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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

19
Out24

Breve apontamento sobre as traineiras e as conserveiras

Joaquim Morais

 

 

  Meados do século vinte; estava-se em plena temporada do cerco, e o sol, a inaugurar o fogo e a cor, pintava barcos e suas redes, que num enorme leque e vogadas pelo corcho, se estendiam por bombordo. O mar, adormecido, repousava dos desmandos da nortada, que reinava nas tardes, soprando desabridos humores até ao dissuasor abismo da colorida chama do poente.

  A bordo, o guincho virava a arte devagar, que o mar, fundo, não despertava a inquietação da pedra. Com as argolas à borda e a aberta cerrada, era tempo de alar, de trazer à superfície a prateada esperança, alimentar os sonhos, e devolver ao barco a graça que o vazio da rede impede.

  Os braços e a voz em sintonia, arrancam-na do fundo acompanhados pelo grasnar intenso das gaivotas que enxameiam a pesada arte.

  Era assim na pesca do cerco, que, ainda sem mecânicas ajudas, recorria à cantoria do leva leva, para aligeirar a rede e o cansaço.

  As traineiras, que nas décadas de cinquenta e sessenta eram em número considerável, foram o suporte fundamental da indústria conserveira em Portimão, transformando a cidade num importante centro industrial e piscatório. O rio Arade era um soberbo quadro de cor e movimento, e as traineiras o símbolo e referência maior da cidade.

  Utilizavam a arte do cerco, e as capturas predominantes eram de sardinha cavala e carapau, sendo que as duas primeiras, constituíam a quase totalidade do trabalho das conserveiras.

  Sempre que na faina a sorte (elemento que à época era tido por muitos essencial) sorria aos mestres, a abundância de peixe transformava a cidade num quadro de benigno e pitoresco alvoroço.

  O cais era um andar de gente numa constante roda viva, e no percurso do pescado, da rede até à mesa, havia um grande número de famílias a assegurar a subsistência.

  O comércio era a vida e o cais fervilhava.

  Na lota vendia-se a a fatia maior, e nela estavam envolvidos grandes compradores, com comércio assegurado na cidade, e noutros mercados em vários pontos do país. As fábricas tinham também presentes na lota os seus representantes, que asseguravam nos leilões, a compra do peixe indispensável ao seu funcionamento.

  Em pleno cais havia o pequeno comércio, mais em conta, levado a cabo pelos próprios pescadores, que por vezes decidiam vender a parte que lhes cabia nas divisões de bordo, e outros que enchiam a canastra no descuido alheio, fazendo nela pingar a paciência e a sardinha.

  Na procura de uns e de outros, circulavam os muitos que queriam comprar.

  A chegada do pescado às conserveiras, fazia soar de imediato estridentes sirenes, para aviso e convocatória das operárias.. Residentes na cidade, e nas áreas circundantes mais ou menos distantes, depressa se punham a caminho para iniciarem o trabalho.

  Tendo todas as fábricas, idêntico modo de avisar e reunir o pessoal tornou-se necessário que cada um aprendesse a diferenciá-las pelo ouvido; não foi difícil, e até mesmo os que não tinham compromisso laboral com nenhuma delas, o aprenderam, ajudando a divulgar o sonoro recado.

  Escutados na aldeia os estridentes apitos, agitavam-se as envolvidas em apressar domésticos afazeres e promover preparos de caminhada; o caminho era longo, o tempo urgia e o vazio da bolsa clamava. Por vezes não era fácil, sobretudo para as que tinham permanentes exigências familiares, e o tempo mal chegava para o seu cumprimento. A vida dura, e o norte invariavelmente tormentoso, davam-lhes a força para ir sempre mais além.

  Palavra passada no lugar, depressa se juntavam e se punham estrada fora até à cidade, num ritual de cansaço, que a vida exigia mas o paleio suavizava.

  Das conserveiras, que durante décadas levaram no singular soar das suas sirenes uma mensagem de vitalidade a todo o concelho, nada resta.E eram muitas, talvez mais de duas dezenas, que ao longo das margens do Arade, deixaram na cidade a indelével marca duma actividade que a envolveu, porventura como nenhuma outra. Ficaram delas e nos lugares onde estavam implantadas, as características chaminés, quase todas com alados inquilinos, que por ironia são símbolos de anunciadas vidas, já não permitidas ao moribundo senhorio.

