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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

14
Dez21

Talvez poesia

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

no princípio era o silêncio

e as palavras diziam

seu gesto e seu rumor

 

 

 

palavras novas

 

dos poetas chega a notícia

das palavras novas.

Palavras que ousam o lado invisível

da respiração do mundo,

e nos trazem o en(canto)

da sua perfumada estranheza.

 

 

 

O verso que nos cabe

 

quando às vezes decidimos a quietude,

e tudo repousa no olhar,

ouvimos a música.

Talvez traga com ela

o verso que nos cabe.

 

 

 

Vagaroso reparo

 

Sufoca-nos o brilho redundante,

enquanto na leira dos detalhes,

se perde a colheita do vagaroso reparo.

A safra dirá dos brandos sobressaltos

das coisas furtivas,

e das sóbrias palavras que suscitam.

 

 

 

A árvore e o vento

 

Já que a raiz não lhe consente,

pede ao vento

que respire seus perfumes na lonjura.

Que leve a sua primavera

até onde o ar permita,

e em cada sopro diga

de sua formosura.

 

 

 

Roseiras

 

Mostram ao mundo

a cor e o perfume,

e quando o gesto se atreve,

o desencanto da inesperada dor.

Será que a graça

cobra mágoas pelo amor.

 

 

 

Rotas infindáveis

 

O poema irá para onde o levar

a deriva das suas infindáveis rotas.

Conduzem-no os vislumbres do trajecto

e a aleatória rosa do seu leme.

 

 

11
Dez21

O velho pescador

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A casa situava-se ao rés da água. Tão ao rés que em alturas de marés vivas os poiais, propositadamente altos, quase submergiam ao assédio das águas. Era uma casa térrea, branca, aninhada na falésia que contemplava a ria. A cal inundava-a de luz e os poentes revelavam-lhe os segredos da cor.

   Por ela passavam as inumeráveis águas das incessantes marés no seu eterno vai vem.

   Na encosta da arriba que a escrevia, cresciam arbustos e flores silvestres que ajudavam a consolidar alguma frouxidão. No cimo reinavam as amendoeiras que as flores nevavam, e onde, nas esquinas do dia, os melros disputavam o futuro em cristalinos concertos.

   Nela vivia um velho pescador: habitava a solidão dos anos, e trazia na mão esquerda um velho crucifixo; chegava-o ao peito enquanto dormia, acreditando que tomava o lugar do coração; sentia-o pulsar entre os dedos, e repousava esquecido no sono, como se ainda perfumasse os jardins do tempo.

   Homem com olhos de mar e de céu, que transbordavam horizontes, e, entre os muros da terra, habitavam a ausência.

   Era uma figura esplêndida apesar da baixa estatura. No rosto de feições bem definidas e carinhosamente austero, a rudeza da vida esculpira sólidas marcas, curtidas e consolidadas pelo sol, pelo vento, e por esse mar de versáteis encantos a quem dedicara a sua vida.

   Da cabeça coberta por um velho boné a resguardar uma precoce calvície, pendiam a circundá-la alvas e finas madeixas que emolduravam a tez rosada, onde a fogueira do sol ardia continuamente. As suas mãos eram fortes e ásperas e nelas se desenhava claramente o traço de incalculáveis remadas. Os braços eram poderosos, e o tronco, robusto, quase sempre cingido por uma grossa camisola. O andar simiesco, que o mar obrigara, denunciava uma vida passada sobre as águas, e traduzia o hábito de compensar os contínuos desníveis que a ondulação produzia.

   O olhar era sereno e profundo, a perscrutar talvez os horizontes da memória, os das vivências ardentes, que não cabem na dimensão previsível, circular e enfadonha do espaço terreno.

   Tivera com o mar uma longa e frutuosa relação; hoje, ausente do seu lavrar, a solidão era maior; o mar continuava igual; não envelhecera como ele; permanecia talvez como no dia em que nascera: uma vida que era o próprio tempo na sua expressão mais profunda, salpicada de incontáveis efémeras gerações de humanidade. Os homens passavam e o mar ficava, indiferente ao desfile dos dias, exibindo a sucessão de recursos que o tornava venerado e temido, e usando o fascínio irresistível da sua serena ou desabrida majestade.

