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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

25
Jul20

as árvores explicam o vento

Joaquim Morais

                                  

 

As árvores explicam o vento

 

 

 

 

Nada mais que sopro.

Subtileza fluida

Que respira o céu e a terra

E diz do tempo e da lonjura

Na sua voz de asa

Que as árvores explicam.

 

 

 

 

 

 

Íntimas celebrações

 

 

Há uma luz que derrama o céu

Pelas margens do olhar

E vai esculpindo o mundo

Com o cinzel da sua ofuscante claridade.

A festa dos sentidos

Prestes dá lugar à sublime liturgia

Das íntimas celebrações.

 

 

 

 

 

 

 

Um novo amanhecer

 

 

 

Agora que anoitece

É desmedida a ânsia de cantar.

Em cada verso

Ensaio a claridade,

Construo um espantalho de palavras

E invento um novo amanhecer.

 

 

 

 

 

Biografia telúrica

 

 

 

 

Os olhos ditam-me a pedra:

Súbita, informe e tosca.

Decido demorar-me nela,

Habitá-la sem pressas;

Fascina-me a sua nudez exacta,

A arte elementar dos seus perfis,

O enigma da sua biografia telúrica.

E assim, vou decifrando

As suas singulares esculturas,

Até à pétala que o tempo desfolhou.

 

 

 

Amanhecer na ria

 

 

 

O silêncio a exaltar cintilantes rumores

Por entre os despojos da noite.

Um embrião de luz

A descerrar as cortinas do dia.

A pincelar a cor. A tecer o vislumbre

E o espanto num dorso desnudado

Pela respiração do mar.

 

 

 

 

 

 

                            

A subtileza das aragens

 

 

 

Os olhos anunciam o fogo e o azul

Por entre a agitação vegetal

Que segreda a brisa.

A luz acende-se nos muros

E o orvalho regressa

À ágil subtileza das aragens

 

 

 

 

As palavras e o verso

 

 

Quero o céu e o mar

E o sol a escrever a poesia do sal.

Quero a alma do ar a açoitar-me,

E as éguas de espuma,

E a volúpia da chuva,

E a terra a inundar-me.

Quero colher do verde

A luz que o acende.

Quero as palavras e o verso

E o mar que as navegue.

 

    

Andorinhas

 

 

 

 

As andorinhas plantam a ria no beiral.

Trazem-na no bico

Suspensa da terra e dos beijos

Com que amanham

a leira branca do futuro.

 

 

                          

                                 Desejo preciso

 

 

 

Com cânticos de algas e de ventos

O oceano exalta o reencontro

Enquanto a musa inquieta dos sentidos

Sugere ansiosa pausa

E a terra celebra o orgulho da raíz.

É uma gota de universo,

Talvez um jardim,

Será decerto um poema,

um desejo preciso,

Uma janela clara e alucinante

Onde o olhar se afunda,

As gaivotas florescem

E o mar respira o sopro das luas.

 

 

 

 

 

 

Olhar a lua

 

 

O crescente da lua

Encheu o olhar da Rita.

Posso? Posso agarrar a lua?

Sim! Claro!

Ergueu os braços

Na direcção da luz e disse:

- Já está!

 

 

 

 

 

Memória de feto

 

 

A bonança dita versos

De sedosa harmonia

Que o silêncio depura.

Ancorado na imensidão do poema,

Flutuo a maciez das águas

Na frágil robustez

Dum útero de tábuas e de sal.

Envolto por âmnio elementar

Reacende-se em mim o lume dos princípios.

Cintilações de volúpia iluminam

Os recantos da memória.

Experimento o prazer original

Embalado por este poema de quietude.

 

 

 

 

O cais do poema

 

 

 

Ditá-las-ão as nuvens

Ou a aragem que as toca.

Talvez a chuva, um sorriso,

A chama duma rosa,

O fulgor das espigas.

Porventura a lâmpada dum muro,

A geografia dum rosto.

Soprá-las-à o ar

Até ao cais do poema

De onde se parte

Para qualquer viagem

 

 

 

 

O sol das laranjas

 

 

 

 

Na página verde onde brilha

O sol das laranjas,

As danças do vento recortam o azul

Enquanto um pássaro chilreia a inquietação

Por entre um poema de versos

Brancos a transbordar de abelhas.

O canto nasce do silêncio.

 

 

 

 

O linho das palavras

 

 

 

Resgatar o barro que a fundura cala;

Provar a flor da pedra

E o lume das cinzas.

Beber o mar em cada fonte

E tecer o mundo

Com o linho das palavras.

 

 

 

 

 

 

 

Uma ideia de mar

 

 

Um coração imenso

Numa concha de terra.

Um desfile de flores que exaltam o sol

Pelas alamedas do vento

E se incendeiam numa praia de beijos.

 

 

 

 

Diálogos

 

 

 

A silenciosa coreografia

Do instinto na vertigem dos voos

Que a terra respira;

No imóvel desafio de asas

À crispação do tempo;

No deslizar suave pelas encostas azuis

Dum céu ondulado de horizontes verdes.

Sobre o cais, sereno, um diálogo

De asas e de vento exalta a eternidade

Em cada instante.

 

 

 

 

 

 

Apenas mar

 

 

Apenas mar.

Apenas uma sílaba.

Poema sóbrio, exemplar,

Que escrevo na página do olhar,

E em cada dia,

Tão pequenino,

Ouso soletrar.

                                

 

                               

                                 A palavra exacta

 

 

 

Uma palavra que brilhe para além

Das suas prosaicas fronteiras;

Que ateie a fogueira dos espíritos 

E amanse os ventos que a governam.

Que a sua música desperte

A graça de quem ouve e o seu silêncio

A musa de quem lê.

Uma palavra nua e pobre;

Liberta do jugo da retórica;

Que seja semente e flor e fruto,

E apenas se cumpra.

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