter sido de arromba o reencontro.

 

 

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