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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

20
Set22

Danças de fugidia luz

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

Danças de fugidia luz

 

 

A obscura mensagem dos sentidos,

O inquieto labor das emoções

Que voluteiam a sua imprecisão

Em danças de fugidia luz.

No turbilhão do círculo, sílabas fugazes

Ensaiam fortuitos acordes.

A música ilumina a palavra

Que nasce serena e clara,

E a bonança regressa nas asas do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Navegações

 

 

 

Sem flor nem luz

Navega-me o leme do vento

Nos mastros nus.

A estreiteza do rio apressa a vida

E a foz desenha-se sem brilho nem glória.

Esmaga-me o algodão do relógio

E o desejo naufraga

Na tormenta do tempo.

 

 

 

 

 

 

 

Sobressalto

 

 

 

 

Procuro o sobressalto das palavras.

A surpresa da sua transparência sombria.

Que sejam pontes, barcos,

Pétalas perenes nos canteiros do vento.

Que a sua música permita

A dança dos Espíritos.

E o seu perfume

Rescenda o ar do seu dizer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flor de Outono

 

 

Os ramos acenam serenas despedidas

E em cada árvore se acende

O esplendor da decadência.

Há uma ânsia de terra

Na palidez das folhas.

Um desejo cinzento.

Um voto,uma certeza.

Os rumores são ecos de silêncio

Que pulsam nos rituais do tempo.

A nudez é uma flor de Outono

Com raiz de vento, perfumada de terra

E matizada pelo olhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cristalina escuridão

 

 

 

Do chão erguem-se páginas de verde

Tingidas pela poesia dos cachos.

Versos de pétalas ausentes,

Ditadas pelo fogo, pela chuva e pela terra,

Que o canto das leveduras irá converter

Na cristalina escuridão dum poema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tecendo a vida

 

 

 

No tear do tempo que me assiste,

Entrelaço os fios da fantasia.

Lanço a trama, teço o dia-a-dia.

Dou-lhe relevo, dou-lhe forma, dou-lhe cor.

Dou-lhe o ar da tristeza ou da alegria.

Dou-lhe a feição

Do desengano ou do Amor.

E da tela, assim entretecida,

Vai nascendo o poema que é a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conquistas

 

 

 

 

 

O vento respira o lugar,

Insinua-se, habita-o,

Toma os perfumes secretos

E sopra no redor suas conquistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conjugações

 

 

A lua convida-me às palavras.

Que o ditame as revele

Conjugando o canto

Com a graça da visão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Desafios

 

 

 

Não resisto aos desafios

Da primavera.

Os versos abundam;

Que o olhar os perceba

E o canto os desperte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caminhos do sul

 

 

 

Soaram aos sentidos

As notas da fugidia chama.

Cânticos de cor na voz do cisne

E a lenta agonia dos contrastes.

No céu exemplar

A geometria das aves

Nos caminhos do sul.

 

 

 

 

 

 

Vazio

 

 

 

No palco dos desejos

Apenas claridade branca

Um vazio de luz

Que aguarda a noite do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

Traduções

 

 

 

Que as palavras traduzam

A veemência do desejo.

Que tenham a subtileza do ar

E a leveza do voo

 

 

 

 

 

 Um olhar

 

 

                                 Acendi na cal o olhar

                                 Que uma súbita gaivota preencheu.

O muro, estreito,

Margina a foz da existência.

Talvez o mar esteja por perto.

 

 

 

 

 

 

Fogachos na tormenta

 

 

 

 

Avulsas, dispersas,

Filhas de mórbida inquietação.

Não serão mais

Que fogachos na tormenta.

Barcos reféns de pesadas âncoras

A caturrar versos nas amarras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os sonhos do pousio

 

 

 

 

Fragmentos de poente

Que esvoaçam nas aragens

Em pálidas despedidas.

Pássaros decadentes que aspiram

Aos ninhos da terra

Onde a alquimia do tempo

Torna possível os sonhos do pousio.

 

 

 

 

 

 

As mãos da terra

 

 

 

 

O silêncio e a noite

Incendiaram os gritos do ar.

Vinham do sul

A tocar a harpa da chuva

E a exaltar a inquietação do abismo.

As mãos da terra

Modelaram o barro do clamor.

