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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

15
Set21

As ameijoas e o olhar na ria de Alvor

Joaquim Morais

 

 

 

   O mapa de indícios e não de evidências é um método para prolongar o olhar. Os imbecis olham rápido para uma coisa e dizem: aqui não há nada que possa ser pensado. O sensato olha longamente. ( Gonçalo M. Tavares – breves notas sobre literatura bloom).

 

   São muitas as maneiras de apanhar as saborosas ameijoas. De entre todas, distingo a que do mariscador exige particular jeito e vocação; veia que apesar de não ser rara, é na sua apurada expressão privilégio de poucos

   Refiro-me à apanha pela percepção do olho do bivalve, e do desafio que as inúmeras maneiras como não se revela, constitui para quem disso faz ofício.

   O acompanhamento e conhecimento dos que nesta tarefa se empenham, e se distinguem, levaram-me a este pequeno texto.

 

   Neste lugar, por imperiosas razões, houve muitos que a terra sujeitou e ao olhar obrigou. Nem todos a viram de igual modo.

   Aos que a mostra animou, por indícios que espevitaram a vontade de a rever e perceber, há-de ao olhar juntar-se a mão, para com ela tentar aprender os sinais que a curiosidade elegeu.

   Aos outros a quem o chão obriga, e dele se apartam por ligeireza no olhar e descuidado entendimento, deixa ao juízo diminuta medida para a arte..

 

   A terra de que falo, é a que o mar corteja e navega para lá da linha de costa, encorajado por astral cumplicidade, que o governa no contínuo vai vem das suas águas.

   A ela chegará parcela da sua inesgotável energia. À ria e ao mar emprestarão as água geradas em serrano berço a criadora força da sua natureza.

   Hão-de as marés caprichar na ria rara formosura, e nela esculpir o espanto dos olhares.

 

   Quando a terra que a preia mar tomou, pela vazante ao mar devolve as suas águas, nasce nela larga e fértil nudez. Aí moram, entre outros, as ameijoas que à mesa trazem prazer único, e ao lugar conferem distinção.

   Aguardam apenas que alguém traduza o seu disfarce, e lhes conduza a gastronómicos destinos.

 

   Na ria, caminha cabisbaixo alguém que do olhar retira abreviada notação. Baralha-o a escassez das evidências; a mão e a sachola preguiçam; são vítimas da ligeireza do olhar; na vasilha, apenas o pouco que a inépcia permitiu.

   O tempo, recheado de elementos que as ocultam, exige mais do que ele pode dar.

 

   Não muito longe, conduzido por invulgar agudeza, há outro olhar que à mão impõe frenética cadência.

   Não o conduzem categóricos sinais. Não lhos concede o tempo por impróprio à fácil amostragem.

  Transforma, por isso, a prova exígua e disfarçada em incentivo, e com a teimosia do olhar descobre nos indícios e na sua ténue expressão, apenas outro modo de serem percebidas.

   Os quadros são inúmeros. Cabe aos que a virtude nomeou, neles descobrir a expressão da ilusória ausência, e preencher de inigualável sabor a mesa dos que o privilégio agrupará.

 

   Farão seus os segredos da terra, os que a olham longamente.

 

05
Set21

O outro tempo da pesca da sardinha

Joaquim Morais

 

 

 

 

   De cristal o mar e cintilantes as formas que o animam. Despontam na flor da água, ondulando a timidez. Navegam os beijos do vento, até que o tempo diga se o porvir mantém gentil o sopro, ou se é feito de gene capaz de embravecer.

   Sem pétalas de sal à vista, parecem mais talhadas por delicado cinzel, de presumível pertença a amistosa viração.

Muito ao largo, cercada do azul que o sol acende, e sem que à vista conceda a terra mostra alguma, há uma traineira que ao mar lançou a sua rede.

   O mar é fundo e não apoquentam as incertezas da pedra; por isso, a retenida corre vagarosa nos tambores do guincho; há-de trazer à borda por bombordo, as argolas que fecham a rede, barrando a fuga pela aberta, e encerrando do lance a parte primeira.

   Desponta o sol e descobrem-se as cabeças em respeitosa saudação.

   Faz-se tempo de alar a rede; a prendem as mãos e se ensaia a melopeia que a adoça.

Imensa, negra de azeviche, repassada de breu e voejada de estridentes gaivotas,estende-se como um leque ao lado da embarcação.

  O canto e os braços em esforçada sintonia, e a rede, medrando a bordo, pesada e vagarosa, preenchendo a ausência semeada no mar da esperança.

   Na popa desenham-se as voltas do corcho, que cresce com a rede em criteriosa arrumação.

  A cantilena confronta a canseira; desafia-a na monocórdica harmonia que alguém entoa; depois, a uma só voz, a solidária resposta da companha às pretensões do desalento.

  Prossegue a faina melodiosa e dura.

  Exige-a o mar, tomado nas entranhas. Por ora, apenas esforçado labor, que reina a bonança e o tempo sorri.

  Vão os olhos percorrendo a rede que se apouca. Buscam nos sinais vislumbres de pão.

  No convés que corre por bombordo da popa às argolas, cresceu o corcho e a rede, e no barco a graça da inteireza.

  Na chata julga-se o lance; mede-se o sucesso ou o fracasso; as razões se de revés se trata, que a sorte explicações dispensa.

  Afloram cardumes que percorrem a rede que o canto aligeirou e os braços porfiaram.

  Do cerco já muito abreviado, irrompe um turbilhão de prata vibrante, que ilumina o olhar.

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