  Restou apenas o edifício da fábrica Feu Hermanos, transformado agora em museu municipal, que tem na representação detalhada de toda a laboração da indústria o foco principal.

  Actualmente, existe em funcionamento uma pequena unidade artesanal criada em 2015 no Parchal. Chama-se Conserveira do Arade, tem processos de fabrico próprios, e está certificada como produtora artesanal.

 

 

12
Out24

Tia Catarina

Joaquim Morais

 

 

  Sem prévio pensar e num repente, fez-se presente a lembrança de alguém que, não tendo sido parte activa da minha vida, participou nela a espaços, por gestos e atitudes de estima e agrado duma simplicidade comovente.

  Chegada assim clara e súbita, decidi então que a digam, e à sua recatada existência, algumas palavras.

  Era minha tia-avó; chamava-se Catarina, e representou em toda a sua vida de trabalho, o papel simples, por vezes amargo, de operária conserveira.

  Já a conheci desgastada pelo tempo, pelo trabalho, e pela canseira das incessantes caminhadas em modo apressado, desde Alvor onde residia, até ao local da fábrica em Portimão onde trabalhava.

  Baixa, enrugada e franzina, tinha, talvez por isso ou apesar disso, a inesgotável energia que a fazia calcorrear caminhos com a leveza duma corça.

  Catarina nasceu em Alvor, e viveu enquanto jovem numa casa humilde, com a mãe e dois irmãos.

  A sua certidão de nascimento, tal como a dos irmãos, atesta incógnita paternidade. Desse pai que a certidão omite não tenho clara notícia. Fala-se de alguém, em concreto nomeado, ser pai confesso, mas sem formal aceitação, nem assumida responsabilidade. A época favorecia a impunidade dos que, sem pingo de valores a norteá-los, conduziam a vida a bel-prazer.

   Após a morte da mãe, Catarina viveu sempre sozinha.

  Não me foi dado saber, que tenha tido quaisquer namoricos no tempo certo, tendo-me chegado, isso sim, a existência de algum distanciamento e uma clara reserva, em relação a eventuais candidatos a ligações mais chegadas.

   Talvez por timidez ou receio, ou por outras e insondáveis razões, a tia Catarina decidiu tomar a solo as rédeas da sua vida.

  Não será porventura de excluir traumática razão para a animosidade que a movia em relação aos homens, a atitude de renúncia do pai.

  Num tempo em que o peso da religião fazia da frequência da igreja público costume, Catarina viveu sempre à margem dela. No alto, tal como na rasteira dimensão, levava apenas até às fronteiras do entendimento, a sua crença.

  A situação de Catarina enquanto jovem, provocou nalgumas pessoas um despertar humanitário e uma atitude fraterna, que se manteve após a morte de sua mãe

  Apesar de sozinha, pôde continuar a contar com a amizade de alguém, e a proximidade solidária de toda a família.

  As amizades forjadas no trabalho e as brejeiras conversas que preenchiam as caminhadas, serenavam os tempos de solidão mais prolongada, ou de eventuais agruras que na vida sempre acontecem.

  Para além do trabalho e da doméstica ocupação, e pouco mais havendo do que as épocas festivas que o calendário anunciava, chegou-me no entanto a notícia, de habituais e concorridos bailaricos que aconteciam na aldeia, onde era presença assídua a tia Catarina. As amigas e colegas de fábrica elogiavam-na pelo jeito, sendo certo que, de acordo com público parecer, ela sobressaía pela energia, pela leveza e pela graciosidade.

   Tivemos portanto improvável dançarina, e o decorrente benefício que a sua prática lhe trouxe.

  Não se tendo cumprido em materna função Catarina não deixou empedernir os afectos, contemplando sobrinhos com sorrisos, carinhosas conversas, e lembranças feitas da mais genuína e enternecedora matéria.

  Hoje, acresce um brando sentimento de gratidão e simpatia pela singeleza dos mimos, e por essa afeição que, sempre que fosse preciso, transbordava inundando o mundo à sua volta.

 

 

 

21
Set24

Fernando (farinha), a metáfora do mar

Joaquim Morais

 

  Ao mar se fez ainda verde, que outro, por raro, difícil seria, sendo como era em tons de azul a oferta que soía.

  O pão sabia a sal, na mesa de quase todos.

 

  Fernando, que a terra decidiu pelo canto, alcunhar de “farinha”, foi bem maior que o contido nesse redutor apelido. Por ele passava apenas a voz, que, mediana no desempenho, nunca foi o melhor caminho para chegarmos ao entendimento da sua real valia.

 

  O mar e a faina navegaram-no como a nenhum outro, deixando nele relevante marca, e dele fazendo especial discípulo.

 

 E foi nessa tarefa de convocá-los muito para lá das suas fronteiras, fazendo deles menção nas mais improváveis circunstâncias, que Fernando revelou invulgar e precioso talento.

 

  Pouco conhecida dos que escolheram terrenos ofícios, a terminologia náutica marca a diferença para tudo o resto que a palavra contempla. Dizer do mar, dos ventos, do navegar, dos barcos, das artes de pesca e de tudo o mais que envolve a relação, significa para os que nela decidem viver, a aprendizagem dum património linguístico fascinante, que é parte fundamental da nossa tradição marítima, e que resulta da necessidade de entendimento sem equívocos em plena faina.

 

  Pela ria chegou ao mar aberto; nele semeou desmedidas linhas de canseira, que consumiram o olhar e acenderam a noite e a esperança. Puxou redes em chachorros, secadas e traineiras, e em latitudes pouco ajustadas à sua carnadura, foi-lhe imposto em precário batel, um mar feito de novos imprevistos.

  Do mar e do que lhe estava associado veio toda a matéria para o poema da sua vida; só tinha que o recitar ao mundo.

 

  Da bacalhoeira vivência, e de sua lavra, cantou os versos que a diziam: singelo retrato da exigência da faina, dos benefícios de bem cumprir as tarefas, da vida a bordo, dos constrangimentos, do raro e passageiro ócio, dos proveitos que a arte de pescar trazia aos mais capazes. e tudo o mais que, não tendo sido dito, podermos supor acontecer a quem vivia durante meses a fio no reduzido espaço dum navio que a modernidade não consente, cercado de céu e mar férteis em diferentes e inesperadas ameaças

 

  De Portimão, compôs a imagem da pitoresca azáfama do seu cais nas décadas de cinquenta e sessenta, e levou-a pelo canto a toda a gente. Descrição fiel, que a linguagem coloquial realça, e a alusão a recorrentes e curiosos factos se revela particularmente interessante para os que a vida obrigou ao convívio com essa alvoroçada realidade.

 

  Por imperativo de saúde fez uma pequena cirurgia no hospital de Portimão, fazendo dela posterior relato, num desfiar de vocabulário próprio da faina, engendrando para alguns procedimentos cirúrgicos da intervenção e para o ambiente e logística do bloco operatório, invulgares imagens alegóricas que a sua imaginação ia ditando.

  Esta linguagem não era de fácil entendimento para os que viviam à margem do seu mundo, sendo no entanto notório, que a sua descodificação surpreendia sempre todos pela curiosa e divertida originalidade.

 

  São incontáveis, e muitos deles registados pela memória dos que viviam atentos ao seu delicioso discorrer, os exemplos que o dia a dia e as conversas de ocasião que o envolviam, nos ofereciam.

 

  Tinha um olhar algo ausente e apagado, mas sempre que na sua expressão o assomava demorado e maroto, fitando enviesado o seu interlocutor com brejeiro sorriso e pausada atitude, era quase certo que o mar o tomara e que a maré cheia do seu pulsar havia de inundar de versos o mundo à sua volta.

 

  Fernando foi metáfora do mar em toda a sua vida, e soube dizê-lo com a autenticidade que apenas os eleitos, (poucos), a ele vinculados por rara afeição e que dele se fizeram fiéis seguidores e intérpretes, ousaram conseguir.

 

 

15
Set24

OUTROS ENCONTROS

Joaquim Morais

 

 

  A rua foi sempre o sítio primeiro. Ponto de encontro nascido do desejo comum de dizer e de escutar, onde cada um urdia pela fala e a seu jeito, a singela malha de ocorrências que os dias teciam.

  Formavam-se grupos mais ou menos numerosos, em função do interesse das conversas, e da vocação dos envolvidos para prender a atenção e o ouvido. Predominavam nos lugares que o hábito elegia, e traziam à cena pela palavra o mundo da aldeia.

 

  Quando o tempo esfriava e a rua esmorecia, algumas vizinhas mais chegadas, juntavam-se após o jantar na casa de uma delas para conviverem. O hábito, socialmente exemplar, criou raízes, generalizou-se, e fez da terra um enorme centro de convívio, onde se suavizavam tensões, abrindo novos e divertidos caminhos, que achanavam o mar agitado do dia dia. Distinguiram-se mulheres, frescas no dizer, que chalaceavam os assuntos mais sérios e delicados, alargando as fronteiras da graça, e derrubando velhos e resistentes tabus.

  Para além da palavra, esses encontros eram férteis na produção de trabalhos, que cada uma decidia pelo particular saber, pela necessidade, ou apenas pelo prazer do desempenho.

  Tricotando, bordando, costurando ou fazendo empreita, e com um fundo de palavras que invariavelmente semeavam o riso e a boa disposição, foram serões inesquecíveis, que perduraram e fizeram-se exemplos bem sucedidos, da arte de conviver.

 

  Sempre que o verão trazia pela mão do levante a canícula africana, as noites expulsavam toda a gente de casa.

  Bancos rasteiros e cadeiras de atabua preenchiam o redor das portas e davam poiso às gentes, que com pachouchadas e dichotes convertiam a noite em prolongada e divertida tertúlia. Era assim por toda a aldeia quando o sueste se instalava.

 

            (Que vento é o sueste, que ainda de véspera fazia turvar a água dos poços?)

 

  É o mais desalmado de todos os ventos. Sopro rebelde, porventura nascido das angústias do tempo, faz do mar raivoso torvelinho, devorador de pacíficas areias. Entre o casario, remoinha a sujeira em nuvens que ferem o olhar, e que o cansaço há-de juntar, rasteiras, pelos recantos de ruas e terreiros.

  Repousa dos desmandos na frouxidão do sol, e, cúmplice da inquietante mormaceira converte a noite em palco caótico de sonhos e vigílias.

  Traz nas vagas as flores que o deserto secou, e faz assomar a lembrança dum trono anunciado por improvável bruma.

 

 

  Também na oficina do barbeiro se formavam animados grupos: por lá passavam os que, dedicados à notícia aí exercitavam, levando e trazendo, exultando quando percebiam relevante assunto, e, ufanos, rumavam a outros portos, sempre com a palavra pronta e o ouvido desperto.

  Alguns havia que lá iam pelos jornais. Uns, incapazes desde sempre de decifrar o mistério das letras, alimentavam a esperança que outros, nelas entendidos e dispostos a isso, lhes fizesse chegar o que ia acontecendo noutros lados. Falava-se de tudo no barbeiro, mas o futebol e o clubismo estavam sempre presentes. As tribos, envolviam-se em acesas disputas vozeirando argumentos e reclamando para as suas cores todas as razões do mundo.

 

  As tabernas e as mercearias também eram lugares de encontro.

  Nas mercearias predominavam as mulheres, que, por doméstico imperativo, abreviavam o tempo, aflorando assuntos para paleio futuro noutros palcos e fazendo prevalecer sempre o primado da casa e da família. Quando no entanto se conjugassem local e ocasião, e a razão aplaudisse, a veia oratória diria de si sem delongas nem papas na língua.

 

  Nas tabernas, onde apenas os homens tinham assento, (excepção feita à mulher do taberneiro,) o vinho era rei, prevalecendo pelo mérito dos seus excepcionais atributos.

 

                                                            (  A razão do vinho )

 

  Para lá da terra habitada, as cercanias de Alvor possuíam o tesouro das vinhas. As areias onde cresciam, estendiam-se, sobranceiras ao mar, até às arribas que as guarneciam e rematavam.

  O sol inteiro, a terra arenosa e as contidas águas, ofereciam às uvas características únicas que explicavam a valia da pinga.

As adegas abundavam apesar da pequenez da terra, e porque chegava longe a excelência do vinho, todas não eram muitas, para acolher os que vinham comungar da arte de beber o prazer do vinho.

 

 

  Apesar da realeza do vinho, era na assembleia dos súbditos que residia a matéria que aqui me trouxe. Os da terra e os outros, que a partir do S. Martinho ansiavam por traduzir o saibo das novas colheitas e opinar sobre elas, vinham numerosos. Discorriam sobre os atributos do néctar que a competência dos homens fabricara, e tropeçavam quase sempre na intenção de eleger favoritos. A experiência e o saber dos envolvidos na arte, acabava sempre por determinar uma qualidade transversal a toda a produção, diferindo apenas em particularidades, próprias da abordagem de cada um.

  O mérito, abraçava por isso todos de igual modo.

 

  O rumo e o tom das conversas nesses lugares era diverso. Com uma clientela de homens onde predominavam os que faziam do mar o seu modo de vida, era da dura arte de nele se afirmar e sobreviver que falavam; e faziam-no com imagens sonoras recheadas de palavras e expressões muitas vezes difíceis de entender, sobretudo pelos que, distantes dessa curiosa maneira de dizer, acabavam muitas vezes enredados na teia verbal daí resultante.

  A alteração das falas decorrente das prazenteiras libações punha à vista efeitos diversos: se por vezes acontecia que alguns mais tímidos, se faziam ouvir com tom e euforia desusados, outros havia habitualmente alegres, que eram repassados por estranha e comovente tristeza. Era no entanto mais comum, que em todas as tabernas o tom de voz subisse, e que a animação se instalasse.

  Às vezes, o convívio também trazia a surpresa do canto, que, nas tabernas, tinha no fado a sua expressão mais desejada; assim quando entre a clientela, marcava presença alguém agraciado pelo dom, era quase certo, que, a dada altura, o fado com toda a sua aura de nostalgia e sentimento, brindaria todos os presentes pela voz, pelo silêncio e pelas emoções que em cada um iria despertar.

  Preenchida assim de todos os pressupostos que a faziam, dir-se-ia que a taberna se cumpria.

 

  De entre o que era costume e para lá do que já foi dito, será interessante referir que nesta terra também se contavam histórias. Naturalmente associadas a tranquilos serões e outros convívios, nada impediria de acontecer, se oportuna fosse, diferente ocasião.

  Não era uma terra de letrados; pouco favorecidos pela época e pelas circunstâncias, foram quase todos vítimas do analfabetismo que o regime semeava.

  A tradição oral colmatara a ausência de livros e leitores, e, na continuidade, proclamou o conto como elemento essencial na formatação da memória e da consciência colectiva. Alguns contadores eram particularmente dotados, fazendo com as suas narrativas as delícias de crianças e adultos.

 

  Em criança, ouvi do meu avô materno alguns relatos, que, ora me prendiam pelo insinuante enredo, ora me espantavam pela estranheza, suscitando-me também por vezes, incómodo receio; tenho da feição bizarra de algumas dessas historietas, vaga memória.

  Apesar do seu ar habitualmente severo e até mesmo pouco simpático, meu avô transfigurava-se como narrador, pondo todo o seu empenho nesse papel e representando razoavelmente as figuras das histórias.

 

  As aldeias como Alvor, tinham nos anos cinquenta e sessenta do século passado hábitos sociais interessantes que em termos gerais tentei trazer aqui.

  Não pretendendo ser cansativo na abordagem, decidi fazê-lo pela rama, esperando mesmo assim ter avivado memórias e provocado alguns sorrisos.

 

  A rede social era concreta e genuína e acontecia pela espontânea necessidade de afirmar pelo encontro, a nossa humanidade; sem o outro não existimos; e todos também somos o outro.

06
Set24

A ESTIBA

Joaquim Morais

 

O pescador Carlos Nicolau Jaques, referido no texto anterior e também conhecido por Carlos “pão e metade” viveu com a família durante muito tempo num antigo edifício, que teria sido alojamento de trabalhadores duma eventual fábrica de transformação e conservação de pescado, ao tempo já inexistente, e situada em local adjacente.

