Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

19
Fev21

O vazio dos excessos

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

 

   Com olhos de terra e de mar a lhe dizerem do mundo, fez da liberdade a aprendizagem dos lugares que o sol inundava, e a chuva e o vento cantavam. Lugares onde os elementos forjam a harmonia, a vida pulsa pujante e autêntica, e ao homem assomam antigas emoções que a ausência privara e o tempo esquecera.

   Plantou árvores e fez sementeiras de entusiasmo e de esperança; aprendeu os pássaros, o seu canto e os seus ciclos: os que nos habitam e os que do longe trazem a esperança da vida por longínquas e precisas rotas, que a dúvida assalta pela grandeza e pelo rigor; soube de outros animais e do seus hábitos; assistiu ao desfile das estações e ao desempenho dos seus intérpretes; o deslumbre da água e o fascínio da imensidão, convidaram-lhe ao mar e ao silêncio.

   Esquecidos do que somos, vivemos alheados de singelos argumentos, que delicadamente nos sopram a atenção e o desejo.

  Cientes do mérito de presumidas convicções, caminhámos por opostos caminhos, que acrescentam distância, mas que não nos impedem o regresso.

   A terra e o mar olham-nos com esperança renovada de todos os lugares do mundo.

   Ficamos mais longe mas não ficamos mais felizes.

   Sabemos que é possível, e que os ganhos não se podem traduzir apenas por riquezas acumuladas, sendo que, a maior delas, é a que se traduz pelo bem estar genuíno, que reabilite a adulterada condição que nos enferma.

   Os avanços tecnológicos, e tudo o que o conhecimento tem posto à nossa disposição ao longo do tempo, trazem-nos bem estar, e ao mesmo tempo a inquietação dos limites que amedrontam a razão.

   A inteligência artificial, ameaça-nos com a possibilidade de banalização e de manipulação do seu criador, ausentes que estão dos seus desígnios, valores que fundamentam a nossa versão humanitária.

   Forte candidato a refém das suas criações, ao homem que o livre arbítrio contemplou, restará exercê-lo com a sensatez que, apesar de tudo, continua a assistir-lhe.

   Sê-lo-emos quando nos tomarem a quietude e o espanto, e nos caminhos da rosa se ouvir a música do mundo.

   Em cada um de nós há um desejo que não morre; uma semente que aguarda a hora da terra que as origens conservam.

   Com coisas simples, preencheremos o vazio dos excessos.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub