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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

08
Ago20

Coisas da terra e do mar

Joaquim Morais

 

 

 

 

Convite

 

Os voos da memória rasam castelos de água

e o desejo acende-se numa fogueira de mar e de vento.

O apelo dum corpo eternamente virgem

que se entrega à voragem do olhar

e ao doce turbilhão do espírito.

 

 

 

 

 

Forma de vida

 

A minha vida tem a medida dos meus sonhos.

De todos os sonhos.

Dos que preenchem o espartano reservatório

das solicitações mundanas,

mas sobretudo dos que não cabem

no percurso circular do meu dia a dia.

Renasço na claridade dum desafio

que pulsa ansiosas realidades,

e edifico-me a decifrar os ecos

desse cintilante latejar.

 

 

 

 

Sinfonia marginal

 

Um canto branco

nascido de mágico negrume

sublima-se nas margens do dia.

Eleva-se o sol do levantino cesto

à música da sombria flauta

silabando a luz na página do dia

e à voz clara do obscuro intérprete

a tinge de colorida ausência.

 

 

 

 

Palavras

 

Geradas no silêncio dum inquieto jardim.

Obscuramente brilhantes.

Passeiam-se no palco vazio e branco

onde recitam as imagens que o desejo destila.

 

 

 

 

 

Sintaxe de abelhas

 

Fachos de orvalho

que incendeiam as sílabas

e descerram cortinas de aurora

na bruma do verbo.

Palavras solares que esmagam doutrinas

e florescem em jardins de água

solidárias e inquietas.

Cheirando a espanto e a jasmim.

Cúmplices de frases que governam o vento

e em cada parágrafo

sopram o riso das manhãs.

Discurso de pedra

brunido pelo cinzel das águas,

onde uma sintaxe de abelhas

insinua a Primavera.

 

 

 

 

 

Sinais

 

Em cada árvore floresce um trono

de cores e de perfume

onde as abelhas cirandam a sua condição

e os pássaros prefaciam um capítulo da vida.

A terra decide o verde, o céu decide a luz,

as nuvens encanecem no regresso ao mar

e o sol aprende a sombra nos troncos que se vestem.

 

 

 

 

 

 

O reinado da luz

 

 

Passeia-se a flor do sol por entre

um jardim de nuvens claras que o vento respira.

Um lânguido cortejo de claridade e sombras

desperta o embrião da terra

sedento de fogo e de azul.

Noivam-se os pássaros nas esquinas do dia

enquanto a levedura cósmica

fermenta no império da luz

e a noite brilha vassala, súbita e deslumbrante.

Os sons do cinzento diluem-se

no prefácio da cor e a festa tomou

as rédeas do tempo

 

 

 

 

 

 

Catarse

 

Todos os dias contemplo

o pequeno altar oceânico

que se oferece à terra onde vivo.

Às vezes entro nele, percorro-o

à voz do vento, ou apenas repouso

no seu seio de silêncio e de quietude.

Partilho da sua mágica religiosidade,

da sua catártica liturgia, e, sobre

a toalha de água

tingida de vento ou calmaria,

o milagre acontece, sempre.

 

 

 

 

 

 

Desejos

 

A brisa acaricia a vela ansiosa,

num oceano esquecido pelo tempo

a entoar melodias de silêncio.

Berço de mercúrio onde a viração escreve

vacilantes pregas, preâmbulos dum desejo

que fermenta no ânimo juvenil da

serôdia marinhagem, e corteja as ancas

dum barco a suspirar pela vertigem da dança.

 

 

 

 

 

 

Notícias do mar

 

Versos de água.

Cânticos de mar perfumados de sal,

que a noite celebra em palcos de silêncio,

e a terra escuta na serena

imobilidade da sua condição.

 

 

 

 

 

 

Acto de Inverno

 

Enquanto o vento sopra árias

de Inverno ardente,

severas nuvens descerram

esplêndidas cortinas de cristal

que trespassam a terra e a fecundam

na sua eterna castidade.

 

 

 

 

 

Despojos

 

Vêm de sul a cavalgar o vento.

Leves e estéreis despojos

que embaraçam o sol

e desafiam o cinzel do olhar.

Habitam a intimidade do ar.

Respiram as aragens luminosas,

a fadiga e o prólogo das tempestades,

e decifram os mistérios do tempo.

 

 

 

 

Por fim o mar

 

A proa trespassa a flor da água

num flácido galope

e a quilha penetra-a

voluptuosamente obstinada.

O voo do desejo é silencioso e raso.

Ancorado na solidão fraterna do oceano

vou decifrando versos de rumores brancos

sob uma chuva de pétalas de cristal macio.

Os brandais cantam o vento

o silêncio revela a respiração da água

e o sol festeja o horizonte.

Por fim o mar.

 

 

 

 

Sul

 

O sul é uma pedra clara

incendiada pelo sol

e a ausência floresce

no vazio exacto do azul.

 

 

 

 

Entardecia quando dei por mim

 

O dia já vai longo.

Há um cisne a cantar na laranja do poente.

Solidária a tarde concedeu-me a lâmpada.

Que a festa do ocaso me permita a cor.

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