 

Era uma casa com um enorme pé direito e acentuada degradação, circundada pelas águas da ria, e a que as marés vivas se chegavam marulhando nela os versos da nortada.

 

Como parte dum conjunto de outros edifícios então totalmente arruinados, o local era conhecido por estiba, e a designação pode ter relação com a actividade desenvolvida. O trabalho efectuado teve certamente a ver com a conservação de pescado para consumo posterior, e, pelo nome por que se tornou conhecido e foi passado ao longo de gerações, pode ter envolvido o ancestral método de perservar pela salga que a civilização romana deixou bem evidente ao longo da costa, nos inúmeros tanques utilizados para o efeito, e que, não muito longe deste local ainda existem.

 

Esse método ainda perdura nos nossos dias, é relativamente fácil de executar, e como desafio para os que gostam de experiências novas, passo a descrever:

 

A estiba de biqueirões é um processo de tratamento desses peixes azulados para posterior consumo, ainda usado por algumas pessoas e que envolve a sua acomodação num recipiente, (lata), em camadas e abundante salga, rematada com a colocação dum peso sobre eles. Cozinham nessa substancial moira, até que experiente avaliação o ache concluído. É um processo demorado, que decorre por alguns meses, e dá origem a um pitéu muito apreciado que se obtém após a sua cuidada preparação. Conservam-se em azeite depois desse procedimento, e são consumidos acompanhados por alho fatiado.

 

Por tudo o que foi dito, é bem possível, que nesse conjunto de edifícios de razoável dimensão a que chamaram estiba, se tenha desenvolvido um processo de salga industrial para conservação de pescado, semelhante a este.

 

 

 

 

 

 

 

 Nas fotografias que junto, a primeira identifica ao fundo a suposta casa para alojamento de pessoal, ainda de pé, e o espaço da provável fábrica já totalmente arruinado; a outra, ao que parece, retrata a fachada do que seria o edifício das ruínas em altura de laboração e o cais onde supostamente se efectuava a descarga do pescado, totalmente preenchido pelos barcos da época.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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cais antigo Alvor.jpg

17
Ago23

Carlos Nicolau Jaques, o pescador e o homem

Joaquim Morais

 

 

 

 

  Chamava-se Carlos Nicolau Jaques, mas na terra onde sempre viveu, se alguém precisasse de citá-lo para dele dizer o que a ocasião exigisse, poucos o reconheceriam no nome com que o baptismo o designara para a vida.

 

  A alcunha de “pão e metade” relegou os apelidos primeiros para o papel das raríssimas formalidades, e juntou-se ao nome, para colocá-lo sem reservas nas bocas do mundo.

  É bem possível que Carlos ou familiar que o antecedeu, tenha, por dito, atitude, ou procedimento usado acerca desse popular alimento na medida referida, dado a alguém, pretexto para esse improvável epíteto. O rótulo acompanhou-o enquanto permaneceu entre nós, e esvaiu-se nas gerações que se seguiram, pouco ou nada motivadas para as coisas do passado.

 

  Pescador no tempo que o vigor lhe consentiu, Carlos foi também conhecido pela sua paixão pelo cinema e pelo particular entusiasmo que lhe suscitavam os filmes de aventuras.

  Facilmente contagiado pelo desenrolar da acção, comentava com gestos e falas as cenas que mais o inflamavam, desfiando por elas um agitado rosário de emoções.

 

  Baixo, dotado duma invulgar força, viu-o sempre a abrir as procissões nas festas religiosas, transportando o enorme pendão a que ninguém mais se atrevia: adereço cujo peso considerável aliado à grande superfície, tornava o seu transporte proeza para poucos. O enorme esforço percebia-se no rosto e no traje de Carlos, tomados sempre por abundante transpiração.

  Recordo na sua face a permanente escrita do sol, matizada pelo rosado que o esforço acendia, e coberta por esse extemporâneo e copioso orvalho.

 

  Chegaram-lhe bem cedo as propostas do mar: de sul acenava-lhe o mar inteiro; a oriente, para cumprir o arco que ilustrava o dia, erguia-se da flor das águas o sol, trazendo com ele a cor dos alvores levantinos; inundava de luz o oceano, até ao quadro da colorida decadência que os poentes celebravam e o abismo afundava.

