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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

26
Jun22

A AROEIRA

Joaquim Morais

 

                                                                

              

                                              

Aroeira(4).jpg

                      

 

                                                                             A AROEIRA

   Era o arbusto preferido das felosas, que saltitavam a aparente inquietação no aromático entrelaçado dos seus ramos: buscavam drupas, as bagas que o amadurecimento tingia de negro, e que eram ao fim e ao cabo, a razão primeira para a cíclica aventura migratória que a sobrevivência determinava.

  Os coelhos escolhiam-nas, para junto aos troncos fortes que as enraizavam, escavarem labirínticas tocas, enquanto as perdizes urdiam o futuro abrigadas pela sua cerrada e frondosa copa.

   Parte activa do eco-sistema a que pertencia, e inserida na paisagem terrena com correspondente relevância paisagística, a aroeira havia de revelar inesperado préstimo em aquático meio, levada pela mão do homem que nele tinha o seu modo de vida.

  E que melhor lugar do que a ria de Alvor, para protagonizar uma nova e inesperada valia, e garantir um desempenho duplamente benéfico, apesar da aparente discordância elementar.

 

  A ria é um desafio permanente a quem a ousar. A sua linguagem nem sempre explícita, seduz apenas os que a virtude arregimentou para a aprendizagem, tornando-os confidentes duma natureza que tem muitas vezes no improvável, a porta de entrada da sua revelação. Privilegiados e dedicados ao seu entendimento, talvez tenham sido estes, que nas marés e no tempo certos, pela experimentação, ou pela constatação de que um fortuito ramo de árvore trazido pela corrente e depositado em acessível remanso era abrigo habitual de chocos, terão inaugurado um novo meio de captura destes saborosos cefalópodes.

  Restava encontrar nos campos em redor, a árvore ou arbusto que melhor poderia servir para o efeito. De ar frondoso, copa cerrada, resistente e aparentemente capaz para integrar e compor o novo habitat, a aroeira parecia ajustar-se perfeitamente ao que dela se pretendia.

 

  Para mantê-las submersas, e resistir aos ventos de água soprados pelas marés, dotaram-nas de raízes de pedra. Passariam a vogar a dinâmica das águas oceânicas, na medida dos cabos que as prendiam.

   Eram colocadas em lugar acessível pela baixa mar, mas de maneira a ficarem completamente submersas, mesmo em marés de vazantes extremas.

  Com a ria escoada, nas manhãs calmas e de águas transparentes, o pescador fazia o circuito das aroeiras pelos baixios que as continham, deslocando-se em silêncio e fazendo atenta e cuidadosa abordagem ao seu redor, e à parte que os ramos cobriam. Após contacto visual com os chocos, que, umas vezes enterrados na areia, noutras imobilizados mas prontos para escapar à mais pequena ameaça, redobravam-se os cuidados para não os afugentar. A sua captura era feita com fisgas artesanais fabricadas pelo ferreiro “Justo”, homem competente na arte da forja, e que trabalhava o ferro com mestria.

   Ainda muito jovem, também passei pela sua oficina, e tive o privilégio de o conhecer. Alguns dos bicheiros e fisgas, que na adolescência usei na pesca dos polvos nas praias rochosas de Alvor, foram feitas por esse bom homem e grande mestre. Com ele trabalhou também o sr Alfredo, conhecido por Alfredo “Nórinha”, figura popular, e profissional competente na mesma arte.

 

   À natureza cabe estabelecer relações entre os elos da cadeia, para que a harmonia do sistema prevaleça. Ao homem cabe tirar dela vantagens em benefício próprio, com a sensatez necessária à salvaguarda do seu equlíbrio.

 

   É claro que não veio mal ao mundo pela aroeira, e que, muito pelo contrário, até ajudou: os novos habitats criados passaram a funcionar como banco de ovas, e a ria, porta aberta para o mar, garantiu e acentuou a renovação da espécie no seu seio, contribuindo também com ajuda de relevo para o repovoamento oceânico; acresceu a tudo isto, uma pequena achega ao ganha pão do pescador.

 

 

 

   No meio piscatório a aroeira era conhecida por dároeira. Nem sempre as palavras do lugar coincidiam com as do manual. Talvez particularidades próprias do meio social, e ou cultural, porventura do aparelho vocal, tenham levado à junção da consoante d à vogal inicial, para mais comodidade no dizer.

  Por esta ou aquela razão, acontecia na comunidade serem retocadas palavras, principalmente entre os pescadores.

       

 

                                                                              

 

 

 



 

 

 

                                                                              

 

 

 

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