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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

28
Nov20

Coisas do vento

Joaquim Morais

  

 

 

 

 

   O ocidente prestes a colher o dia e a cor, e o vento acerado, a assobiar enxárcias e brandais, e a carneirar as águas onde a manhã decidira o céu e a bonança.

   Passara serena e luminosa, suspensa, a transbordar o vazio que enche os olhos dos poetas.

   Aliaram-se-lhe serras e outeiros, a assomar e a suster fôlegos que o rebolo virgem do outono aguçara, e o sol, enquanto ascenso, parceiro da quietude que o tempo determinou para a flor do dia.

   O declínio suscitou a ousadia do sopro, e nem outeiros nem serras, nem compromissos de bonança, iriam travá-lo, agora que a luz e o fogo desciam os degraus do tempo no caminho das trevas.

   De noroeste reinava a dissuadir o mar de outros intentos, e a sujeitar a terra às inequívocas vénias dos vassalos que a raiz obriga.

   Findara setembro e a festa do verão.

   Colheram-se os frutos, o sol e o sal.

   Nos vinhedos que o mar contemplam, empalidecem parras e passam-se escádeas.

   Nas adegas já fermentam os mostos que o pisoteio obrigou.

   Faltava despir o arvoredo; preparar o recomeço que só a nudez permite; fechar o ciclo com a decadência que torna possível a luz e a cor.

   O céu, é agora de um azul intenso, a escoar-se pelo funil do ocaso sem o arremedo das águas, onde reina a tirania estética do vento: ondulados poemas que o longe releva, e a orla mostra, em acanhados versos de esvoaçante brancura.

   Quase, a noite e os salpicos de luz. Alguns já visíveis, a anunciar o princípio ou o fim, ou ambos por a ambos servir.

   E o desfile de cores a encenar o passamento; e a escuridão a nascer, e a crescer; e a acender no céu o lume que desvenda o mar.

   As trevas convocam o frio. O vento teima e cresce; e aguça-se e grita, agora a coberto da noite.

   Nem o cair do sol nem o declínio da maré apaziguaram o ar como soía.

   Desabrido e gélido, talvez sopre resíduos do estio a teimar cantos de palmípede.

 

23
Nov20

Uma história do mar

Joaquim Morais

 

 

 

   Alguém que a noite esconde, aninhado num útero de tábuas e de sal, sob um céu que a escuridão permite que se acenda e brilhe, flutua na sombra, estendendo as linhas num mar sem horizontes.

   Da lua, apenas um rumor, uma ténue linha, curva, embrião de crescente, que exalta o fulgor da cúpula: estrelas convictas, que revelam o mundo e desafiam os olhares; outras, fugazes, a hesitar a presença; algumas riscando o céu com poemas de luz; outras, agrupadas, solidárias, insinuando caminhos.

   Nos encantos da noite, não cabem os olhares de quem o reparo é outro: apenas as linhas, e por vezes, para ajustes no rumo, a breve mirada às rosas que o céu exibe.

   As linhas já repousam na fundura, e o dia ergue-se do transitório crepúsculo.

   A bordo uma trégua de alba, a curta pausa, a acomodação do olhar.

   Olhos agora de águas calmas, onde se jogam destinos e se lançaram linhas que o côncavo das mãos já acolhe.

   Os braços revezam-se, com as mãos à altura do verdugo; braços longos, puxados pelas linhas e pelos anos, acima, abaixo, num vai vem de alcatruz.

   No rosto, a fogueira do sol e do vento, que não de agora, que reina a quietude e o sol é verde.

  Ventos de todos os mares e de todos os tempos, escritos de sal, e a fogueira dos sol a arder continuamente.

   A puxada brusca prende a atenção e o olhara aguça-se. As mãos soletram a linguagem da linha, e os braços, longos de incontáveis fainas, num vai vem, agora à flor da água, capturando a esperança que o cavername espera.

   Os remos abreviam a tensão das linhas e das mãos que as colhem.

   O sol despiu os tons de cereja e suspendeu as tréguas, mas o mar não o devolve: sem viração que o lapide, vai permitindo o repouso do olhar. Cintilações, apenas no assomar das presas a teimar a fundura.

   Navega o barco em berço de mercúrio no rumo das linhas, e o olhar a saber do redor: procura o horizonte da bóia, o que anuncia a linha e a distância, já que outro, apenas esta embaciada calmaria, que paira a preencher o que nos cerca.

  Os braços prosseguem a faina, de novo à altura do verdugo; acima, abaixo, num vai vem de alcatruz. Linhas no côncavo das mãos, e os ollhos no horizonte do corcho, onde poisam agora. Poisam e demoram, que a surpresa cresce.

  À volta, um sobressalto de água estranho e desusado. Um vulto escuro que emerge, e mergulha, e rodopia, gerando um turbilhão que envolve o suporte das linhas.

  Prestes se decide a pausa, e o rumo das águas que se agitam.

  Chegados, depressa tudo se oferece ao entendimento: o cabo que o flutuador sustém é um emaranhado de seios que prendem um debilitado golfinho, quase rendido à acidental grilheta; há um outro, que rodopia a inquietação à sua volta.

   O cabo tê-lo-à colhido talvez por imprudente e curiosa consulta, as voltas constantes criaram seios que o foram cingindo; o desespero das piruetas consolidou o abraço; depois, a briga ansiosa, a inútil porfia, e por fim a rendição.

   Do companheiro a solidária presença, o agitar das águas, o sinal que as transparências do verão revelaram, aos olhos de quem tem no mar as raízes da vida.

   A prisioneira já quase não se debate, mas o olhar ilumina-se quando se cruza com os de bordo.

   A súplica e a esperança, parecem ilustrar a mensagem que o companheiro subscreve com vistosa e estridente evolução.

   Sossega, sossega, sossega, é a voz das carícias que Macário faz no torturado dorso.

   Lesta a navalha, e ágil o punho que a manobra, no urgente propósito do resgate.

   A liberdade, é o mar que se oferece de novo.

   Exausta, hesita o movimento. Esteia-o o companheiro e o desejo de bordo, que o acompanha no silêncio, como se faz aos deslumbramentos da vida.

   Ligeiros mas seguros os progressos sugerem o regresso à faina.

   De novo os braços, longos, acima, abaixo, à altura do verdugo. A vida suspensa de linhas precárias, que os braços sustêm, e as mãos por vezes soletram; agitadas sílabas que traduzem a porfia da vida.

   De sul insinuou-se um hálito de sal, respiração da lonjura, onde não cabem noivados de mar e de céu.

   A aragem contesta a união, sopra-a nos seus etéreos fluidos, refaz horizontes e abranda a fogueira do rosto, que a saúda em pausa de astral olhar.

   Um novo alento a incitar à faina, que prossegue em final de tarefa, no rumo das linhas que a noite ditou.

   A diligência é agora de remate; de arrumos; de avaliação. Olha-se a safra, converte-se em pão, que o resto, são luxos de terrenas empresas.

   À memória o episódio de há pouco, e um estranho bem estar, dos que se geram em insondável matriz e apenas acontecem.

   Aprestava-se o regresso na placidez de alma conferida pela lembrança, e eis que um torvelinho de água envolve o barco.

  A gratidão, expressa num abraço de espuma gerado pelo incessante movimento em torno do barco e festejada a dois com aparatosas acrobacias e estridente e alegre melodia.

   Embaraçados pelo espanto, Macário e o seu companheiro de bordo trocam olhares que a emoção toma, e onde o orvalho se insinua.

   Nenhum outro lugar, porventura nenhuma outra circunstância, traduziria melhor a festa da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

18
Nov20

AS VOZES DA ÁGUA

Joaquim Morais

 

 

 

   Em toda a aldeia passou a haver uma torneira, e um reservatório novo, cilíndrico, enorme, que a fazia ser.

Era um lugar com poucas casas, e as gentes, do mar as do lugar, e as outras que a periferia acolhia, eram o que a terra, e o mar, e a ria, decidissem.

   No novo depósito, a água correria agora sempre que aquela torneira dispusesse de mão que a cuidasse, e a terra havia de festejá-la em cada casa.

   Pequena, a aldeia mesmo assim distava o cansaço do cilíndrico depósito, instalado no arrabalde. O custo crescia ainda mais, para os que o desterro dos extremos em azar saíra.

   A princípio, a festa da água anulava canseiras, mas a precisão aturada, depressa fez quebrar a alma, ausente que ficou o alegre suporte.

   O engenho ainda ditou para alguns, hábeis soluções de resposta à fadiga e à distância. Todavia, a veia criadora estava em quase todos mais virada para tudo o que a faina reclamava e o mar exigia.

   João de nome e “pão“ de alcunha, foi um dos que se propôs trazer a cada casa, cada cântaro, sem o encargo da canseira que a distância urdia. O João “pão”, passou a garantir a água sempre que à sua passagem o pregão “áááágua”, se fizesse ouvir, pelos que o vazio dos cântaros, trazia despertos.

   O João “pão”, usava um carro que a arte dos práticos concebera. Tirado pela burra “boneca”, cumpria com pragmático apuro o encargo da distribuição. Duas filas de seis cântaros corriam de cada lado, alojados em aberturas forradas da suavidade necessária à integridade das vasilhas.

   E João”pão”percorria as rua do lugar, de ombros forrados do tormento dos cântaros, bebendo as sedes, e aligeirando a sujeira que o tempo relevava.

   Depressa porém, a tarefa se mostrou grande para a pequenez do João”pão”. A água fácil, convidava ao gasto e ao sumiço.

   José Raul, também depressa percebeu que a ocasião podia fazer dele um novo aguadeiro, e todos poderiam ficar a ganhar com isso: mais água, menos sede, e higiene avonde.

   José Raul tinha sido combatente da primeira guerra. A língua francesa ainda lhe soava ao ouvido, e dela ficaram palavras e expressões que o regresso calara. Sem interlocutores que o permitissem, mesmo assim ainda ambicionava fazer-se ouvir na língua de Descartes, aguardando apenas pela aberta, que o tempo havia de apontar.

   Para uma plateia pouco dada a outras falas que não as do lugar, José Raul decidiu a solo, a opereta monocórdica que o havia de lembrar.

   Com o burro “Sincero” pela arreata que a mão carreava e os ombros colhiam nas voltas do chicote, começou a percorrer as ruas de Alvor, com a carroça prenhe de cântaros, e entoando o estranho pregão: “de l’eau”, “de l’eau”, “de l’eau”.

   A estranheza do verbo só a princípio confundiu as gentes, pois o transvase dos cântaros era sempre acompanhado da tradução do pregão.

   Habituados que foram às vozes da água, e com os fornecimentos dilatados, tudo pareceu e correu conforme, ao desejo de todos.

 

03
Nov20

Escutar a manhã na Praia de Alvor

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

   O dia nasceu a revelar o mundo para olhos que não os do olhar, tão pouco os de ver, que a ambos o esplendor confunde; porventura mercê tamanha apenas na alma encontre eco, que à matéria, falta para ela entendimento.

   Delicadas as emoções que o vazio insinuante do mar suscita: a sua música de silêncio, entrecortada a espaços pela ténue respiração de pérolas que bafeja a praia; a quietude voluptuosa da sua imagem; a força que emana da sua vastidão chã, do seu rasgo de tranquilidade absoluta.

   Depois o céu, que a coberto da inércia do tempo, veio pelas vertentes claras do seu reino fundir-se nele, tingindo de azul a festa do tempo.

   A envolver a terra um cristal que outorga a mostra de cores que a luz desvenda a cada degrau que o sol vence, e acende os contornos da serra que recortam o azul e proclamam a sua sublime e profícua imobilidade.

