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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

05
Set21

O outro tempo da pesca da sardinha

Joaquim Morais

 

 

 

 

   De cristal o mar e cintilantes as formas que o animam. Despontam na flor da água, ondulando a timidez. Navegam os beijos do vento, até que o tempo diga se o porvir mantém gentil o sopro, ou se é feito de gene capaz de embravecer.

   Sem pétalas de sal à vista, parecem mais talhadas por delicado cinzel, de presumível pertença a amistosa viração.

Muito ao largo, cercada do azul que o sol acende, e sem que à vista conceda a terra mostra alguma, há uma traineira que ao mar lançou a sua rede.

   O mar é fundo e não apoquentam as incertezas da pedra; por isso, a retenida corre vagarosa nos tambores do guincho; há-de trazer à borda por bombordo, as argolas que fecham a rede, barrando a fuga pela aberta, e encerrando do lance a parte primeira.

   Desponta o sol e descobrem-se as cabeças em respeitosa saudação.

   Faz-se tempo de alar a rede; a prendem as mãos e se ensaia a melopeia que a adoça.

Imensa, negra de azeviche, repassada de breu e voejada de estridentes gaivotas,estende-se como um leque ao lado da embarcação.

  O canto e os braços em esforçada sintonia, e a rede, medrando a bordo, pesada e vagarosa, preenchendo a ausência semeada no mar da esperança.

   Na popa desenham-se as voltas do corcho, que cresce com a rede em criteriosa arrumação.

  A cantilena confronta a canseira; desafia-a na monocórdica harmonia que alguém entoa; depois, a uma só voz, a solidária resposta da companha às pretensões do desalento.

  Prossegue a faina melodiosa e dura.

  Exige-a o mar, tomado nas entranhas. Por ora, apenas esforçado labor, que reina a bonança e o tempo sorri.

  Vão os olhos percorrendo a rede que se apouca. Buscam nos sinais vislumbres de pão.

  No convés que corre por bombordo da popa às argolas, cresceu o corcho e a rede, e no barco a graça da inteireza.

  Na chata julga-se o lance; mede-se o sucesso ou o fracasso; as razões se de revés se trata, que a sorte explicações dispensa.

  Afloram cardumes que percorrem a rede que o canto aligeirou e os braços porfiaram.

  Do cerco já muito abreviado, irrompe um turbilhão de prata vibrante, que ilumina o olhar.

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