 

  Com o olhar prenhe de fascinante azul e nas suas costas breve e ocupada terra, que outro senão o mar.

 

  Os galeões ocuparam parte das suas andanças pelo mar. As extensas e pesadas redes da faina iniciaram o molde e a têmpera da sua atlética figura; os elementos lapidaram-lhe o rosto; sopraram nele o engenho agreste da sua arte e deram-lhe o ar olímpico dos que merecem o sorriso da eternidade.

 

  Após o tempo da arte do cerco na pesca da sardinha a bordo dos galeões, Carlos decidiu-se pela pesca à linha, passando a desvendar pesqueiros e fundos , registando referências noturnas e diurnas que a vista lhe oferecia, e criando mapas dos lugares que a experimentação e a prática ia revelando frutuosos. Quando às coordenadas da memória se juntavam ventos, correntes e águas favoráveis, era quase certo o sucesso das pescarias.

 

  Tinha um pequeno barco a que chamou “pirata”; movia-o a força dos seus braços, e, quando bonançoso, o vento que, emprenhando a carangueja, fazia dele uma gaivota à flor da água.

 

  Solitário na pesca e parco de palavras, trazia no andar o desenho das vagas e no olhar a distância que a terra negava; nas mãos, escavadas pelo punho dos remos, encaixava na perfeição a vara do pendão, que os braços carregaram com firmeza anos a fio, perante a admiração de todos.

 

  Deixou-nos cedo; O coração, que as emoções foram consumindo ao longo da vida, privou-o delas aos sessenta e três anos

03
Jun23

As Fases da Ria

Joaquim Morais

 

 

 

 

  Esteve quase sempre longe dos olhares do mundo. Viam-na os que em seu redor se fixavam, e, sobretudo, os que nela decidiam modo de vida, ou dela faziam caminho para o largo.

Para esses, o olhar, essencialmente comprometido com o pão, raramente era animado por vislumbres contemplativos.

 

  De entre os que visitavam a terra que lhe deu o nome, eram poucos os que a afoiteza convocava para o desafio de percorrê-la. Ao tempo, o trajecto e o conforto raramente coincidentes, suscitava muitas vezes a hesitação, e abria quase sempre caminho para a recusa.

 

  Viam-na à distância, privada da inteireza que só os detalhes lhe conferem, e desfrutavam-na apenas à mesa saboreando as suas diversas iguarias, com particular destaque para as deliciosas ameijoas.

 

  Isentos de sérias obrigações, e fazendo da diversão razão maior, foram os mais pequenos, onde felizmente me incluo, que, atraídos pelo seu mágico chamamento, a ela se chegaram e com ela firmaram singelo compromisso.

 

  Sem o calvário das tormentas, que os ventos por vezes teciam na vastidão oceânica, a ria oferecia-se mansa e disponível.

 

  As crianças fizeram-na sua semeando nela as flores das suas primaveras; navegando os impulsos da verde condição; guinchando a vida e chapinhando a nudez em lamacentos regatos; mareando toscos barcos, que, guiados pelas pétalas da mão, ou soprados pelos ventos do desejo, faziam da noite o palco onírico de náuticas proezas.

.

 

  A passagem do tempo, as mudanças que em nós iam ocorrendo, e o constatar mais ou menos explícito da sua generosidade, fizeram considerá-la para lá da lúdica feição: sugeriram novas abordagens, e tiveram como resultado a exploração dos seus recursos e decorrente descoberta dos seus tesouros.

  O início foi um suceder de emoções,e o entusiasmo resultante, muito próximo da juvenil euforia.

  Foi uma fase intensa, duradoura, e que havia de manter-se enquanto colorido o quadro da frescura física.

 

  A diversidade disponível, impossibilitava delimitar no tempo, a tarefa da sua pesquisa e entendimento. Era uma iniciativa para a vida, mas as fronteiras do saber pleno, ficavam sempre muito longe da maioria das pretensões.

  A ria inteira, era apenas dos poucos que ela fizera cúmplices.

 

  Entretanto, a ria abriu-se ao mundo e ficou à distância dum olhar.