   Começara a soletrá-lo ainda muito novo: a decifrar os seus sinais mais elementares; a interpretar a sua linguagem de sal e de vento; a entender a sua mansidão e a sua revolta.

   O mar, esse lago imenso abrigado na concha da terra; essa várzea ondulante que desafiava horizontes que o olhar em vão teimava; essa escola de virtudes, geradora de nobres e sólidos princípios, e que fizera dele discípulo para a eternidade.

 

28
Nov21

Alfredo e o mar

Joaquim Morais

 

 

 

 

  A revolução iria trazer coisas novas, dizia-se. No lugar, pouco dado a novos motivos de conversa, depressa as falas se ocuparam da notícia, e sobre ela  teceram as mais variadas considerações.

  Os jornais, a rádio e a televisão, desdobravam-se no esforço de informar, e a profusão, também feita de palavras nem sempre coincidentes com as de quem escutava, levava com frequência a alguma confusão.

  Os militares percorriam o país, tentando esclarecer toda a gente acerca da nova realidade política, e dos benefícios que ela poderia trazer à vida das pessoas.

  A informação passava de boca em boca, e, retocada pelo entendimento de cada um, depressa se transformava num conjunto arrevesado de palavras de impreciso sentido.

  A impaciência especulava, e o desejo era ser informado e esclarecido de viva voz, pelos que, em representação do movimento das forças armadas, para isso estavam mandatados.

 

  Entre os pescadores, onde a precariedade na protecção social após a vida activa era quase generalizada, vivia-se a esperança de mudança; também por isso, a expectativa da mensagem clara, olhos nos olhos, era evidente, e ansiosamente aguardada.

 

  Não obstante as limitações que o avanço dos anos naturalmente traziam a quem ao mar dedicara as suas vidas, alguns havia, que, mesmo com idade de puderem vir a colher os benefícios de eventuais pensões, desejavam em simultâneo, prolongar a vida activa.

  Para outros, o divórcio era pacífico e desejado, encerrando sem constrangimentos, um importante capítulo das suas vidas.

 O tempo e a duradoura ligação ao mar, foram deixando ao longo dos anos marcas de amores e desamores, que haviam de importar, na decisão final de cada um.

 

  Alfredo era um dos atormentados pela inquietação, e a quem uma eventual separação compulsiva desagradava.

  Ao mar a vida, e a entrega, feita de estranha afeição, sem idade, conduzida pelo olhar e pelo gesto, talhados para apenas nele serem por inteiro.

 

  Chegou por fim a aguardada comitiva, que trazia palavras novas, e se desejavam esclarecedoras; ouvia-se a música dos novos tempos; e os rostos sorriam a esperança de dias melhores.

 

  E nem os anos esmoreceram Alfredo, que, na plateia apinhada de gente, fez chegar o seu desassossego, aos que vieram para ouvir e dizer.

  Um jovem oficial do exército, escutou Alfredo com tranquila atenção; ouviu das suas incertezas, das suas expectativas, do seu desejo de prolongar o mar para lá do tempo, e respondeu-lhe:

 

  - Sr. Alfredo, pelo que me acabou de dizer, atrevo-me a concluir que a sua ligação ao mar é profunda, tal como o desejo de continuar essa dedicada relação. A sua pretensão não fere a legalidade, e não faria sentido impor-lhe esse amargo divórcio; Recomendo-lhe até, que enquanto a primavera lhe sorrir, faça-se ao mar e escreva nele as páginas que essa duradoura afeição lhe for ditando.

  Apesar do perigo e do abismo, talvez a Alfredo sorrisse o céu que o mar espelhava.

 

30
Out21

Alvor à distância da memória (1)

Joaquim Morais

 

    Ofereciam-se a terra e o mar, e a vida era feita

  da rude simplicidade do trabalho.

 

 

 

 

   Num lugar assediado pelo mar, presumível seria que a maioria dos homens traçasse nele os seus caminhos.