 

 

 

 

 

 

 

Nas amuras do vento

 

 

 

 

 

Ressuscitam os dorsos nas

Amuras do vento

Com a proa a desfolhar nas cavas

A flor do sal.

O leme e a quilha teimam a rosa

Enquanto as mãos caçam

A luz branca

Que acende o veleiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11
Jul22

AS SALGADEIRAS

Joaquim Morais

salgadeira.jpg

 

 

 

 

 

 

                                                                       

 

 

 

 

 

 

  A aldeia, como quase todas as do seu tempo, convidava ao mosquedo. Era o resultado de comportamentos descuidados, e da ausência de regras de higiene pública: a uma lixeira colectiva, a céu aberto, sem qualquer tratamento e não muito distante do casario, juntavam-se em muitos quintais pequenas compostagens, também ao ar livre, sem critérios de higiene na selecção e na preparação dos resíduos, que continham frequentemente restos de fácil putrefacção. Num cenário de evidente ausência de cuidados sanitários, era inevitável que as moscas reinassem, tornando-se difícil acabar com o seu consistente protagonismo.

 

 

  Pestilentas e atrevidas, eram um desafio permanente para os que recusavam ser alvo das suas intermináveis investidas, e porto para as escalas do seu voejar.

  Nalgumas casas, as portas que davam acesso aos quintais, alguns deles a funcionar como excelentes locais de incubação, estavam protegidas com fitas coloridas, que drapejavam ao gesto e ao vento, mas evitavam em certa medida, o acesso destes e doutros insectos voadores. O mesmo processo era utilizado nalguns estabelecimentos comerciais. Nas casas de habitação, era costume as pessoas enxotá-las várias vezes ao dia, agitando panos ou toalhas, que as encaminhavam de divisão em divisão, até à rua.

  Não existindo diligência publica estruturada para atalhar a sua disseminação, ficava ao critério daqueles a quem importava o desconforto, a improvisação de medidas que o minorasse.

 

 

  Vinham de todos os lados, atraídas pelo odor açucarado das uvas. Esvoaçavam o desejo de sugar, seguindo o rasto meloso deixado no caminho das adegas, e pairavam nos lagares, teimando nos homens, os braços e os rostos peganhentos do labor da pisada. Sem bracejar que as demovesse instalavam-se no pasto de doçura em que o lugar se convertera, e por lá haviam de ficar até à consumação do néctar que as enormes pipas hospedavam.

 

  As adegas eram, pelo seu adocicado e aromático ambiente, locais de excelência para a permanência destes insectos, e capazes de atraí-los de grandes distâncias. Por tudo isto, e pela aparente inevitabilidade da sua presença, houve quem nelas engendrasse maneira de a manter em níveis aceitáveis.

  A natureza da actividade por um lado, e a qualidade dos vinhos produzidos por outro, convidavam não só as moscas, mas também os inúmeros discípulos de Baco, que, no tempo devido, estavam sempre presentes para festivas e preciosas libações. Não sendo inconciliável a presença dos insectos com o desfrutar dos néctares, o exagero do seu assédio acabava por importunar.

 

  Os edifícios onde as tabernas estavam instaladas, eram de média dimensão, e alguns tinham na divisão do atendimento aos clientes, estupendos tectos com estruturas baseadas em robustas armações de asnaria, que a tradição acolhia e recomendava.

  Enquanto criança, quase todos os dias e a pedido do meu pai, deslocava-me às adegas que abundavam em Alvor nessa altura, algumas bem perto do lugar onde morava. Os mandados destinavam-se a trazer à mesa das refeições, o vinho que ele tanto apreciava. Nessas andanças de mandado e quando o atendimento demorava, o olhar vagueava no redor fixando as evidências que nem sempre iam ao encontro do entender dos anos. Bem à vista, suspensos do vigamento inferior das asnas, alguns conjuntos de ramos de um arbusto desconhecido para mim, pendiam criteriosamente amarrados e distanciados uns dos outros. Não entendi o propósito, nem a curiosidade se moveu para deslindá-lo.

   O esclarecimento chegou já em adulto, quando, em amena conversa se lembravam tempos de adegas buliçosas, animadas pelo prazer do vinho que o S. Martinho renovava em primaveras de circunstância, feitas da sua vibrante, aromática e cristalina condição.