 

  E aos meus olhos, livres de juvenis anseios e esperançosas pescarias, chegaram as imagens que, sendo iguais ao que sempre foram, ocupam agora toda a largueza do olhar, e serenam na perfeição as águas deste tempo.

 

  É talvez por isso, que a vejo todos os dias como se fosse a primeira vez.

 

 

com cânticos de algas e de ventos,

o oceano exalta o reencontro

e a terra celebra o orgulho da raiz.

É uma gota de universo;

será decerto um poema;

porventura branda inquietação;

é janela clara e alucinante

onde o olhar se afunda,

as gaivotas florescem,

e o mar respira o sopro das luas.

 

 

22
Out22

Amigos na doença

Joaquim Morais

 

 

  O meu pai, a quem o sorriso a palavra e o gesto amigo nascidos da presença do outro nunca faltaram, está doente. É a sua sombra, que numa cama de hospital o teima, tentando encontrar nesse lugar de circunstância, terreno onde lançar a semente da sua entranhada condição de ser marcadamente social.

  É comovente a inquietação do olhar em busca de outro que o acolha. Não está sozinho na sala de medicina interna que ocupa. Os quatro internados onde se inclui, são idosos, sendo que o mais próximo ainda fica longe do seu desgastado ouvido. Mesmo assim, e quando os olhares se ligam, atreve-se ao diálogo; As palavras desafiam a distância sem complementos de gesto nem sorrisos; apenas palavras: as que o digam e as que tragam o outro para dele saber. O afastamento e a doença condicionam o discurso e fazem-no telegráfico. Por entre as inúmeras hesitações do ouvido, o meu pai consegue dele a informação elementar: o nome, a idade, a terra onde nasceu, a ocupação profissional e a doença que o prende à cama.

  Juntá-lo-á à infindável lista de amigos que os noventa e cinco anos de vida lhe foram oferecendo, e que a memória conserva com orgulho.

24
Out21

Primeiro os idosos

Joaquim Morais

 

 

   Quando saíamos para revigorantes caminhadas nos passadiços da ria de Alvor, o caminho de regresso a casa levava-nos muitas vezes à mercearia da Sandra.

   A sua vista lembrava quase sempre uma necessidade de última hora, e a leitura das estantes ditar-nos-ia tudo o resto, que, por vezes, não era assim tão pouco.

   Para quem a memória das faltas se apagara, o volume de compras final era deveras surpreendente.

   Voltou a acontecer desta vez. Aliás, acontecia muitas vezes.

   O espaço era acanhado, o que obrigava por vezes a esperar lá fora.

   Na altura, a pressa não me afligia. Aguardei no exterior, e surgiu entretanto a oportunidade de conversa com inesperado interlocutor, pelo que, o tempo, feito de palavras, suavizou a demora, e fez da espera agradável prefácio.

   Após falas de poucos dedos, e quando me pareceu acertado, entrei, mas a estreiteza do espaço tornava difícil o giro entre prateleiras.

   Condicionado pelo abreviado recinto e rodeado de gente, virei a atenção para as coisas pretendidas, e para outras que as estantes iam acenando.

   Compras terminadas, e, tal como noutras vezes, a surpresa da quantidade que a ideia inicial não pensara.

   Provido do indispensável e do acessório, cheguei-me à fila da caixa e aguardei.

   À minha frente, de sacos na mão e deslocada da ordem, uma jovem conversava animada com alguém, descuidando o lugar. Já perto da caixa e não querendo adiantar-me, alertei-a dizendo que era a sua vez.

   Olhou-me, com ar feliz e sorridente, e disse-me:

 - Não, faz favor, primeiro os idosos!

  Agradeci, claro, e sorri também. Muitos mais riram à minha volta. Alguém, pela primeira vez me chamara idoso, o que, não sendo totalmente verdade, também não era inteiramente mentira. Ainda não carregava o peso da palavra, mas já percebera a mudança.

   Raios partam o tempo, o que nos faz.

   Lá fora, disse a um amigo de tempo igual e rimos, rimos da nova, “velha” condição.

   As marcas do tempo, as claras e subtis evidências do dia-a-dia e a transparência sombria do envelhecer, comprovadas pelo olhar risonho de alguém a quem os anos ainda não pesam.

 

 

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