   Alguns havia, poucos, que no redor a terra tomara; uns por herança, e outros, eleitos, a quem ela sorrira e convidara, para que nela fossem: eram pequenos agricultores que cultivavam hortas de que a aldeia se valia, e colhiam do sequeiro a doçura dos frutos que o sol dourava.

  As mulheres dos que o compromisso à terra ligara, trabalhavam nela conjugando o esforço com a sua condição, prevalecendo nas tarefas, que, portas adentro o costume ditava.

  As outras, a quem o mar coubera por conjugal união, ajudavam a cuidar das artes de pesca, tratavam dos filhos, tinham a seu cargo domésticos afazeres, e algumas, ainda palmilhavam esforçados caminhos, para, em fumeiros e fábricas de conservas, acrescentarem ganhos que suavizassem a vida.

 

  Do que em terra e no mar a dureza do trabalho mostrava, o destaque ia para os que no mar se mostravam mais capazes.

Havia sempre quem dele tirasse maior proveito por melhor sabê-lo.

  A terra, previsível demais para realçar desempenhos, não se prestava a graduar os seus obreiros.

  As diferenças, provinham da excelência ou da vulgaridade das espécies que nela cresciam.

 

  Os dias na aldeia eram feitos de rotinas, e a novidade pouco ou nada se atrevia.

  O mar e a terra eram o suporte de vida, e o bem-estar decorria do adequado aproveitamento dos frutos do trabalho, tendo por certo, que o caprichoso decorrer do tempo nunca permitia certezas na sua obtenção.

  A consciência do risco de privação, levou a que não existissem hábitos nem práticas de desperdício.

 Quando no inverno se demoravam temporais, a ria espantava inquietações e temores, valendo a todos os que nela buscavam a mesa da sobrevivência.

  Para lá da generosidade, tudo o que crescia era de sabor reconhecido, com destaque para as ameijoas, com toda a justiça elogiadas, e desde sempre consideradas simbólica iguaria.

 

  Adequado à dimensão da aldeia havia também um pequeno comércio. Era importante para todos, e ajustava-se aos cenários que o tempo tecia. A incerteza dos ganhos obrigava por vezes ao prazo, ao coração, e ao fardo do rol, que, nalguns casos, podia levar a prolongada, e por vezes até, incobrável dívida.

 

 

  Em casa, não havia o conforto da água fácil do nosso tempo. Existia no seu lugar, a escassez imposta pelo diminuto volume do cântaro de barro, que a voz do aguadeiro lembrava sempre que passava.

  Tal como a água, a iluminação ainda estava longe do que temos hoje. A opção generalizada era a dos velhos candeeiros a petróleo, com torcidas que exigiam apuro no corte, para evitar tisnaduras que as imperfeições do talhe produziam na chaminé.  

  Eram um pôr do sol descolorido, e deixavam no ar o desagradável cheiro da sua combustão.

 

  Em certas alturas, e determinado por ocorrências e assuntos que o interesse comum recomendasse levar ao conhecimento público, um homem bradava de rua em rua, convidando à atenção e à escuta.

  A mensagem era feita de diversidade, e o vozeirão empenhava-se em fazer chegar o recado do mandador.

  Alertadas pelo pregão, as mulheres vinham à porta vestindo graciosos bibes, e enxugando as mãos a pingar tarefas de cozinha, em encardidos aventais.

  Esclareciam as falhas do ouvido, e avaliavam na proposta algum interesse ou benefício.

 Os anúncios, sugeriam na maior parte dos casos, produtos que vinham da terra ou do mar, habitualmente do agrado de todos, e que se ajustavam ao desejo e à carteira das famílias.

  Por vezes apregoava-se também a perda dum objecto de alguma valia, com a promessa de alvíssaras aos que o achado contemplasse.

 

  Vinham de fora e no tempo certo, os que a proviam de algumas coisas que o hábito adquiriu para acrescentar à vida na aldeia. Deslocavam-se em carroças, anunciavam ruidosamente a sua vinda, e tornaram-se presença familiar e alegremente aguardada.

  Traziam com eles a diferença de outros lugares.