 

   Eram salgadeiras o que as traves continham suspensas da sua imobilidade. Um arbusto comum nos sapais que circundavam a ria, e que alguém decidiu usar em desfavor do mosquedo.

   A noite interrompia nas adegas a azáfama das moscas. Era tempo de se recolherem e abrigarem, até que o dia rompesse e retomada fosse a sua maçadora existência. Eleitas dormitório, as salgadeiras eram cobertas por revoadas de moscas mal caía a noite, transformando a sua natureza vegetal em alado e disforme pendente.

  Encerrada a loja, seguia-se o tratamento ao mosqueiro que repousava do labor do dia: munido duma saca de serapilheira de boca larga, o taberneiro subia cuidadosamente e em silêncio por uma escada até junto à salgadeira inundada de moscas, e, com um movimento rápido e preciso, introduzia a salgadeira na saca, segurando e fechando o ramo pela base; acto contínuo, desatava o nó que prendia o ramo à trave e descia com ele bem preso e a saca bem cingida à sua volta. Feita a captura, restava eliminá-las. Nada mais simples, apesar da sua feição um tanto ou quanto bizarra: com a saca a envolver o ramo e a prendê-lo com firmeza, fustigava com ele o chão do quintal ou da rua, até que não houvesse rumor ou sinal de mosca viva.  

  A seguir era devolver a nudez ao ramo, varrer o mosquedo, e voltar a pendurar nas vigas das bonitas asnas, essa traiçoeira alcova.

 

  E assim se cumpria com êxito, uma estratégia de controlo sanitário pouco ortodoxa, mas de razoável eficácia.

 

 

10
Jan22

Os caminhos da água

Joaquim Morais

 

 

Brotam no silêncio austero

dos íngremes recantos da terra,

e em cada gota trazem a imensidão e o azul.

Soletram as pedras que dizem do seu norte,

e navegam rasteiras estrelas,

até que o mar os tome, e nos canteiros do sol

acendam os humores do vento.

Voltarão na suspensa leveza das alturas,

esperando que a harpa da chuva

execute a música do tempo.

14
Dez21

Talvez poesia

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

no princípio era o silêncio

e as palavras diziam

seu gesto e seu rumor

 

 

 

palavras novas

 

dos poetas chega a notícia

das palavras novas.

Palavras que ousam o lado invisível

da respiração do mundo,

e nos trazem o en(canto)

da sua perfumada estranheza.

 

 

 

O verso que nos cabe

 

quando às vezes decidimos a quietude,

e tudo repousa no olhar,

ouvimos a música.

Talvez traga com ela

o verso que nos cabe.

 

 

 

Vagaroso reparo

 

Sufoca-nos o brilho redundante,

enquanto na leira dos detalhes,

se perde a colheita do vagaroso reparo.

A safra dirá dos brandos sobressaltos

das coisas furtivas,

e das sóbrias palavras que suscitam.

 

 

 

A árvore e o vento

 

Já que a raiz não lhe consente,

pede ao vento

que respire seus perfumes na lonjura.

Que leve a sua primavera

até onde o ar permita,

e em cada sopro diga

de sua formosura.

 

 

 

Roseiras

 

Mostram ao mundo

a cor e o perfume,

e quando o gesto se atreve,

o desencanto da inesperada dor.

Será que a graça

cobra mágoas pelo amor.

 

 

 

Rotas infindáveis

 

O poema irá para onde o levar

a deriva das suas infindáveis rotas.

Conduzem-no os vislumbres do trajecto

e a aleatória rosa do seu leme.

 

 

11
Dez21

O velho pescador

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A casa situava-se ao rés da água. Tão ao rés que em alturas de marés vivas os poiais, propositadamente altos, quase submergiam ao assédio das águas. Era uma casa térrea, branca, aninhada na falésia que contemplava a ria. A cal inundava-a de luz e os poentes revelavam-lhe os segredos da cor.

   Por ela passavam as inumeráveis águas das incessantes marés no seu eterno vai vem.

   Na encosta da arriba que a escrevia, cresciam arbustos e flores silvestres que ajudavam a consolidar alguma frouxidão. No cimo reinavam as amendoeiras que as flores nevavam, e onde, nas esquinas do dia, os melros disputavam o futuro em cristalinos concertos.

