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Alvor,a terra e a ria

Alvor,a terra e a ria

20
Set22

Danças de fugidia luz

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

Danças de fugidia luz

 

 

A obscura mensagem dos sentidos,

O inquieto labor das emoções

Que voluteiam a sua imprecisão

Em danças de fugidia luz.

No turbilhão do círculo, sílabas fugazes

Ensaiam fortuitos acordes.

A música ilumina a palavra

Que nasce serena e clara,

E a bonança regressa nas asas do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Navegações

 

 

 

Sem flor nem luz

Navega-me o leme do vento

Nos mastros nus.

A estreiteza do rio apressa a vida

E a foz desenha-se sem brilho nem glória.

Esmaga-me o algodão do relógio

E o desejo naufraga

Na tormenta do tempo.

 

 

 

 

 

 

 

Sobressalto

 

 

 

 

Procuro o sobressalto das palavras.

A surpresa da sua transparência sombria.

Que sejam pontes, barcos,

Pétalas perenes nos canteiros do vento.

Que a sua música permita

A dança dos Espíritos.

E o seu perfume

Rescenda o ar do seu dizer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flor de Outono

 

 

Os ramos acenam serenas despedidas

E em cada árvore se acende

O esplendor da decadência.

Há uma ânsia de terra

Na palidez das folhas.

Um desejo cinzento.

Um voto,uma certeza.

Os rumores são ecos de silêncio

Que pulsam nos rituais do tempo.

A nudez é uma flor de Outono

Com raiz de vento, perfumada de terra

E matizada pelo olhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cristalina escuridão

 

 

 

Do chão erguem-se páginas de verde

Tingidas pela poesia dos cachos.

Versos de pétalas ausentes,

Ditadas pelo fogo, pela chuva e pela terra,

Que o canto das leveduras irá converter

Na cristalina escuridão dum poema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tecendo a vida

 

 

 

No tear do tempo que me assiste,

Entrelaço os fios da fantasia.

Lanço a trama, teço o dia-a-dia.

Dou-lhe relevo, dou-lhe forma, dou-lhe cor.

Dou-lhe o ar da tristeza ou da alegria.

Dou-lhe a feição

Do desengano ou do Amor.

E da tela, assim entretecida,

Vai nascendo o poema que é a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conquistas

 

 

 

 

 

O vento respira o lugar,

Insinua-se, habita-o,

Toma os perfumes secretos

E sopra no redor suas conquistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conjugações

 

 

A lua convida-me às palavras.

Que o ditame as revele

Conjugando o canto

Com a graça da visão.

 

 

 

 

 

 

 

 

Desafios

 

 

 

Não resisto aos desafios

Da primavera.

Os versos abundam;

Que o olhar os perceba

E o canto os desperte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caminhos do sul

 

 

 

Soaram aos sentidos

As notas da fugidia chama.

Cânticos de cor na voz do cisne

E a lenta agonia dos contrastes.

No céu exemplar

A geometria das aves

Nos caminhos do sul.

 

 

 

 

 

 

Vazio

 

 

 

No palco dos desejos

Apenas claridade branca

Um vazio de luz

Que aguarda a noite do poema.

 

 

 

 

 

 

 

 

Traduções

 

 

 

Que as palavras traduzam

A veemência do desejo.

Que tenham a subtileza do ar

E a leveza do voo

 

 

 

 

 

 Um olhar

 

 

                                 Acendi na cal o olhar

                                 Que uma súbita gaivota preencheu.

O muro, estreito,

Margina a foz da existência.

Talvez o mar esteja por perto.

 

 

 

 

 

 

Fogachos na tormenta

 

 

 

 

Avulsas, dispersas,

Filhas de mórbida inquietação.

Não serão mais

Que fogachos na tormenta.

Barcos reféns de pesadas âncoras

A caturrar versos nas amarras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os sonhos do pousio

 

 

 

 

Fragmentos de poente

Que esvoaçam nas aragens

Em pálidas despedidas.

Pássaros decadentes que aspiram

Aos ninhos da terra

Onde a alquimia do tempo

Torna possível os sonhos do pousio.

 

 

 

 

 

 

As mãos da terra

 

 

 

 

O silêncio e a noite

Incendiaram os gritos do ar.