 

 

09
Out21

O apelo da terra

Joaquim Morais

 

 

 

 

   Com o aproximar da época de caça, chegava também a todos os que por ela tinham inexplicável apego, uma estranha inquietação.

   Talvez os dias que antecedem o acontecer de qualquer coisa prometida e muito desejada pela criança, traduzam bem esse adulto desassossego.

   Todos os anos, sempre que a terra nos convocava para o reatar dessa ardente relação, a agitação nos colhia.

Não estando em causa elementares necessidades, nem a sobrevivência das origens, que outras insondáveis razões teriam levado o homem a prolongar no tempo esta primordial, e até certo ponto, dispensável e anacrónica atividade?

   Perdurará ainda em recôndito lugar da nossa humana arrumação, alguma coisa que a ruralidade desperta, e que, como um estranho chamamento, nos convida ao regresso?

   Somos claramente feitos de passado, faltando saber se a sua ingerência tenha ainda laivos de tão remota era.

   O acto venatório, é um exercício, que, para além do eventual e não tão importante assim, abate, reclama de nós apropriada e rigorosa concentração. Porventura esse estado de consciência pleno, conduzido pelos sentidos e pela intuição, nos permitisse voltar a sentir alguma inteireza e restaurar emoções, pensamentos, impulsos e vivências, há muito arredados da pessoa que somos.

   Tudo isso nos transformava, tudo isso nos devolvia.

   No que me diz respeito, e pelo que me foi dado perceber enquanto seu caloroso seguidor durante alguns anos, nada do que nos movia intencionava a malvadez que muitos querem fazer crer.

   As coisas eram assim mesmo, e fosse pelas razões referidas, ou por muitas outras que a controvérsia do tema produz com abundância, havia uma realidade que nos fazia ansiosamente agradados nessa altura.

   O início das jornadas de caça era um nervosismo pegado. Os tiques mais ou menos evidentes, e que contemplavam quase todos, diziam da excitação, e prolongavam-se até ao cansaço.

   A época de caça, feita da diversidade de ocorrências mais ou menos previsíveis, era também, e acima de tudo, divertido e são convívio, e, fora do palco, ilustrado de relatos onde muitas vezes se misturavam imaginação e realidade.

   Pelos insucessos, das circunstâncias viria a explicação.

   Pelos bons resultados, o relevo do exemplar desempenho apesar das circunstâncias.

  As histórias preenchiam a semana, e eram partilhadas entre grupos. As iniciais, raramente coincidiam com as versões derradeiras, pelos arranjos criativos dos variados interlocutores.

   Não sendo contos, eram neles transformados, e acrescentados de infindáveis pontos.

 

05
Set21

O outro tempo da pesca da sardinha

Joaquim Morais

 

 

 

 

   De cristal o mar e cintilantes as formas que o animam. Despontam na flor da água, ondulando a timidez. Navegam os beijos do vento, até que o tempo diga se o porvir mantém gentil o sopro, ou se é feito de gene capaz de embravecer.

   Sem pétalas de sal à vista, parecem mais talhadas por delicado cinzel, de presumível pertença a amistosa viração.

Muito ao largo, cercada do azul que o sol acende, e sem que à vista conceda a terra mostra alguma, há uma traineira que ao mar lançou a sua rede.

   O mar é fundo e não apoquentam as incertezas da pedra; por isso, a retenida corre vagarosa nos tambores do guincho; há-de trazer à borda por bombordo, as argolas que fecham a rede, barrando a fuga pela aberta, e encerrando do lance a parte primeira.

   Desponta o sol e descobrem-se as cabeças em respeitosa saudação.

   Faz-se tempo de alar a rede; a prendem as mãos e se ensaia a melopeia que a adoça.

Imensa, negra de azeviche, repassada de breu e voejada de estridentes gaivotas,estende-se como um leque ao lado da embarcação.

  O canto e os braços em esforçada sintonia, e a rede, medrando a bordo, pesada e vagarosa, preenchendo a ausência semeada no mar da esperança.