   Nela vivia um velho pescador: habitava a solidão dos anos, e trazia na mão esquerda um velho crucifixo; chegava-o ao peito enquanto dormia, acreditando que tomava o lugar do coração; sentia-o pulsar entre os dedos, e repousava esquecido no sono, como se ainda perfumasse os jardins do tempo.

   Homem com olhos de mar e de céu, que transbordavam horizontes, e, entre os muros da terra, habitavam a ausência.

   Era uma figura esplêndida apesar da baixa estatura. No rosto de feições bem definidas e carinhosamente austero, a rudeza da vida esculpira sólidas marcas, curtidas e consolidadas pelo sol, pelo vento, e por esse mar de versáteis encantos a quem dedicara a sua vida.

   Da cabeça coberta por um velho boné a resguardar uma precoce calvície, pendiam a circundá-la alvas e finas madeixas que emolduravam a tez rosada, onde a fogueira do sol ardia continuamente. As suas mãos eram fortes e ásperas e nelas se desenhava claramente o traço de incalculáveis remadas. Os braços eram poderosos, e o tronco, robusto, quase sempre cingido por uma grossa camisola. O andar simiesco, que o mar obrigara, denunciava uma vida passada sobre as águas, e traduzia o hábito de compensar os contínuos desníveis que a ondulação produzia.

   O olhar era sereno e profundo, a perscrutar talvez os horizontes da memória, os das vivências ardentes, que não cabem na dimensão previsível, circular e enfadonha do espaço terreno.

   Tivera com o mar uma longa e frutuosa relação; hoje, ausente do seu lavrar, a solidão era maior; o mar continuava igual; não envelhecera como ele; permanecia talvez como no dia em que nascera: uma vida que era o próprio tempo na sua expressão mais profunda, salpicada de incontáveis efémeras gerações de humanidade. Os homens passavam e o mar ficava, indiferente ao desfile dos dias, exibindo a sucessão de recursos que o tornava venerado e temido, e usando o fascínio irresistível da sua serena ou desabrida majestade.

   Começara a soletrá-lo ainda muito novo: a decifrar os seus sinais mais elementares; a interpretar a sua linguagem de sal e de vento; a entender a sua mansidão e a sua revolta.

   O mar, esse lago imenso abrigado na concha da terra; essa várzea ondulante que desafiava horizontes que o olhar em vão teimava; essa escola de virtudes, geradora de nobres e sólidos princípios, e que fizera dele discípulo para a eternidade.

 

28
Nov21

Alfredo e o mar

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A revolução iria trazer coisas novas, dizia-se. No lugar, pouco dado a novos motivos de conversa, depressa as falas se ocuparam da notícia, e sobre ela  teceram as mais variadas considerações.

  Os jornais, a rádio e a televisão, desdobravam-se no esforço de informar, e a profusão, também feita de palavras nem sempre coincidentes com as de quem escutava, levava com frequência a alguma confusão.

  Os militares percorriam o país, tentando esclarecer toda a gente acerca da nova realidade política, e dos benefícios que ela poderia trazer à vida das pessoas.

  A informação passava de boca em boca, e, retocada pelo entendimento de cada um, depressa se transformava num conjunto arrevesado de palavras de impreciso sentido.

  A impaciência especulava, e o desejo era ser informado e esclarecido de viva voz, pelos que, em representação do movimento das forças armadas, para isso estavam mandatados.

 

  Entre os pescadores, onde a precariedade na protecção social após a vida activa era quase generalizada, vivia-se a esperança de mudança; também por isso, a expectativa da mensagem clara, olhos nos olhos, era evidente, e ansiosamente aguardada.

 

  Não obstante as limitações que o avanço dos anos naturalmente traziam a quem ao mar dedicara as suas vidas, alguns havia, que, mesmo com idade de puderem vir a colher os benefícios de eventuais pensões, desejavam em simultâneo, prolongar a vida activa.

  Para outros, o divórcio era pacífico e desejado, encerrando sem constrangimentos, um importante capítulo das suas vidas.

 O tempo e a duradoura ligação ao mar, foram deixando ao longo dos anos marcas de amores e desamores, que haviam de importar, na decisão final de cada um.