Vinham do sul

A tocar a harpa da chuva

E a exaltar a inquietação do abismo.

As mãos da terra

Modelaram o barro do clamor.

 

 

 

 

 

 

 

Nas amuras do vento

 

 

 

 

 

Ressuscitam os dorsos nas

Amuras do vento

Com a proa a desfolhar nas cavas

A flor do sal.

O leme e a quilha teimam a rosa

Enquanto as mãos caçam

A luz branca

Que acende o veleiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14
Ago22

O gato Zen e a matemática

Joaquim Morais

 

 

 

  Há nove anos que está connosco; chama-se Zen, e faz total justiça à palavra que o diz.

Veio dum gatil próximo, trazendo já com ele a graça, que, tudo parece indicar, foi desde sempre luva talhada à sua medida.

 

  Chegou muito novo à casa que passou a ser sua, e cresceu com a Rita, três anos à sua frente nas contas do tempo, que o fez aturado desejo, e foi, também por isso, razão determinante para a sua vinda.

  Brincou no devido tempo os seus ditames, e exibiu a sua ágil e irrequieta natureza fazendo as delícias de todos.

 

  O quintal da casa tinha espaço avonde, e suficientes motivos para fazer o que é suposto e esperado aos da sua espécie: caçou pássaros que desafiavam a sua paciência sem nunca a esgotar, insectos vários que se cruzavam nos seus trajectos, e obrigou os clássicos roedores que se atreviam no espaço onde ele reinava, ao temor e ao respeito adequados.

  Teve sempre tempo e largueza suficientes para desenvolver e apurar os seus instintos, e, não sendo um gato de alcofa, nunca a dispensou para as suas, por vezes, demoradas sestas.

  Em todos os quintais vizinhos, e nalguns terrenos que o abandono descuidou, o hábito da sua presença também se fez notar, bem como percebida e apreciada, a sua natureza pacífica e afectuosa.

 

  Prezava o silêncio à sua volta, e era também de absoluto sossego a sua postura. Em casa, nunca ninguém o viu assomado, e os tímidos miados que emitia, aconteciam quando a intempérie o surpreendia em noturnas caçadas, e regressava a casa sinalizando com eles a sua presença.

 

  Adorava sardinhas. Quando aconteciam, sabia-o pela habitual logística a que obrigavam, e, discrecto, silencioso, e ainda muito antes do seu cheiro intenso se espalhar a partir do fogareiro, já ele feito comensal, se sentava à mesa em banco corrido e pose de louça, aguardando pacientemente e sem miados, que lhe servissem a democrática iguaria.

 

  A escola chegou entretanto para a Rita. Os trabalhos de casa e o estudo de algumas matérias, obrigavam aos livros e aos cadernos sobre a mesa, o que levou ao imediato despertar da curiosidade do Zen para o novo cenário.

  Daí até ao pulo para a cadeira mais próxima deles, foi um instante.

  Posto pelas circunstâncias na rota dos livros, passamos a vê-lo de vez em quando, no insólito exercício da sua intrigante observação. Mas nem tudo suscitava o interesse do Zen. Alheado do colorido de desenhos e fotografias, tal como do arrumo preciso das letras nas palavras e das palavras no texto, outra improvável ciência havia de convocar de imediato o seu reparo: a matemática. A agradável impressão causada pela imagem dos símbolos que a traduziam, levaram-no sem hesitações, a aderir à razão dos números, pelos números; tendência que o passar dos anos e as diferenças nos níveis de aprendizagem da Rita, manteve sem abrandamentos.

  Zen sentava-se num lugar feito seu pelo hábito, e percorria atento as páginas que a Rita ia folheando, percebendo-se nitidamente o movimento da sua cabeça, na condução do olhar pelas ilustrações numéricas que a sua condição eminentemente felina, parecia apreciar, e estranhamente adoptou.

 

  Sem o desconforto de ter que se debruçar sobre a eventual complexidade da matéria matemática, Zen parece ter descoberto nos infindáveis quadros da sua profusa simbologia, uma tranquilidade bem à medida do seu nome.

 

 

  O Zen continua connosco, e festejamos juntos e em silêncio, o prazer do reencontro a cada dia.