   Na popa desenham-se as voltas do corcho, que cresce com a rede em criteriosa arrumação.

  A cantilena confronta a canseira; desafia-a na monocórdica harmonia que alguém entoa; depois, a uma só voz, a solidária resposta da companha às pretensões do desalento.

  Prossegue a faina melodiosa e dura.

  Exige-a o mar, tomado nas entranhas. Por ora, apenas esforçado labor, que reina a bonança e o tempo sorri.

  Vão os olhos percorrendo a rede que se apouca. Buscam nos sinais vislumbres de pão.

  No convés que corre por bombordo da popa às argolas, cresceu o corcho e a rede, e no barco a graça da inteireza.

  Na chata julga-se o lance; mede-se o sucesso ou o fracasso; as razões se de revés se trata, que a sorte explicações dispensa.

  Afloram cardumes que percorrem a rede que o canto aligeirou e os braços porfiaram.

  Do cerco já muito abreviado, irrompe um turbilhão de prata vibrante, que ilumina o olhar.

22
Ago21

Fortunato, o pescador

Joaquim Morais

 

 

 

 

   No lugar onde somos, o azul vai muito para além do que o céu nos mostra, a terra é pobre e acanhada, e o rumo era quase sempre feito desse outro azul, mais rasteiro, que o tempo escreve, os olhos preenchem e a vida obriga.

   Quando Fortunato, muito novo ainda o decidiu, talvez ele já o quisesse, por perto.

  Gerada em precoce cumplicidade, a relação que cedo estabeleceu com o mar, foi sempre feita de genuína afeição, e de desafios que os anos foram tornando cada vez mais aliciantes pela crescente exigência.

  Do mar, o acolhimento dado aos que o relevo assinala, e que nele se afirmam com a devoção própria das liturgias da sobrevivência.

  O que dele recebeu, também foi a medida do seu respeito e humildade, e o reconhecimento do seu nada, perante a desmedida vastidão, e a infindável energia da sua natureza.

 

  Mestre do anzol na sua expressão mais simples: a leitura perfeita da mostra elementar; uma linha que a mão segurava e traduzia como ninguém as mensagens dos fundos; alguns anzóis que a experiência armava, e a isca das circunstâncias preenchia.

  Tudo isto, associado a um particular jeito e modo de fazer, deram a Fortunato a reputação que todos reconheciam.

  Na vida dum pescador o êxito ficava muitas vezes ligado à sorte, mas a argúcia deste homem banalizava o papel do acidental na arte que abraçou.

  Apesar de todas as incertezas do ofício, raramente o seu bom desempenho, foi aleatório.

 

  Pescava lulas à noite, com os faróis a petróleo na borda a arrancá-las do fundo e do redor, e com tóneiras forradas de brancura, que ele agitava com gestos calculados para fisgá-las.

  Conservava-as dentro de água em cesto próprio, preso na chumaceira e encostado às obras vivas que o verdugo estremava.

  Por vezes, as guelhas atraídas pela luz e pelo recheio do cesto, destruíam-no e devoravam as lulas.

  Quando a pescaria decorria sem incidentes, o nascer do dia fá-lo-ia pescador de corvinas, de pargos e de dentões.

  Usava para isso as lulas como isco, anzolando-as de maneira a mantê-las vivas, e atrair pelo movimento, as espécies que o desejo elegera.

 

  Alguns relatos de vivências piscatórias na primeira pessoa, trouxeram-me à memória a última grande obra de ficção com que Hemingway nos presenteou: o velho e o mar.

  Tal como o velho Santiago, Fortunato teve nas corvinas, (sem o desconforto dos tubarões), os seus espadartes gigantes, e os desafios que o levaram a envolver-se em duras disputas, que a natureza hostil e desajustada do meio, tornavam mais cansativas, por demoradamente sofridas.

  Algumas vezes arrastado por peixes enormes durante muito tempo e por grandes distâncias, Fortunato viveu as suas capturas com o esforço que as situações exigiam, e a sabedoria que a experiência ia produzindo.

 

  Nos últimos anos, a arte do anzol tornou-se insuficiente pela acentuada baixa das espécies, o que o levou a ensaiar nas redes, uma nova forma de assegurar a subsistência.

