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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

18
Abr21

A lua da Rita

Joaquim Morais

 

 

 

   Um dia a Rita soube da Lua. Inaugurou o disco inteiro de luz, ainda pequena, pouco mais que bebé, num passeio em noite de verão.

   A cadeira em que passeava recostava-a, as guardas laterais obrigavam-na ao alto. e o céu noturno depressa tomou conta do olhar.

   Já dizia, mas faltavam-lhe ainda as palavras que traduzissem o céu.

   Leu-o primeiro na mudez do luminoso espanto; fez da etérea grandeza um embrião à sua medida; acomodou-o no ainda sóbrio espaço das revelações e talvez tenha esboçado o caminho para onírica viagem.

   A Rita continuou os passeios que a noite convidava. Perguntava o desconhecimento, queria saber das evidências que o olhar elegia, e fez do céu noturno um mistério que a ingénua condição queria revelado.

   De entre a luzente amostra, a lua voltou ao olhar, repleta, agora sem surpresa. O balão, enorme, parecia-lhe ainda maior.

   Como todas as crianças, a Rita adorava balões; fascinava-a a sua leveza; a diversidade das suas cores; gostava de jogar com eles ao balão fugidio, e com eles fazer do aniversário uma festa ainda mais bonita.

   Diante de si tinha um balão que parecia mirá-la. Quase que jurava que eram olhos o que ela via no lugar onde eles deviam estar se o fossem.

   Ás vezes pareciam amistosos, como se a quisessem convidar a entrar num qualquer jogo. Noutras já não era tanto assim, e a sua expressão amedrontava-a.

   Não sabia o que dizer, não sabia o que fazer, mas isso não impedia o enlevo da luz que, vendo bem, dominava e reinava sobre todas as outras.

   A visão mais atenta, concedeu-lhe todavia um pormenor que se esquivara. Havia mais qualquer coisa para além da luz:

  -As zonas de sombra mais ou menos evidentes, e que fizeram supor o olhar que a miraria, existiam um pouco por toda a superfície lunar.

   Afinal, os olhos que à quase jura pareciam, eram mesmo, e amistosos convidaram-na sem reservas, ao jogo das descobertas.

   Começou aí o desafio das figuras sem fim que o olhar desvendou no círculo luminoso.

   Desde os animais que a razoável colecção de peluches explicava, aos brinquedos e objectos do seu uso, ali residiam quase todos os vultos do seu pequenino universo.

   Improvável, o jogo prosseguiu até ao tempo da criança, traída pelo peso dos olhos que a lua tentava manter acesos.

   Antes do cair do pano, a Rita fez um último pedido: posso agarrar a lua? Foi-lhe respondido que sim, claro que podia! Em jeito de despedida elevou os braços na direcção da luz e disse: já está!

   Com a lua entre as mãos, finalmente adormeceu.

 

 

04
Abr21

Os amigos do meu pai

Joaquim Morais

 

 

 

   Noventa e três anos preenchidos de entusiasmo pela presença do outro, e por um sorriso que em todos acende o valor da afeição e do apreço.

   Desde sempre, fez da proximidade com os demais um modo de ser.

O encontro é a festa da sua vida. Sempre que o outro acontece, o olhar ilumina-se; a palavra demora o prazer do diálogo; diz de si e da sua circunstância; traduz o regozijo; e do amigo traz a atenção e a notícia.

   A ocasião, irá tornar também possível o desejo de contacto que o gesto aguarda.

   Estou a falar do meu pai. Homem de palavras, com uma bonita idade, e que tem no outro a parte que o faz inteiro.

   Existo, logo vivo. Será assim. Será que a certeza da existência nos assegura a autenticidade da vida.

   Quando se ouve de alguém, isto não é vida, que dúvidas lhe assistem para pôr em causa os caminhos traçados para ela.

   A dúvida, pode despertar-nos para pensá-la, tentar perceber os modos diferentes de conduzi-la, e, eventualmente, ajustar o rumo para portos mais seguros.

   A vida é uma dádiva que devemos celebrar em cada instante.

   Tomar consciência de que não estamos sozinhos, e que a tranquilidade e o bem estar derivam da partilha, é a garantia de que com os outros, ficaremos mais próximos de nós mesmos.

   O companheirismo e a solidariedade ajudar-nos-ão a suavizar as dificuldades do caminho, e farão  despertar sentimentos que hão-de seguramente fazer de nós, pessoas melhores.

   Existir com o outro é fundar a palavra amigo, tê-la na memória dos dias, percebê-la para lá da presença, e com ela e sobre ela construir tal como o meu pai, um edifício da vida que nos garanta uma existência humanizada.

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