 

30
Jul22

os pescadores e os deuses

Joaquim Morais

 

  Do alto das serras do redor, desceram ribeiras com sonhos mareantes. Talharam na terra novos rumos; fizeram-se ria; e abriram as portas do mar aos que na imensidão tinham o destino e a razão.

 

  No lugar, o azul intenso que do sul acenava marulhando na praia as vozes da lonjura, preenchia as vontades e dizia-se caminho. Quase nada, para além dessa sedutora via.

 

   Entre a terra e o azul profundo, a mansidão da ria; uma largueza de águas vivas respiradas pelo vigor da lua; o lugar da iniciação, onde o aprender rimava com o ser; o repousado ensaio para a peça por vezes dolorosa, que os homens decidiam levar à cena em mar aberto.

 

  Porventura fascinados pelo canto e pela cor, ou porque a terra pouco ou nada tinha para lhes dar, foram muitos os que se fizeram pescadores. Viveram o desconforto da faina em precários berços de tábuas, ao sabor dos elementos, e navegando as emoções que as circunstâncias urdiam.

 

  Aos barcos, que o tempo decidia, impelia-os a força de vigorosos braços. Forjados no calor da faina, e temperados por bátegas de sal governadas pelo vento, tinham nas mãos o desenho das incontáveis remadas, escrevendo rotas que as estrelas ditavam. Quando reinavam sopros bonançosos, festejavam-se as tréguas, emprenhavam-se velas, e nasciam na proa dos botes, risadas de alabastro que os olhares celebravam.

 

  Porque era dura a faina, e por vezes violenta a escrita do mar, os homens chegavam-se aos deuses: diziam-no nas vistosas amuras das pequenas embarcações, inscrevendo nelas os eleitos da sua devoção. Consagrados pelo culto e sustentados pela crença, era suposto estarem a seu lado, quando tivessem que afrontar o aperto ou a má sorte.

 

  No tempo, e quando ao largo medravam ameaçadoras sombras e crescia a incerteza, algumas mulheres rezavam na praia, alternando os olhares entre o céu e o mar revolto

 

 

  Pelos meus avós, ambos pescadores, e por todos os que trocaram a relativa e provável firmeza terrena, pelo exíguo espaço dum barco a vogar a inquietação e o imprevisto, fica, mais uma vez, a notícia dum tempo e dum lugar onde os milagres dos homens eram obra dos deuses.

 

11
Jul22

AS SALGADEIRAS

Joaquim Morais

salgadeira.jpg

 

 

 

 

 

 

                                                                       

 

 

 

 

 

 

  A aldeia, como quase todas as do seu tempo, convidava ao mosquedo. Era o resultado de comportamentos descuidados, e da ausência de regras de higiene pública: a uma lixeira colectiva, a céu aberto, sem qualquer tratamento e não muito distante do casario, juntavam-se em muitos quintais pequenas compostagens, também ao ar livre, sem critérios de higiene na selecção e na preparação dos resíduos, que continham frequentemente restos de fácil putrefacção. Num cenário de evidente ausência de cuidados sanitários, era inevitável que as moscas reinassem, tornando-se difícil acabar com o seu consistente protagonismo.

 

 

  Pestilentas e atrevidas, eram um desafio permanente para os que recusavam ser alvo das suas intermináveis investidas, e porto para as escalas do seu voejar.

  Nalgumas casas, as portas que davam acesso aos quintais, alguns deles a funcionar como excelentes locais de incubação, estavam protegidas com fitas coloridas, que drapejavam ao gesto e ao vento, mas evitavam em certa medida, o acesso destes e doutros insectos voadores. O mesmo processo era utilizado nalguns estabelecimentos comerciais. Nas casas de habitação, era costume as pessoas enxotá-las várias vezes ao dia, agitando panos ou toalhas, que as encaminhavam de divisão em divisão, até à rua.

  Não existindo diligência publica estruturada para atalhar a sua disseminação, ficava ao critério daqueles a quem importava o desconforto, a improvisação de medidas que o minorasse.

