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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

21
Jun21

A ironia do alfaiate Milton

Joaquim Morais

 

 

 

 

   Mestre alfaiate de comprovado mérito, improvável… não tanto assim, caçador e pescador, intrometeu também a terra em sementeiras de ocasião, espicaçado pela natureza rural do lugar onde durante muitos anos viveu.

   Milton, a quem o metafórico dito sempre sorriu, soube como ninguém cultivar a amizade, que as aleatórias tertúlias todos os dias nutriam e consolidavam.

   A sua oficina foi palco dos mais deliciosos episódios, e por lá passaram todos os que não dispensavam o humor nas suas vidas.

   A mestria do seu desempenho profissional, tornou-o bem conhecido de toda a comunidade regional, e levou a sua arte de vestir com requinte, para lá das fronteiras.

   Há muito deslumbrados pelos encantos do lugar, alguns turistas estrangeiros passaram também, pela reputação do mestre alfaiate, a fazer da sua loja local de passagem obrigatória: as férias, passaram a incluir aos que que a condição profissional o fato exigia, as visitas que medidas e provas estabeleciam.

   A palavra do generalizado agrado, serviu para muitos outros, que também passaram a frequentá-la.

   Nos dias em que o calendário escrevia o habitual descanso semanal, Milton alfaiate dava muitas vezes lugar, ao caçador e ao pescador.

  Fui com ele e muitos outros que a pesca amadora irmanou durante anos, solidário na entreajuda, umas vezes pela repartição do esforço aquando da ida dos barcos do areal para o mar, noutras pelo apoio em alturas de varação na praia, quando a suestada nos surpreendia.

   Esse tempo preencheu-nos de inesquecíveis pequenas coisas, que, não sendo de assinalável registo, têm na simplicidade a sua maior virtude.

   As origens, o conhecimento e a proximidade dos pescadores e da sua realidade, fizeram-nos ser como eles, e, muitas vezes, como eles dizer.

   Os diálogos de quem se envolve nesta lida, mesmo sem o peso da obrigação, são duma enorme riqueza metafórica, e têm no mar, nos pescadores e na diversidade de episódios que a faina produz, a sua inesgotável fonte.

   Todos nós éramos militantes dessa causa, sendo que, era do Milton que vinham quase sempre, os maiores tesouros que a linguagem produzia.

   Com um sorriso permanente que a fina ironia do olhar sublinhava, ilustrava como ninguém, as incidências que o tempo de mar e de pesca iam desenhando.

   Os dichotes que intercalava, faziam assomar risadas, e a sua lembrança divertia-nos durante dias.

   Fui também durante muitos anos seu companheiro de caça. O bichinho tomou-nos e fez-nos reféns, como só entendem os que por ela se deixam envolver.

   Ao contrário da pesca, a expectativa duma caçada gerava sempre alguma inquietação, e a sua práctica era um estado de permanente tensão e alerta.

    A indispensável visão da presa e a decorrente rapidez da resposta, obrigavam a totalidade dos sentidos.

    O início de cada jornada, escrevia nalguns curiosos prefácios, que envolviam tiques e hábitos esquisitos.

   O Milton presenteava-nos quase sempre com persistente tosseira, a que apenas alguns vómitos sem conteúdo punham termo.

    O cansaço, acabava por devolver a todos a normalidade.

   As chalaças na caça ficavam para o seu depois, e mantinham o mesmo tom divertido, e adequado às peripécias do seu desenrolar.

   O distanciamento exigido por razões de segurança, não permitia, ao contrário da pesca, o parecer imediato.

   À volta da mesa, e na viagem de regresso desfiava-se o rosário dos comentários, que a realidade e a fantasia iam ditando.

   Custou-me vê-lo partir tão cedo.

   Numa parede da alfaiataria, tinha algumas fotografias de amigos de primeira linha que já lá estavam.

   Se o além permitir, deve ter sido de arromba o reencontro.

 

 

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