   Traços que preenchem as memórias do olhar, e são o norte de quem vive a desvendar o mar e as suas entranhas, rasgando caminhos que permitam a vida.

Não longe da praia, a pontuar um discurso de mar e de céu, escrevem com versos de sal mais uma página das suas olímpicas vidas.

   Verão das serenas madrugadas, onde germinam silêncios que ensinam o mar, e se tecem desejos capazes de suspender o tempo.

O horizonte exprime-se agora na terra: na planura do areal onde se demora, ou já ali, no recortado suave do trecho de dunas em que o olhar repousa, e onde a leveza das gramíneas há-de soprar o mareiro que a rosa determina.

   No mar exalta-se o céu que o habita, ausentes que estão os artífices das fluidas fronteiras; um voo de luz preciso e claro; um cortejo de azul guarnecido de terra.

   Terra que dispensa tais obreiros, já que é inequívoca a sua presença; matéria exacta que não se presta a abstractos devaneios.

   Voam pássaros perto da praia perscrutando as águas na esperança da imagem da presa. Suspensos da sua leveza, miram a superfície onde se desenham e mergulham a sua fulgurante agilidade; agoniam pequenos peixes em bruscos movimentos que os bicos sustêm; estiletes de prata; reverberações suaves de verde sol.

   Pássaros de água e de vento, que se cumprem na voraz subtileza da sua condição.

   Na praia a baixa mar recita leves poemas de espuma, e a terra escuta, como se devem escutar os poemas, apenas.

01
Nov20

Sopro do Alto

Joaquim Morais

  

 

 

 

 

 

   Dia de finados. O propósito era lembrar e interceder com a oração pelos que a terra acolhera e que, enquanto vivos quase sempre atraiçoados pela perversa dinâmica da matéria, dificilmente a virtude os arregimentaria para uma entrada inequívoca no reino dos céus.

   O meu avô ensaiava a eternidade há dois anos. Na pedra desmaiavam o retrato e as palavras, mas já se escrevia a cor e o perfume que o tempo costumava.

   Ainda ausente, apenas o lume, que a noite havia de mostrar no canteiro de pedra que a ocasião e a memória traziam esmerado.

   Para iluminar o arranjo branco e polido, a minha avó pedira-me que lhe comprasse lamparinas.

A luz a flor e as preces, unidas para honrar a virtude de quem foi companheiro e cúmplice na partilha da vida. Para tudo o resto, redundava a perpétua expiação que a morte lhe oferecera.

   Tinha uma pequena loja que me obrigava a idas regulares aos armazéns abastecedores, daí o pedido. Sem eco nem registo, disse-lhe que sim, que o faria na primeira oportunidade.

Dois dias depois, estava eu entre prateleiras repletas de produtos diversos, assinalando na listagem o que delas ia retirando.

   Um reparo final certificou a relação de compras como finalizada, pelo que, sem demoras me dirigi à caixa para o pagamento.

   No ar, a pairar sobre as estantes, os gritos silenciosos de finados e santos a despertar a memória dos vivos.

   Dois dias bastaram para que a minha, a transbordar de lixo existencial, se soltasse das amarras do compromisso. Vozes, apenas as de quem mercadejava.

   Surdo à linguagem do silêncio, eis-me de regresso pelos corredores da ausência, quando da aparente irrepreensível arrumação das prateleiras, se solta e cai bem à minha frente sobre o pavimento, uma caixa que logo não percebi.

   Acorri ao imprevisto; a ideia era devolvê-la; recolocá-la sobre as iguais; preencher de novo a lacuna da sua ausência. Por certo, o equilíbrio instável da arrumação e depois a gravidade, trouxeram-na a meus pés.

   A visão incendiou-me.

   Ouvia agora perfeitamente o silêncio dos gritos.

   A frouxidão do ancoradouro originara a deriva do pedido. Ventos estranhos fizeram-no atracar de novo.

   Soprado do alto, o pedido que a atenção não elegera estava agora satisfeito.

   O fogo fátuo não brilharia na campa do meu avô.

 

 

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