 

 

  Vinham de todos os lados, atraídas pelo odor açucarado das uvas. Esvoaçavam o desejo de sugar, seguindo o rasto meloso deixado no caminho das adegas, e pairavam nos lagares, teimando nos homens, os braços e os rostos peganhentos do labor da pisada. Sem bracejar que as demovesse instalavam-se no pasto de doçura em que o lugar se convertera, e por lá haviam de ficar até à consumação do néctar que as enormes pipas hospedavam.

 

  As adegas eram, pelo seu adocicado e aromático ambiente, locais de excelência para a permanência destes insectos, e capazes de atraí-los de grandes distâncias. Por tudo isto, e pela aparente inevitabilidade da sua presença, houve quem nelas engendrasse maneira de a manter em níveis aceitáveis.

  A natureza da actividade por um lado, e a qualidade dos vinhos produzidos por outro, convidavam não só as moscas, mas também os inúmeros discípulos de Baco, que, no tempo devido, estavam sempre presentes para festivas e preciosas libações. Não sendo inconciliável a presença dos insectos com o desfrutar dos néctares, o exagero do seu assédio acabava por importunar.

 

  Os edifícios onde as tabernas estavam instaladas, eram de média dimensão, e alguns tinham na divisão do atendimento aos clientes, estupendos tectos com estruturas baseadas em robustas armações de asnaria, que a tradição acolhia e recomendava.

  Enquanto criança, quase todos os dias e a pedido do meu pai, deslocava-me às adegas que abundavam em Alvor nessa altura, algumas bem perto do lugar onde morava. Os mandados destinavam-se a trazer à mesa das refeições, o vinho que ele tanto apreciava. Nessas andanças de mandado e quando o atendimento demorava, o olhar vagueava no redor fixando as evidências que nem sempre iam ao encontro do entender dos anos. Bem à vista, suspensos do vigamento inferior das asnas, alguns conjuntos de ramos de um arbusto desconhecido para mim, pendiam criteriosamente amarrados e distanciados uns dos outros. Não entendi o propósito, nem a curiosidade se moveu para deslindá-lo.

   O esclarecimento chegou já em adulto, quando, em amena conversa se lembravam tempos de adegas buliçosas, animadas pelo prazer do vinho que o S. Martinho renovava em primaveras de circunstância, feitas da sua vibrante, aromática e cristalina condição.

 

   Eram salgadeiras o que as traves continham suspensas da sua imobilidade. Um arbusto comum nos sapais que circundavam a ria, e que alguém decidiu usar em desfavor do mosquedo.

   A noite interrompia nas adegas a azáfama das moscas. Era tempo de se recolherem e abrigarem, até que o dia rompesse e retomada fosse a sua maçadora existência. Eleitas dormitório, as salgadeiras eram cobertas por revoadas de moscas mal caía a noite, transformando a sua natureza vegetal em alado e disforme pendente.

  Encerrada a loja, seguia-se o tratamento ao mosqueiro que repousava do labor do dia: munido duma saca de serapilheira de boca larga, o taberneiro subia cuidadosamente e em silêncio por uma escada até junto à salgadeira inundada de moscas, e, com um movimento rápido e preciso, introduzia a salgadeira na saca, segurando e fechando o ramo pela base; acto contínuo, desatava o nó que prendia o ramo à trave e descia com ele bem preso e a saca bem cingida à sua volta. Feita a captura, restava eliminá-las. Nada mais simples, apesar da sua feição um tanto ou quanto bizarra: com a saca a envolver o ramo e a prendê-lo com firmeza, fustigava com ele o chão do quintal ou da rua, até que não houvesse rumor ou sinal de mosca viva.  

  A seguir era devolver a nudez ao ramo, varrer o mosquedo, e voltar a pendurar nas vigas das bonitas asnas, essa traiçoeira alcova.

 

  E assim se cumpria com êxito, uma estratégia de controlo sanitário pouco ortodoxa, mas de razoável eficácia.

 

 

26
Jun22

A AROEIRA

Joaquim Morais

 

                                                                

              

                                              

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                                                                             A AROEIRA

   Era o arbusto preferido das felosas, que saltitavam a aparente inquietação no aromático entrelaçado dos seus ramos: buscavam drupas, as bagas que o amadurecimento tingia de negro, e que eram ao fim e ao cabo, a razão primeira para a cíclica aventura migratória que a sobrevivência determinava.

  Os coelhos escolhiam-nas, para junto aos troncos fortes que as enraizavam, escavarem labirínticas tocas, enquanto as perdizes urdiam o futuro abrigadas pela sua cerrada e frondosa copa.

   Parte activa do eco-sistema a que pertencia, e inserida na paisagem terrena com correspondente relevância paisagística, a aroeira havia de revelar inesperado préstimo em aquático meio, levada pela mão do homem que nele tinha o seu modo de vida.

  E que melhor lugar do que a ria de Alvor, para protagonizar uma nova e inesperada valia, e garantir um desempenho duplamente benéfico, apesar da aparente discordância elementar.

 

  A ria é um desafio permanente a quem a ousar. A sua linguagem nem sempre explícita, seduz apenas os que a virtude arregimentou para a aprendizagem, tornando-os confidentes duma natureza que tem muitas vezes no improvável, a porta de entrada da sua revelação. Privilegiados e dedicados ao seu entendimento, talvez tenham sido estes, que nas marés e no tempo certos, pela experimentação, ou pela constatação de que um fortuito ramo de árvore trazido pela corrente e depositado em acessível remanso era abrigo habitual de chocos, terão inaugurado um novo meio de captura destes saborosos cefalópodes.

  Restava encontrar nos campos em redor, a árvore ou arbusto que melhor poderia servir para o efeito. De ar frondoso, copa cerrada, resistente e aparentemente capaz para integrar e compor o novo habitat, a aroeira parecia ajustar-se perfeitamente ao que dela se pretendia.

 

  Para mantê-las submersas, e resistir aos ventos de água soprados pelas marés, dotaram-nas de raízes de pedra. Passariam a vogar a dinâmica das águas oceânicas, na medida dos cabos que as prendiam.

   Eram colocadas em lugar acessível pela baixa mar, mas de maneira a ficarem completamente submersas, mesmo em marés de vazantes extremas.

  Com a ria escoada, nas manhãs calmas e de águas transparentes, o pescador fazia o circuito das aroeiras pelos baixios que as continham, deslocando-se em silêncio e fazendo atenta e cuidadosa abordagem ao seu redor, e à parte que os ramos cobriam. Após contacto visual com os chocos, que, umas vezes enterrados na areia, noutras imobilizados mas prontos para escapar à mais pequena ameaça, redobravam-se os cuidados para não os afugentar. A sua captura era feita com fisgas artesanais fabricadas pelo ferreiro “Justo”, homem competente na arte da forja, e que trabalhava o ferro com mestria.

   Ainda muito jovem, também passei pela sua oficina, e tive o privilégio de o conhecer. Alguns dos bicheiros e fisgas, que na adolescência usei na pesca dos polvos nas praias rochosas de Alvor, foram feitas por esse bom homem e grande mestre. Com ele trabalhou também o sr Alfredo, conhecido por Alfredo “Nórinha”, figura popular, e profissional competente na mesma arte.

 

   À natureza cabe estabelecer relações entre os elos da cadeia, para que a harmonia do sistema prevaleça. Ao homem cabe tirar dela vantagens em benefício próprio, com a sensatez necessária à salvaguarda do seu equlíbrio.

 

   É claro que não veio mal ao mundo pela aroeira, e que, muito pelo contrário, até ajudou: os novos habitats criados passaram a funcionar como banco de ovas, e a ria, porta aberta para o mar, garantiu e acentuou a renovação da espécie no seu seio, contribuindo também com ajuda de relevo para o repovoamento oceânico; acresceu a tudo isto, uma pequena achega ao ganha pão do pescador.

 

 

 

   No meio piscatório a aroeira era conhecida por dároeira. Nem sempre as palavras do lugar coincidiam com as do manual. Talvez particularidades próprias do meio social, e ou cultural, porventura do aparelho vocal, tenham levado à junção da consoante d à vogal inicial, para mais comodidade no dizer.

  Por esta ou aquela razão, acontecia na comunidade serem retocadas palavras, principalmente entre os pescadores.

       

 

                                                                              

 

 

 



 

 

 

                                                                              

 

 

 

10
Jan22

Os caminhos da água

Joaquim Morais

 

 

Brotam no silêncio austero

dos íngremes recantos da terra,

e em cada gota trazem a imensidão e o azul.

Soletram as pedras que dizem do seu norte,

e navegam rasteiras estrelas,

até que o mar os tome, e nos canteiros do sol

acendam os humores do vento.

Voltarão na suspensa leveza das alturas,

esperando que a harpa da chuva

execute a música do tempo.

01
Jan22

A moda na igreja do padre David

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

  David Marreiros Neto, nasceu em Monchique em 1902. Homem de saberes variados, tinha na terra as suas raízes mais profundas.

  Iniciou-se no ministério como padre auxiliar em Loulé, ocupando nos anos trinta, por nomeação da diocese, a paróquia de Santa Bárbara de Nexe.

  Aí, e segundo alguns paroquianos, cedo começou a revelar o seu carácter interventivo, principalmente junto dos jovens, ficando na memória de muitos paroquianos, variados exemplos do seu controverso temperamento.

  Depois de uma década ao serviço da igreja nessa localidade do barrocal algarvio, o polémico pároco foi colocado em Alvor, onde viria a desenvolver o seu longo e por vezes agitado ministério, até ao ano de 1975, data em que faleceu por doença negligenciada.

 

  Os anos que passou em Alvor permitiram-lhe conhecer e ser conhecido. Se por um lado, esse mútuo entendimento preparou os seus paroquianos para os cuidados a ter na abordagem de assuntos, que envolvessem mudanças na ordem estabelecida, serviu, por outro, para tê-los prevenidos em relação à sua frontal e nem sempre simpática maneira de os interpelar.

  Inovar não era seguramente a sua vocação, nem para isso o convocava réstia de entusiasmo.

 Sendo homem assumidamente avesso a modernices, não hesitava nas críticas e consequentes advertências, a quem pusesse em causa os preceitos vigentes, que a igreja e ele próprio, entendiam como os mais adequados. Cristalizado na tradição litúrgica mais conservadora, pouca ou nenhuma abertura mostrava para refrescá-la, ao contrário do que se ia fazendo noutras paróquias.

  No entanto, e em desacordo com o que a doutrina sugere em relação ao decoro no uso da palavra, permitia muitas vezes que a grosseria tomasse o seu lugar.

 

  A década de sessenta trouxe coisas novas para o lado feminino. A moda mexia com o mundo, e as mulheres iam mostrando no rosto e no vestir os sinais da mudança. Se algumas ainda hesitavam a plenitude da moda, outras havia que exibiam sem vacilações a sua exuberante inteireza.

  Particularmente atento a tudo isso, agraciava-as com mordazes alfinetadas, sempre que a ausência de sobriedade no semblante, ou no traje, as transformasse em peças carnavalescas, como costumava dizer.

 

  A novidade era fértil, e a esses novos desafios que as tendências da moda iam colocando, ia o padre David respondendo, umas vezes com divertida frontalidade, e noutras com intransigente rispidez.

  Era ágil na palavra, muitas vezes metafórica, carregada de ironia, que, para além da acidez, cumpria o seu propósito com a graça própria do seu dizer.

  Deixou-nos um conjunto de divertidas intervenções que se tornaram populares pela contundente chacota.

 

 

 

 

                                                                                          *************************

 

 

 

 

   Chamaram-na de missa do galo. Claro se torna, ter havido influência de macho galináceo na razões da designação.

  São muitas as versões que o relatam, e, por extensas, e mais ou menos fantasiosas, importará pouco nesta altura o pormenor dos seus conteúdos.

  Porventura mais relevante, será a constatação que apenas nos países onde se fala português ou espanhol se celebra com o nome de missa do galo, aquela que no resto do mundo católico é chamada de missa da meia noite.

 

  E foi pouco antes da meia noite, que teve início a celebração da missa do galo num ano da década de sessenta, que não posso precisar.

  A terra ainda tinha nas alturas muitos dos seus olhos, e a igreja fazia-a mais próxima dos que a crença iluminava; e eram muitos, os que, nessa noite, celebravam o menino, e a esperança.

 

  Após o jantar de natal, a mesa mantinha-nos juntos, e por lá ficávamos até à altura da missa do galo. As cantorias e a conversa, intercaladas pelo permanente apelo da doçaria e das bebidas que a mesa mostrava, consumiam depressa o tempo, até à hora de voltar a cumprir a tradição.

  Era um hábito consolidado, e raras as pessoas que não participavam na festa do nascimento que a igreja propunha.

 

  A liturgia da noite de natal era de especial significado para a igreja, e para os que nela se reviam. O nascimento de Jesus foi um marco relevante para o mundo cristão, e o padre David punha sempre na homilia sobre as leituras e sobre o evangelho, toda a sua alma de apóstolo da igreja.

  Aliás, era reconhecida em toda a diocese, a sua fama de grande orador.

  Na parte final da missa, era costume o beija pé ao menino. As pessoas enfileiravam-se ordenadamente, e aproximavam-se uma a uma da capela mor, onde o padre David, segurando a imagem do menino com a mão esquerda, ia dando a beijar o seu pezinho. Após cada beijo, limpava o pé do menino com um pano que a mão direita segurava. Era a higiene possível, e, em tempo de miraculosas ocorrências, a fé havia de valer-nos a todos.

  A fila era enorme, porque raros os que prescindiam de exercer o privilégio.

  Uma a uma, as pessoas aproximavam-se para o beijo, sob o olhar atento do pároco.

  Até que, surgiu a mulher, que abriu no rosto a rosa vermelho vivo dos seus lábios, e depressa incendiou os olhos do padre David. O choque foi imediato e a resposta pronta:

- Vá embora mulher! Desapareça! Desapareça! Não me suje o boneco! Não me suje o boneco! E num repente, retirou do alcance da garrida boca o pé de Jesus.

  Se esteve ou não eminente, afronta séria ao carácter sagrado do ritual, apenas o padre David poderia esclarecer.

  Claro deve ter ficado, se dúvidas houvesse, que, daí em diante, exuberantes adereços não tinham cabimento na igreja do padre David.

  O termo “boneco”, usado pelo pároco aquando do incidente, não era de grande estranheza.

  Recordo que, quando os que tinham a responsabilidade da organização de procissões, decidiam as imagens eleitas para nelas desfilarem, e o seu número parecia exagerado, o padre David atalhava dizendo: “ já chega de madeira na rua”.

 

  O divino, não parecia para ele, estar associado à diversidade imagética, mesmo que, pontualmente comovente, da arte sacra. Eram apenas figuras, (bonecos) feitas de materiais comuns, (madeira) que artistas, no exercício do seu ofício produziam. Homens ou mulheres, que até podiam viver à margem da igreja.

  Arte terrena, rasteira, que ele recusava sacralizar.

 

14
Dez21

Talvez poesia

Joaquim Morais

 

 

 

 

 

no princípio era o silêncio

e as palavras diziam

seu gesto e seu rumor

 

 

 

palavras novas

 

dos poetas chega a notícia

das palavras novas.

Palavras que ousam o lado invisível

da respiração do mundo,

e nos trazem o en(canto)

da sua perfumada estranheza.

 

 

 

O verso que nos cabe

 

quando às vezes decidimos a quietude,

e tudo repousa no olhar,

ouvimos a música.

Talvez traga com ela

o verso que nos cabe.

 

 

 

Vagaroso reparo

 

Sufoca-nos o brilho redundante,

enquanto na leira dos detalhes,

se perde a colheita do vagaroso reparo.

A safra dirá dos brandos sobressaltos

das coisas furtivas,

e das sóbrias palavras que suscitam.

 

 

 

A árvore e o vento

 

Já que a raiz não lhe consente,

pede ao vento

que respire seus perfumes na lonjura.

Que leve a sua primavera

até onde o ar permita,

e em cada sopro diga

de sua formosura.

 

 

 

Roseiras

 

Mostram ao mundo

a cor e o perfume,

e quando o gesto se atreve,

o desencanto da inesperada dor.

Será que a graça

cobra mágoas pelo amor.

 

 

 

Rotas infindáveis

 

O poema irá para onde o levar

a deriva das suas infindáveis rotas.

Conduzem-no os vislumbres do trajecto

e a aleatória rosa do seu leme.

 

 

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