  O seu tempo de mar, deu lugar como em muitos outros pescadores, ao tempo da ria em Alvor. À agitação do oceano seguiu-se a tranquilidade lagunar e a sua descontraída fruição.

  Sempre com o mar por perto, teve em permanência e de viva voz, notícias suas.

07
Ago21

Salva vidas "ALVOR"

Joaquim Morais

 

   Segundo a descrição constante dos documentos que o acompanham, o salva vidas “Alvor” terá sido construído entre 1932 e 1933, no instituto de socorros a náufragos de Pedrouços.

   Caracterizado como embarcação do tipo dinamarquês, é por isso natural, que a influência nórdica se tenha feito sentir nas suas linhas, e, ou, modo de construção.

   Barco a remos, concebido para uma tripulação de doze homens, constituída por dez remadores, sota-patrão e patrão.

   De beleza sóbria e traço discreto, mesmo assim não deixa de impressionar pela originalidade, e pelos pormenores revelados no detalhe da atenção.

   Aos que, de maneira directa ou indirecta souberam da epopeia que constituiu o seu desempenho, e da sua importância no contexto afectivo, social e cultural do lugar, este barco dirá com toda a emoção que a sua história encerra.

   A cada um dos que com ele viveram horas de desassossego e incerteza, dirão talvez em cada reencontro, as lágrimas da memória feliz.

   Entrou ao serviço da comunidade piscatória de Alvor em 1933, e foi abatido em 1983.

   Durante cinquenta anos, foi vigilante e responsável pela segurança de centenas de homens, a quem o mar muitas vezes surpreendia com alterações de humor que punham em risco as suas vidas, e a navegação segura das frágeis embarcações.

   Estrategicamente colocado na instável e perigosa barra de acesso à ria em lugar que assegurasse o auxilio às embarcações que iam chegando, fazia também com a sua presença, renascer o ânimo a todos os que no local viviam o aperto do mar revolto.

   Em terra, e em cada jornada que a intempérie lhe obrigava, a imagem da sua largada e da sua exemplar mareação, preenchia-nos alegremente o olhar, e era sinal de renovada esperança.

   O salva vidas traz na sua esteira um conjunto de homens que lhe deram vida.

Podem-se contar por largas dezenas, os remadores que durante cinco décadas foram chamados para as acções de salvaguarda da vida sempre que necessário.

   Com todos se fez a história do barco, e cada um viveu com ele episódios da sua própria história.

Eram pescadores, convocados pela aflição e pela tormenta, que o responsável reunia com a prontidão que a situação exigia.

  O seu dilatado número torna quase impossível identificá-los, e da sua participação fazer a devida referência nominativa.

   Desses, já muito poucos ainda estão entre nós.

   No entanto, apesar de também já não estarem entre nós, ainda vive nalguns, a memória dos patrões do salva vidas, cujo trabalho, responsabilidade e valia, foram contributo importante para o sucesso das missões.

   Do meu pai e dos seus noventa e três anos recheados das mais diversas lembranças, vieram os nomes desses homens que comandaram as inúmeras missões de vigilância e salvamento levadas a cabo pela histórica embarcação, aos quais presto aqui a minha homenagem, pela divulgação da sua identidade:

– Francisco Baptista

– Manuel Vicente

– José Jorge Vidal

– Manuel Lóló

   A todas as tripulações que levaram a esperança aos que a tiveram suspensa e ausente, pela angústia das delicadas situações vividas, esta terra deve o humilde tributo da gratidão.

  Aos mais jovens, que por vezes parecem viver numa espécie de deriva identitária, é importante que vá chegando a notícia dos que os antecederam, e do que eram feitas as suas experiências de vida.

   Se Alvor ainda mantém, apesar de algumas transformações, muito do seu património paisagístico e das suas edificações de referência que nos tocam a vista e o orgulho, saber do passado e das gentes que o preencheram com a riqueza das inúmeras actividades que desenvolveram, será um contributo interessante para nos ajudar a ser cidadãos, naturais deste lugar privilegiado.

