Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

28
Ago21

O voo de Raimundo

Joaquim Morais

 

 

 

  Raimundo sempre se sentiu em harmoniosa ligação com o céu. A permanente empatia, a sua fixação pelas alturas e o propósito inabalável de navegá-las, acompanhava-o desde criança, e com o encantamento próprio das mágicas epopeias.

  Porventura ocultas teorias, das que nos situam em remotas e variadas existências fora da humana condição, pudessem vir a considerá-lo de entre os que do alto precederam.

  De braços abertos e peito ao vento, cabelos soltos, alinhados pela brisa que o correr acentuava, em vão batia as pretensas asas. Fazia-o, apesar de tudo, com a convicção que a persistência e o tempo haviam de levá-lo a elevados portos.

  Raimundo crescera sem esmorecimentos na vontade de voar.

  Se outros homens em tempos decidiram o mar, e nele pintaram o quadro das suas vidas, porque razão não haveria ele de cortejar subidos lugares, para neles habitar o desejo que a vida porfiava.

  Queria fazer do céu a sua janela do mundo. Queria, suspenso das alturas, perceber a terra, para lá da nivelada extensão do olhar, e dela partir sempre que a largueza do suspenso azul lhe convocasse.

  Elevar-se no espaço por entre nuvens, ou deslizar na etérea transparência teria de ser o seu destino.

  O pensamento, há muito afastado de rasteiros desígnios, ocupava-se agora de encontrar um meio, que tornasse possível a complicada tarefa de levar o olhar à dimensão que as alturas ofereciam.

  Também por isso, Raimundo achou que apenas ponderado engenho, poderia tornar possível feito tamanho.

 

  Em criança, a sua vida não tinha sido fácil. De origens humildes, as dificuldades acompanharam-no sem abrandamentos, e o calvário da sobrevivência foi sempre o caminho.

  A tudo isso juntou-se o exagero do pai no consumo de álcool.

  Valeu-lhe, que o vício nunca gerou a costumada violência, e, muito pelo contrário, quando acontecia apenas lhe provocava infindáveis e pacíficas horas de sono.

  Benigno desconcerto, que viria a ser de fundamental importância para o que se seguiria.

 

  O encontro, fortuito, deu-se na barbearia do meu pai: Lugar de passagem e de conversa, e da diversidade da notícia, que a habitual e considerável humana presença ia produzindo.

  Raimundo aguardava que o barbeiro António Morais, lhe tirasse de cima os anos com que as suas palavras rematavam em cada cliente, a conclusão da obra.

  O corte da barba, e, ou, cabelo, provocavam contentamento recíproco, e o novo ar era sempre, e de viva voz, sublinhado pelo mestre.

  Passei, como noutras vezes, para no suplemento infantil do jornal diário treinar a leitura que a primeira classe iniciara.

  Não me lembro de já o ter visto antes.

  Olhou-me, perguntou se gostava de ouvir histórias e convidou-me a ouvir a sua.

 

  Fascinou-me sempre ouvi-las. Primeiro, contadas, de viva voz, por quem se dispusesse a fazê-lo. Aí, contou e pontuou o meu avô materno, figura nem sempre simpática, mas que o enredo transformava em empenhado e afectuoso narrador.

  Depois, e quando me brindou o saber dos sinais que tecem as palavras, decifrando os quadros, onde, inscritos, soletravam a sua comovente magia.

 

  Disse-me Raimundo o que já sabemos da sua determinação em voar. Direi agora o que as suas palavras desvendaram do que ainda não conhecemos.

 

  Raimundo vivia no campo e tinha o saber da terra. Cresceu rodeado dos seus incontáveis segredos, e fez da sua aprendizagem uma causa, para ajudar a adiar o esquecimento aos que, em permanência, se alheiam da sua relevância.

  Desvendados que foram os segredos da terra e das criaturas do seu reino,era no céu que se abria e se oferecia, que queria muito escrever uma página diferente.

 

  Pelo lugar onde vivia, passavam ao fim do dia enormes bandos de gralhas que cobriam o céu, e se dirigiam para os rochedos do litoral, onde pernoitavam nos inúmeros fojos que entre penhascos abundavam.

  Lembro-me delas em criança, e de, com outras crianças, associar a sua passagem à ideia de matrimoniais festejos, como se de humanas criaturas se tratasse.

  Acesa pela presença das gralhas nas falésias, aportou à memória  a frequente embriaguez do pai, e o remate feito de anestesiantes e prolongadas sonecas.

  O pensamento fervilha sempre que presente está a intenção de mudar qualquer coisa no rumo das nossas vidas. Laborava o de Raimundo como nenhum outro, que há muito procurava alternativas à rasteira forma de passar os dias.

  Homem de prático saber, decidiu de pronto ensaiar o que lhe foram ditando as especulativas reflexões sobre os efeitos anestesiantes do álcool.

  Aguardou pelo fim do dia, e, munido de pinga que bastasse, pôs-se a caminho das falésias onde pernoitavam as gralhas do plano.

  Havia um poço, enorme, que a preia mar banhava nas areias do fundo, e os temporais de inverno galgavam, paredes acima, espirrando bátegas de esvoaçante babugem até à superfície.

  Raimundo assinalara-o pejado das aves eleitas, que se abrigavam em pequenos vãos, irregulares, talhados pelos elementos nas paredes interiores. Em volta do poço, havia inúmeros afloramentos rochosos, desnivelados e preenchidos de pequenos sulcos e fendas, que no inverno retinham as águas da chuva, e funcionavam como bebedouros para os animais que a terra acolhia.

  Pequenas nesgas de terra intervalavam a rocha compacta e permitiam carrascos e aroeiras que as felosas saltitavam.

  A escuridão já tomara conta do lugar, e Raimundo já preenchera fendas e sulcos com a esperançosa vinhaça.

  Regressou a casa, e a noite, longa e vagarosa como poucas, trouxe-lhe inevitavelmente, o desassossego da insónia.

  Levantou-se muito antes que do sol assomasse afogueado preâmbulo. Cirandou até ao razoável calcular do tempo de espera, e fez-se ao caminho, com o sol desperto, e a interpretar exemplarmente o seu papel no palco do verão.

  Equipado com as cordas que o estratagema recomendara, depressa chegou ao local.

  A surpresa do quadro deixou-lhe sem palavras: dezenas de gralhas espalhadas pelo chão, mais ou menos adormecidas, jaziam prostradas em comovente e forçado abandono.

  Passada que foi a impressão primeira, Raimundo começou de pronto a urdir a arrumação das cordas que o iriam unir às adormecidas aves. Com o cuidado e a atenção que a situação exigia, concluiu o trabalho, e aguardou tolhido pela emoção, que tudo acontecesse.

 

  Raimundo quis contar-me do voo. As palavras que sabia, eram as que a terra lhe ensinara para traduzir o que à terra dizia respeito.

  Por isso, Raimundo escolheu o silêncio, e o silêncio ditou-lhe um poema feito de palavras por dizer.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub