Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

04
Dez20

Os pescadores e o mar

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

 

   Havia um tio, pescador, que um dia da janela do seu barco me mostrou o mar. Mar que deslumbrou o menino, e que o jeito de olhar do homem, ao longo dos anos havia de o dizer em ingénuas alusões.

    E havia os meus avôs, também pescadores, e todos os outros, que o mar cortejara e a exígua dimensão do lugar irmanara.

Com todos eles, e por todos eles, nasceu uma história nova, um segredo que era preciso desvendar.

    Estive sempre muito perto de todos os que o mar tinha; aprendi-os, e ao mar; e ficou para sempre comigo um fascínio imenso por tudo o que significava ser pescador.

   E havia tanto, na vida de quem aceitara o repto da imensidão: o meu avô paterno tinha o saber dos aparelhos, - linhas de pesca com centenas de anzóis, que no mar se estendiam a perder de vista; na popa das traineiras por onde andou na pesca da sardinha em grande parte da sua vida, cabia ao meu avô materno o arrumo do corcho - conjunto de bóias de cortiça que sustinham a rede da arte do cerco.

   O meu tio, que me permitiu o mar e fez durante alguns anos as delícias das minhas férias grandes a bordo da traineira que governava, era mestre da arte do cerco, e foi de todos o que mais me marcou.

   Cada saída para o mar era uma roda de emoções que nunca esqueço. Dele veio o que ainda conservo, do conhecimento sobre a pesca da sardinha, e de toda a inesquecível experiência de vida a bordo.

   Cresci com o mar à vista, e a meu lado homens de quem recebi a medida possível do mérito das suas vivências.

   Em todos eles, para além do conhecimento da faina, existia um modo de ser que os terrenos ofícios não concedem.

   Pela dignidade e pela coragem, e por tudo o que a proximidade me ofereceu, tenho por todos os que no mar teceram as suas vidas, o apreço que a natureza da sua condição exige.

   O tempo e a recusa do corpo, vencido pelo cansaço e pela corrosão dos elementos, dirão do fim da relação, mas ela persistirá para além do seu termo.

   Ser pescador, é ter mar pela vida fora, mesmo quando já não o têm: alguns têm-no sobre a cómoda, na forma dum búzio que lhes trás recados e lágrimas; outros, recordam-no em inflamados relatos de apertos inúmeros, que fazem o apego brilhar ainda mais; todos o têm no rosto curtido pelo sal e pelo sol; no olhar distante que os largos horizontes obrigaram; nas mãos, onde se desenham intermináveis remadas e se escrevem cabos e linhas em pregas de tortura; alguns, ainda hesitam o andar e ajustam o passo como se a ondulação os tomasse; em todos, o mar navega nas palavras que a relação gerou.

   Eternamente rendidos ao enlevo do mar, conservam a chama dessa estranha afeição, para sempre acesa no seu entendimento.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub