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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

07
Ago21

Salva vidas "ALVOR"

Joaquim Morais

 

   Segundo a descrição constante dos documentos que o acompanham, o salva vidas “Alvor” terá sido construído entre 1932 e 1933, no instituto de socorros a náufragos de Pedrouços.

   Caracterizado como embarcação do tipo dinamarquês, é por isso natural, que a influência nórdica se tenha feito sentir nas suas linhas, e, ou, modo de construção.

   Barco a remos, concebido para uma tripulação de doze homens, constituída por dez remadores, sota-patrão e patrão.

   De beleza sóbria e traço discreto, mesmo assim não deixa de impressionar pela originalidade, e pelos pormenores revelados no detalhe da atenção.

   Aos que, de maneira directa ou indirecta souberam da epopeia que constituiu o seu desempenho, e da sua importância no contexto afectivo, social e cultural do lugar, este barco dirá com toda a emoção que a sua história encerra.

   A cada um dos que com ele viveram horas de desassossego e incerteza, dirão talvez em cada reencontro, as lágrimas da memória feliz.

   Entrou ao serviço da comunidade piscatória de Alvor em 1933, e foi abatido em 1983.

   Durante cinquenta anos, foi vigilante e responsável pela segurança de centenas de homens, a quem o mar muitas vezes surpreendia com alterações de humor que punham em risco as suas vidas, e a navegação segura das frágeis embarcações.

   Estrategicamente colocado na instável e perigosa barra de acesso à ria em lugar que assegurasse o auxilio às embarcações que iam chegando, fazia também com a sua presença, renascer o ânimo a todos os que no local viviam o aperto do mar revolto.

   Em terra, e em cada jornada que a intempérie lhe obrigava, a imagem da sua largada e da sua exemplar mareação, preenchia-nos alegremente o olhar, e era sinal de renovada esperança.

   O salva vidas traz na sua esteira um conjunto de homens que lhe deram vida.

Podem-se contar por largas dezenas, os remadores que durante cinco décadas foram chamados para as acções de salvaguarda da vida sempre que necessário.

   Com todos se fez a história do barco, e cada um viveu com ele episódios da sua própria história.

Eram pescadores, convocados pela aflição e pela tormenta, que o responsável reunia com a prontidão que a situação exigia.

  O seu dilatado número torna quase impossível identificá-los, e da sua participação fazer a devida referência nominativa.

   Desses, já muito poucos ainda estão entre nós.

   No entanto, apesar de também já não estarem entre nós, ainda vive nalguns, a memória dos patrões do salva vidas, cujo trabalho, responsabilidade e valia, foram contributo importante para o sucesso das missões.

   Do meu pai e dos seus noventa e três anos recheados das mais diversas lembranças, vieram os nomes desses homens que comandaram as inúmeras missões de vigilância e salvamento levadas a cabo pela histórica embarcação, aos quais presto aqui a minha homenagem, pela divulgação da sua identidade:

– Francisco Baptista

– Manuel Vicente

– José Jorge Vidal

– Manuel Lóló

   A todas as tripulações que levaram a esperança aos que a tiveram suspensa e ausente, pela angústia das delicadas situações vividas, esta terra deve o humilde tributo da gratidão.

  Aos mais jovens, que por vezes parecem viver numa espécie de deriva identitária, é importante que vá chegando a notícia dos que os antecederam, e do que eram feitas as suas experiências de vida.

   Se Alvor ainda mantém, apesar de algumas transformações, muito do seu património paisagístico e das suas edificações de referência que nos tocam a vista e o orgulho, saber do passado e das gentes que o preencheram com a riqueza das inúmeras actividades que desenvolveram, será um contributo interessante para nos ajudar a ser cidadãos, naturais deste lugar privilegiado.

 

 

 

 

 

                                       Atenta e solidária

 

 

 

 

Sem preâmbulos, nem avisos,

a várzea oceânica abriu-se

num temporal desfeito.

Em terra, os maus pensamentos

depressa afiam os aguilhões

da ansiedade e do desespero.

Prestes se aparelha no cais

o guardião da existência,

e doze homens enfrentam

o turbilhão do abismo

restaurando a esperança.

Na cordilheira movediça

em que as alfaias de Eolo

converteram a barra,

remam ao compasso da angústia.

Uma a uma, as embarcações

demandam a infernal passagem.

Rebentação e vento,

acompanham gritos e preces

numa sinfonia de desespero.

Atenta e solidária,

a sentinela flutuante balouça,

ao ritmo das convulsões elementares.

Na praia, alguém de negro vestido,

assiste alternando o olhar

entre os céus e o mar revolto.

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