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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

12
Fev21

Os trovadores da desventura

Joaquim Morais

 

 

 

   A aldeia era igual todos os dias. Nada acontecia para lá das rotinas que a sua circunstância determinara, e a vida acontecia redonda e previsível.

   Duma tranquilidade comovente, apenas as falas entrecortavam o silêncio que a ausência tecia.

Nas ruas de terra, reinavam as crianças que a brinca juntava, até aos brados das mães a lembrar o regresso.

   As mulheres mourejavam portas dentro, e garantiam asseio e sustento aos que com elas partilhavam a estreiteza de vida.

   Os homens tinham o mar, os seus horizontes, e os seus acasos.

   A monotonia era quebrada com inesperadas visitas, que traziam a diferença e despertavam o reparo.

   Era um encontro com outro que não o mesmo.

 

 



   Cantores viajantes, gente desconhecida cujos locais de origem nunca soube, e que, de tempos a tempos, traziam a informação cantada e musicada de ocorrências estranhas e comoventes, que a pacatez do cantinho onde vivia tornava ainda mais espantosas e inquietantes.

   Arautos da desgraça que lapidavam à sua maneira, dando-lhe um brilho literário que a requintava no trágico, e uma interpretação onde o propósito maior era exacerbar o cunho comovente da composição, de maneira a conseguir uma imagem que garantisse o sucesso jornalístico e económico da notícia.

   Chegados à aldeia, postavam-se numa encruzilhada fazendo chamariz com as harmonias dum acordeão que me atraía sobretudo pelas cintilações que produzia, e os acordes duma velha viola dedilhada por um homem cujo aspecto pressupunha a tragédia a divulgar.

   Reunido o povo, começava a cantoria pela voz esganiçada duma mulher de meia-idade, anafada, de cabelos ruivos presos por um carrapicho que lhe acentuava ainda mais a volumosa figura.

   Acompanhada pelos lamentos do acordeão decadente e pelo som magoado da viola, a mulher esforçava-se por cativar a assistência pondo algum empenho na interpretação, que não disfarçava a ausência de talento

   Mais preocupados com o conteúdo do que com a forma, as pessoas procuravam não perder o fio da história que ali estava a ser tecida, e ansiavam pelo desfecho que se adivinhava, e que de antemão se supunha dramático. Fora aliás quase sempre o infortúnio e a tragédia, a substância das mensagens que nos traziam estes estranhos viajantes. Porventura seria esse o género, que, aliado ao insólito, melhor prendia a atenção e o interesse da gente simples a quem a informação se dirigia.

   Não era raro ver-se a comoção tomar conta de algumas pessoas mais sensíveis. Por vezes, era até o pranto que rematava a ansiedade com que alguns dos ouvintes seguiam o desenrolar da narrativa.

   Ao fim e ao cabo, estava ali o testemunho de que o mundo era capaz de gerar a malvadez que pelos contornos anunciados, nunca a teríamos imaginado existir.

   Depois de feita a cobertura duma parte da aldeia, abalavam sempre rodeados de pequenada. Instalar-se-iam de seguida noutro local adequado, e reiniciariam todo o ritual.

   Importa dizer, que após cada uma das várias cantorias com que presenteavam a aldeia, eram postos à venda os folhetos, onde podiam ser    lidos os versos da história acabada de ca(o)ntar.

 

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