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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

21
Jul20

Ria de sublimes afectos

Joaquim Morais

     Durante o tempo em que os nossos sentidos se ocupam com agitado interesse na pesquisa e no conhecimento do mundo que nos rodeia, a vida revela-se particularmente dominadora e absorvente, e quase todas as nossas acções se subordinam à fascinante soberania do instinto, singular e fiel aliado da aventura e da descoberta. Nessa altura, tal como hoje, tive o privilégio de viver em comunhão estreita com uma natureza onde o meio aquático predominava. Pelas janelas da casa onde nasci entrava o mar, que cedo passou também a fazer parte dos horizontes do menino que nela crescia. Dos caminhos da terra que aos poucos ia conhecendo, eram os que me levavam para perto da água os mais trilhados. Desde muito novo, o mar e a ria passaram a ocupar uma parte significativa dos meus pensamentos, e suscitaram o aparecimento de qualquer coisa para mim desconhecida até então, que tocava particularmente o território dos sentimentos e era duma originalidade deslumbrante. Foi aí que despertaram as primeiras emoções, e naturalmente se foi exercitando e apurando o desempenho dos sentidos. Ria de sublimes afectos que descobri e aprendi, e que no silêncio da sua linguagem simbólica me fez cúmplice dos seus mistérios. Testemunhei a excelência do seu acontecer, a magnífica versatilidade da sua fisionomia, a placidez dos seus remansos, o pulsar suave das suas marés. Serenamente fui construindo uma relação única que me tocava cada vez mais. Sem formalidades inúteis nem espaventosos protocolos, a natureza ia-me ditando os preceitos elementares duma relação original. Sem calculismos nem obscuros interesses, fui com ela estabelecendo um pacto de solidariedade, até que dela me irmanei. Uma fraternidade que enraíza num diálogo silencioso entre o coração e os seus elementos, que o tempo se encarregou de consolidar e de fortalecer.

   Uma terra com o oceano ao fundo e a ria a seus pés: um destino de mar; uma promessa de vida; um irresistível apelo à memória mais profunda das vivências comuns; o doce e indelével sortilégio duma ligação que a minha vida festeja em cada instante. Hoje, como ontem, o apego a este jardim de águas vivas é uma realidade que me excita. A sua visão é um bálsamo e estar no seu seio é ficar próximo duma dimensão que sinto extravasar a minha efémera humanidade.

   Que lugar é este que suscita tais sentimentos? Que tem ele de especial para desencadear esta serena inquietação?

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