 

 

 

 

 

                                       Atenta e solidária

 

 

 

 

Sem preâmbulos, nem avisos,

a várzea oceânica abriu-se

num temporal desfeito.

Em terra, os maus pensamentos

depressa afiam os aguilhões

da ansiedade e do desespero.

Prestes se aparelha no cais

o guardião da existência,

e doze homens enfrentam

o turbilhão do abismo

restaurando a esperança.

Na cordilheira movediça

em que as alfaias de Eolo

converteram a barra,

remam ao compasso da angústia.

Uma a uma, as embarcações

demandam a infernal passagem.

Rebentação e vento,

acompanham gritos e preces

numa sinfonia de desespero.

Atenta e solidária,

a sentinela flutuante balouça,

ao ritmo das convulsões elementares.

Na praia, alguém de negro vestido,

assiste alternando o olhar

entre os céus e o mar revolto.

11
Jul21

A praça

Joaquim Morais

 

 

 

   A praça era o centro da aldeia. À praça chegavam as carreiras que traduziam o relógio e a novidade. Da praça partiam os que iam em busca dela, e do que a aldeia não era capaz.

   Era na praça que os homens diziam e ouviam. E aos homens, por subversivas razões, nunca era permitido numerosa parcela, nem duvidosa palavra.

   Havia olhos que o olhar nem sempre percebia, e ouvidos que às vezes convocavam o espanto quando desvendados: eram os inesperados tentáculos do regime a vasculhar no falatório, agitadora intenção.

   Só que, naquele lugar de encontro, nem os homens nem as suas falas, eram feitos dessa revolucionária matéria, que em causa pusesse tão altos desígnios.

   Juntavam-se os homens quando circulavam imprecisos rumores, para que deles se ouvisse apropriado esclarecimento, e sobre eles se fizesse satisfatória luz.

   Juntavam-se para falar da pesca; das pescarias do dia; das traineiras que em portimão laboravam com companhas e mestres da aldeia, dos melhores na arte do cerco onde a sardinha era rainha.

   Juntavam-se outros porque adoravam a galhofa, e faziam da praça lugar de risada e diversão.

   Havia mestres na arte da chacota, que a quase tudo emprestavam trocista abordagem, que nela foram com inexcedível graça.

   Nas noites de verão, principalmente aos fins de semana, a praça vivia madrugada dentro.

   Depois do fecho das tabernas do lugar, os resistentes desaguavam na praça, carregando eloquentes pielas, que fariam corar as suas habituais caladas abstinências.

   Alguns havia, feitos do saber do mar, e com um sem fim de histórias que o estímulo da embriaguez desenrolava.

  As narrativas, feitas num linguajar onde sobressaía a terminologia do seu dia a dia no mar, configuraram criações metafóricas bem conhecidas da comunidade, e muito interessantes do ponto de vista da linguagem.

   Era na praça que ficava o café mais central, e que quase todas as intenções escolhiam.

   Do seu interior percebia-se todo o espaço do largo, e as movimentações que nele ocorriam. Lá dentro bebia-se cerveja, café e medronho de monchique; e conversava-se, conversava-se muito.

   Havia barbeiro e merceeiro. Havia padaria. Havia loja de roupa e um lojista que também era regedor da freguesia.

Havia gente que a fazia ser, porque nela era.

   Mesmo ao virar da esquina, ficava a escola primária, a funcionar em edifício antigo, de interessante traçado, com águas furtadas que amedrontavam as crianças, por dela dizerem coisas assustadoras.

   Alguns professores eram vezeiros em usá-la para coagir alunos.

   Pela praça, passavam também solenes procissões, preenchidas de austeras figuras com rostos tristonhos, de merecimento disputado pelos ombros dos homens. As mulheres, que ladeavam o cortejo de cabeças cobertas por delicados véus, cantavam arrastadas melodias segurando velas que o vento soprava.

   Das janelas pendiam vistosas colchas.

   Na praça, as crianças brincavam a despreocupação dos pais, até que o nomear do brado as contemplasse.

 

 

 

 

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