 

  Alfredo era um dos atormentados pela inquietação, e a quem uma eventual separação compulsiva desagradava.

  Ao mar a vida, e a entrega, feita de estranha afeição, sem idade, conduzida pelo olhar e pelo gesto, talhados para apenas nele serem por inteiro.

 

  Chegou por fim a aguardada comitiva, que trazia palavras novas, e se desejavam esclarecedoras; ouvia-se a música dos novos tempos; e os rostos sorriam a esperança de dias melhores.

 

  E nem os anos esmoreceram Alfredo, que, na plateia apinhada de gente, fez chegar o seu desassossego, aos que vieram para ouvir e dizer.

  Um jovem oficial do exército, escutou Alfredo com tranquila atenção; ouviu das suas incertezas, das suas expectativas, do seu desejo de prolongar o mar para lá do tempo, e respondeu-lhe:

 

  - Sr. Alfredo, pelo que me acabou de dizer, atrevo-me a concluir que a sua ligação ao mar é profunda, tal como o desejo de continuar essa dedicada relação. A sua pretensão não fere a legalidade, e não faria sentido impor-lhe esse amargo divórcio; Recomendo-lhe até, que enquanto a primavera lhe sorrir, faça-se ao mar e escreva nele as páginas que essa duradoura afeição lhe for ditando.

  Apesar do perigo e do abismo, talvez a Alfredo sorrisse o céu que o mar espelhava.

 

30
Out21

Alvor à distância da memória (1)

Joaquim Morais

 

    Ofereciam-se a terra e o mar, e a vida era feita

  da rude simplicidade do trabalho.

 

 

 

 

   Num lugar assediado pelo mar, presumível seria que a maioria dos homens traçasse nele os seus caminhos.

   Alguns havia, poucos, que no redor a terra tomara; uns por herança, e outros, eleitos, a quem ela sorrira e convidara, para que nela fossem: eram pequenos agricultores que cultivavam hortas de que a aldeia se valia, e colhiam do sequeiro a doçura dos frutos que o sol dourava.

  As mulheres dos que o compromisso à terra ligara, trabalhavam nela conjugando o esforço com a sua condição, prevalecendo nas tarefas, que, portas adentro o costume ditava.

  As outras, a quem o mar coubera por conjugal união, ajudavam a cuidar das artes de pesca, tratavam dos filhos, tinham a seu cargo domésticos afazeres, e algumas, ainda palmilhavam esforçados caminhos, para, em fumeiros e fábricas de conservas, acrescentarem ganhos que suavizassem a vida.

 

  Do que em terra e no mar a dureza do trabalho mostrava, o destaque ia para os que no mar se mostravam mais capazes.

Havia sempre quem dele tirasse maior proveito por melhor sabê-lo.

  A terra, previsível demais para realçar desempenhos, não se prestava a graduar os seus obreiros.

  As diferenças, provinham da excelência ou da vulgaridade das espécies que nela cresciam.

 

  Os dias na aldeia eram feitos de rotinas, e a novidade pouco ou nada se atrevia.

  O mar e a terra eram o suporte de vida, e o bem-estar decorria do adequado aproveitamento dos frutos do trabalho, tendo por certo, que o caprichoso decorrer do tempo nunca permitia certezas na sua obtenção.

  A consciência do risco de privação, levou a que não existissem hábitos nem práticas de desperdício.

 Quando no inverno se demoravam temporais, a ria espantava inquietações e temores, valendo a todos os que nela buscavam a mesa da sobrevivência.

  Para lá da generosidade, tudo o que crescia era de sabor reconhecido, com destaque para as ameijoas, com toda a justiça elogiadas, e desde sempre consideradas simbólica iguaria.

 

  Adequado à dimensão da aldeia havia também um pequeno comércio. Era importante para todos, e ajustava-se aos cenários que o tempo tecia. A incerteza dos ganhos obrigava por vezes ao prazo, ao coração, e ao fardo do rol, que, nalguns casos, podia levar a prolongada, e por vezes até, incobrável dívida.

 

 

  Em casa, não havia o conforto da água fácil do nosso tempo. Existia no seu lugar, a escassez imposta pelo diminuto volume do cântaro de barro, que a voz do aguadeiro lembrava sempre que passava.

