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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

24
Out21

Primeiro os idosos

Joaquim Morais

 

 

   Quando saíamos para revigorantes caminhadas nos passadiços da ria de Alvor, o caminho de regresso a casa levava-nos muitas vezes à mercearia da Sandra.

   A sua vista lembrava quase sempre uma necessidade de última hora, e a leitura das estantes ditar-nos-ia tudo o resto, que, por vezes, não era assim tão pouco.

   Para quem a memória das faltas se apagara, o volume de compras final era deveras surpreendente.

   Voltou a acontecer desta vez. Aliás, acontecia muitas vezes.

   O espaço era acanhado, o que obrigava por vezes a esperar lá fora.

   Na altura, a pressa não me afligia. Aguardei no exterior, e surgiu entretanto a oportunidade de conversa com inesperado interlocutor, pelo que, o tempo, feito de palavras, suavizou a demora, e fez da espera agradável prefácio.

   Após falas de poucos dedos, e quando me pareceu acertado, entrei, mas a estreiteza do espaço tornava difícil o giro entre prateleiras.

   Condicionado pelo abreviado recinto e rodeado de gente, virei a atenção para as coisas pretendidas, e para outras que as estantes iam acenando.

   Compras terminadas, e, tal como noutras vezes, a surpresa da quantidade que a ideia inicial não pensara.

   Provido do indispensável e do acessório, cheguei-me à fila da caixa e aguardei.

   À minha frente, de sacos na mão e deslocada da ordem, uma jovem conversava animada com alguém, descuidando o lugar. Já perto da caixa e não querendo adiantar-me, alertei-a dizendo que era a sua vez.

   Olhou-me, com ar feliz e sorridente, e disse-me:

 - Não, faz favor, primeiro os idosos!

  Agradeci, claro, e sorri também. Muitos mais riram à minha volta. Alguém, pela primeira vez me chamara idoso, o que, não sendo totalmente verdade, também não era inteiramente mentira. Ainda não carregava o peso da palavra, mas já percebera a mudança.

   Raios partam o tempo, o que nos faz.

   Lá fora, disse a um amigo de tempo igual e rimos, rimos da nova, “velha” condição.

   As marcas do tempo, as claras e subtis evidências do dia-a-dia e a transparência sombria do envelhecer, comprovadas pelo olhar risonho de alguém a quem os anos ainda não pesam.

 

 

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