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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

22
Ago20

Testemunhos

Joaquim Morais

 

 

 

 

   Enquanto jovem, testemunhei a passagem pela aldeia onde nasci e cresci, de inúmeras figuras, algumas delas muito importantes no contexto social e económico que então se vivia.

   Um lugar de gente humilde, com escassos recursos que interessava preservar e fazer durar até ao máximo possível. É aqui, nesta ajuda pelo prolongar da vida de utensílios de utilização corrente, que tem lugar a figura que hoje venho lembrar.

 

 

 

 

 

 

 

                                                                  



                                              LATOEIRO INTINERANTE





O som produzido pelo martelo na bengala de ferro, retinia por toda a aldeia, despertando nas gentes a lembrança dos utensílios domésticos a necessitar de reparação. Guardados os cacos dum alguidar que se quebrara, dum velho e amarrotado tacho de alumínio que se rompera, ou um guarda chuva que uma rajada de vento deixara com algumas varetas partidas, chegara a altura de proceder à sua reparação.

Eram tempo difíceis, e a cada um pouco mais restava que a sobrevivência, assegurada também por um aproveitamento total dos recursos, que, dada a escassez, eram geridos até aos limites. A era do plástico, do fabrico em série, do supérfluo e do desperdício ainda vinha longe.

Trajava um casaco ruçado pelo uso, onde se notavam claramente, focos duma sujidade que os anos haviam abrilhantado. Entrava na aldeia trazendo pela mão uma velha pasteleira. Sobre o suporte da roda traseira, uma caixa metálica onde acondicionava os materiais e as ferramentas a usar nos consertos. Na mão trazia uma bengala de ferro e um martelo, que percutidos anunciavam a sua presença. Estrategicamente colocado, brandia o martelo numa cadência rápida e uniforme. Alertados os interessados, assentava arraiais em plena rua e depressa se via rodeado de velharias, algumas delas já com sinais de outras reparações.

A pequenada rodeava-o e seguia atentamente todas as fases do conserto, maravilhando-se, sempre que das mãos do artífice saía pronta a reutilizar, uma peça cuja degradação não faria supor tal restauro. Eram várias as intervenções que este homem fazia: desde a substituição duma vareta partida num chapéu-de-chuva, até à colocação dum fundo completo num tacho ou numa panela, passando pelos remendos simples em vasilhas de alumínio, ou na colocação de gatos e colagem de utensílios de barro ou porcelana quebrados.

Fascinava-me sobremaneira, observar a reparação dum utensílio de barro quebrado, sempre que havia a necessidade de utilizar gatos. Importa dizer que este termo, designava umas peças metálicas que prendiam as partes quebradas da louça, depois de fixadas através dum processo que a seguir relatarei. A colocação dos gatos era precedida duma operação de brocagem das peças a unir. Para o efeito era utilizado um aparelho artesanal, obsoleto visto a esta distância, mas extremamente eficiente, e cujo funcionamento me deixava maravilhado. Era um artefacto constituído por um eixo vertical onde numa das pontas era colocada a broca. Perpendicular a este eixo, havia uma peça de madeira com um orifício a meio onde o referido eixo entrava. Esta peça de madeira estava presa pelos seus extremos à outra ponta do eixo vertical, por uma corda que se enrolava no referido eixo. Enrolada a corda no eixo, obrigava a peça transversal a subir. O movimento de rotação do eixo e o accionar da broca, conseguia-se pressionando a peça transversal para baixo. Simples e eficaz.

Sempre que este homem nos visitava, quebrava-se um pouco a vivência monótona e rotineira da aldeia, e havia lugar, principalmente entre os mais novos, para um alvoroço inusitado, uma curiosidade festiva e um espanto permanente. Peça importante no contexto económico das populações privadas do acesso aos bens materiais por evidente pobreza, este homem foi também uma peça da engrenagem cultural do seu tempo, que me apraz referir e registar.







 

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