  Tal como a água, a iluminação ainda estava longe do que temos hoje. A opção generalizada era a dos velhos candeeiros a petróleo, com torcidas que exigiam apuro no corte, para evitar tisnaduras que as imperfeições do talhe produziam na chaminé.  

  Eram um pôr do sol descolorido, e deixavam no ar o desagradável cheiro da sua combustão.

 

  Em certas alturas, e determinado por ocorrências e assuntos que o interesse comum recomendasse levar ao conhecimento público, um homem bradava de rua em rua, convidando à atenção e à escuta.

  A mensagem era feita de diversidade, e o vozeirão empenhava-se em fazer chegar o recado do mandador.

  Alertadas pelo pregão, as mulheres vinham à porta vestindo graciosos bibes, e enxugando as mãos a pingar tarefas de cozinha, em encardidos aventais.

  Esclareciam as falhas do ouvido, e avaliavam na proposta algum interesse ou benefício.

 Os anúncios, sugeriam na maior parte dos casos, produtos que vinham da terra ou do mar, habitualmente do agrado de todos, e que se ajustavam ao desejo e à carteira das famílias.

  Por vezes apregoava-se também a perda dum objecto de alguma valia, com a promessa de alvíssaras aos que o achado contemplasse.

 

  Vinham de fora e no tempo certo, os que a proviam de algumas coisas que o hábito adquiriu para acrescentar à vida na aldeia. Deslocavam-se em carroças, anunciavam ruidosamente a sua vinda, e tornaram-se presença familiar e alegremente aguardada.

  Traziam com eles a diferença de outros lugares.

 

 

09
Out21

O apelo da terra

Joaquim Morais

 

 

 

 

   Com o aproximar da época de caça, chegava também a todos os que por ela tinham inexplicável apego, uma estranha inquietação.

   Talvez os dias que antecedem o acontecer de qualquer coisa prometida e muito desejada pela criança, traduzam bem esse adulto desassossego.

   Todos os anos, sempre que a terra nos convocava para o reatar dessa ardente relação, a agitação nos colhia.

Não estando em causa elementares necessidades, nem a sobrevivência das origens, que outras insondáveis razões teriam levado o homem a prolongar no tempo esta primordial, e até certo ponto, dispensável e anacrónica atividade?

   Perdurará ainda em recôndito lugar da nossa humana arrumação, alguma coisa que a ruralidade desperta, e que, como um estranho chamamento, nos convida ao regresso?

   Somos claramente feitos de passado, faltando saber se a sua ingerência tenha ainda laivos de tão remota era.

   O acto venatório, é um exercício, que, para além do eventual e não tão importante assim, abate, reclama de nós apropriada e rigorosa concentração. Porventura esse estado de consciência pleno, conduzido pelos sentidos e pela intuição, nos permitisse voltar a sentir alguma inteireza e restaurar emoções, pensamentos, impulsos e vivências, há muito arredados da pessoa que somos.

   Tudo isso nos transformava, tudo isso nos devolvia.

   No que me diz respeito, e pelo que me foi dado perceber enquanto seu caloroso seguidor durante alguns anos, nada do que nos movia intencionava a malvadez que muitos querem fazer crer.

   As coisas eram assim mesmo, e fosse pelas razões referidas, ou por muitas outras que a controvérsia do tema produz com abundância, havia uma realidade que nos fazia ansiosamente agradados nessa altura.

   O início das jornadas de caça era um nervosismo pegado. Os tiques mais ou menos evidentes, e que contemplavam quase todos, diziam da excitação, e prolongavam-se até ao cansaço.

   A época de caça, feita da diversidade de ocorrências mais ou menos previsíveis, era também, e acima de tudo, divertido e são convívio, e, fora do palco, ilustrado de relatos onde muitas vezes se misturavam imaginação e realidade.

   Pelos insucessos, das circunstâncias viria a explicação.

   Pelos bons resultados, o relevo do exemplar desempenho apesar das circunstâncias.

  As histórias preenchiam a semana, e eram partilhadas entre grupos. As iniciais, raramente coincidiam com as versões derradeiras, pelos arranjos criativos dos variados interlocutores.

   Não sendo contos, eram neles transformados, e acrescentados de infindáveis pontos.

 

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